Crônicas do Tempo
Uma corrida de obstáculos sem prêmio
Entre filas, carrinhos e personagens, uma ida ao mercado vira desafio
Publicado em 16/08/2026 às 06:52
Por Emerson Branco
Saí do trabalho e, antes de encarar o sofá, resolvi passar no mercado. Peguei meia dúzia de produtos — os essenciais, nada de exageros. Mas a fila... a fila já era um evento à parte. Daquelas em que a gente entra sabendo que vai dar tempo de repensar a vida, rever escolhas e ainda planejar os próximos dez anos.
Cansado de olhar para o celular — e de constatar que a fila mal tinha andado — resolvi observar as pessoas. Foi então que percebi: o mercado é um dos lugares mais democráticos que existem. Ali convivem, em uma espécie de democracia caótica, o sujeito de terno e gravata, quem acabou de sair da academia, o solitário com pressa, o grupo que decidiu fazer um churrasco de última hora e a família inteira que ocupa o corredor como se estivesse na sala de casa.

O casal à minha frente, por exemplo, parecia estar fazendo compras para os próximos três meses — ou para uma guerra. Quem sabe um bunker? O carrinho não acabava mais. Eu, com minha cestinha de seis produtos, tive tempo suficiente para imaginar a vida deles e viajar até as minhas idas ao mercado quando era criança.
Naquela época, o mercado era outro. A vendinha do seu Hercílio não tinha corredores para passear. Havia um balcão de madeira separando os fregueses dos produtos. Minha mãe entregava a listinha e ele ia pegando cada item enquanto eu, na ponta dos pés, namorava os doces.
Eles ficavam num balcão de vidro, estrategicamente colocado na altura dos nossos olhos. Às vezes, conseguíamos convencer a mãe a levar uma paçoca, um doce de abóbora em forma de coração ou o inesquecível guarda-chuvinha de chocolate, que insistia em grudar no céu da boca. Em outras, o prêmio era o doce de bexiga. O sabor nem era grande coisa, mas a bexiga compensava qualquer decepção.
Antes de ir embora, quase sempre se ouvia:
— Marca aí que depois eu acerto.
Era o famoso fiado, uma verdadeira instituição nacional. Ainda existe, mas ganhou roupa nova. Hoje, a frase mais brasileira das compras talvez seja:
— Vamos esperar o cartão virar.
Mudou o nome, mas a alma continua a mesma.
O tempo passou, e o mercado mudou junto. Na época da faculdade, quando a única coisa que se tinha em abundância era a vontade de tomar café, entrar ali era quase um programa de lazer, principalmente por causa das degustações. Eu fazia questão de provar todos os cafés em promoção, mesmo sem a menor intenção de comprar qualquer um deles.

Hoje, só de pensar em fazer compras já escapa um suspiro. Ainda assim, continua sendo uma fonte inesgotável de histórias.
Na pandemia, então, virou um campo de batalha. Pouco antes do lockdown, fui às compras depois do trabalho. Era um caos. Carrinhos abarrotados, corredores congestionados e olhares aflitos. Uns enchiam o carrinho de comida como se o fim do mundo fosse exigir um estoque industrial. Outros levavam fardos e mais fardos de papel higiênico. Enquanto isso, eu, com minha cestinha, só conseguia pensar:
— O que será que eu perdi?
Véspera de feriado é outro espetáculo. O mercado lota, os carrinhos se chocam e parece que todo mundo acredita que as próximas quarenta e oito horas serão uma travessia pelo deserto.
Mesmo nos dias comuns, porém, ele coleciona personagens.
Tem o indeciso, que paga a compra e volta correndo para buscar "só mais uma coisinha". Repete isso tantas vezes que parece participar de uma prova de revezamento.
Tem o caixa com fila pequena que parece um presente dos céus, até a atendente anunciar:
— Caixa fechando.
Tem o sistema que resolve travar justamente na sua vez. E, como sempre, a culpa é do sistema. Coitado. Nunca teve direito de defesa.
Há também quem abandone o carrinho bem no meio do corredor para responder uma mensagem no celular, formando um congestionamento digno de horário de pico.
Não falta o enviado pela mãe ou pela esposa que não consegue encontrar nem o feijão. Caminha de um lado para outro olhando as prateleiras com a mesma expressão de quem procura os óculos enquanto eles estão sobre a própria cabeça.
Existe ainda aquele que pergunta o preço de cada produto, mesmo com a etiqueta bem à sua frente. Talvez seja uma técnica de sobrevivência. Talvez um experimento psicológico com o atendente. Ou talvez só queira conversar com alguém.
E há o carrinho desgovernado. Aquele que insiste em puxar para um lado, range nas quatro rodas e obriga você a atravessar o mercado inteiro empurrando-o na diagonal, fingindo que está tudo sob controle.
Outro clássico é o distraído que começa colocando suas compras no carrinho de outra pessoa e, quando percebe, já está quase indo embora empurrando o carrinho alheio.
No fim das contas, o mercado nunca foi apenas um lugar para comprar comida. É uma corrida de obstáculos sem prêmio, em que o maior troféu é conseguir chegar ao carro com todas as sacolas, sem esquecer nada e sem precisar voltar porque faltou justamente o café.
Na próxima vez que for ao mercado, não tenha pressa. Observe ao redor. Você vai perceber que cada corredor guarda uma história — e que todos nós, em algum momento, somos personagens dessa comédia cotidiana.
É como entrar na “Caverna do Dragão”: a gente sabe que uma hora vai sair... só nunca sabe exatamente quando.

As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
Notícias relacionadas
Feira Livre do Oásis celebra um ano com show ao vivo nesta sexta-feira
17/08/2026 às 13:53
PROMPT DE LÍDER, O EMBUSTE FINAL!
16/08/2026 às 07:05
Sobre pastel frio e outras formas de resistência
16/08/2026 às 06:52
51 Anos de história e as memórias marcantes do radialista “Cláudio Luiz”
16/08/2026 às 06:51
Sobre o Agosto que começou em Julho
09/08/2026 às 07:01
O Par Perfeito: Trufas de Chocolate Branco para o Café do Dia dos Pais
09/08/2026 às 06:59