EntreMentes
Sobre pastel frio e outras formas de resistência
Sabem ‘aquele dia’, que acontece quando a gente acorda e levanta da cama com o pé esquerdo?
Publicado em 16/08/2026 às 06:52
Por Fernanda Curanishi
Olá pessoal! Obrigada por estarem mais um domingo aqui, em nosso cantinho. É com grande alegria que eu os saúdo e espero que estejam todos e todas bem.
Mais uma semana se passou, e parece que o clima está voltando a ser o de Paranavaí. Não sou adepta dos calores extremos, mas quando agosto chega com temperaturas mais altas, confesso que eu sinto estar de volta ao lar. Parece que as coisas voltam ao seu lugar, e isso me dá uma sensação de familiaridade.
Aliás, falando de coisas familiares, meu tema favorito para puxar conversa, essa semana aconteceu mais uma dessas situações. Não sei se conseguirei explicar detalhadamente o sentimento, mas me esforçarei para chegar lá.
Sabem ‘aquele dia’, que acontece quando a gente acorda e levanta da cama com o pé esquerdo? Esse mesmo, em que a gente se arrepende de ter saído de casa. Essa semana eu tive um dia desses. E falo a vocês com certa proximidade, pois quem nunca? Faz parte da experiência humana a vontade de pular um episódio da vida, quando, na verdade, temos que vivê-lo na ordem da temporada da vida.
São aqueles dias em que os desencontros acontecem, em que acaba o gás na hora de cozinhar o almoço, que a luz falta quando você está enxaguando o cabelo no banho, ou quando chove assim que você desce do ônibus. Sem guarda-chuva, evidentemente. Sabem do que falo? Essa semana eu tive um dia exatamente assim.
Desencontros acontecendo dentro e fora do trabalho, antigas perseguições me assombrando, vários pequenos compromissos diários que atrasam o trabalho. Nós, brasileiros, vamos vencendo as barreiras cotidianas conforme elas surgem. E somos especialistas em acumular os desconfortos do existir: nós os empilhamos como uma verdadeira torre de taças, dessas que um suspiro mais forte pode lançar ao chão.
Nesse dia, problemas médicos aconteceram também, tive dificuldades em conciliar doenças existentes com um cronograma que os médicos desorganizaram. Passei mal. Recobrei-me. Consolei o filho (em semana de provas, aliás) que não tirou uma nota tão boa assim. E segui empilhando minhas taças. Aliviada pelo fim do dia que o pôr-do-sol anunciara, junto com o cansaço físico e o desânimo do todo, abri a geladeira.
Há dias em que o cansaço pesa na hora de tomar decisões. Eu não sabia exatamente o que preparar para o jantar, as crianças aqui têm uma rotina alimentar que seguimos (quase sempre) religiosamente. Antes de pensar no cardápio equilibrado, eu respirei fundo e entendi que todos os trabalhos de preparo, servir e limpar seriam mais taças que eu não estava disposta a adicionar na minha pilha. Fechei a geladeira e propus:
- Que tal pedirmos algo?
Sei que isso é comum para muitas famílias, mas aqui não é bem assim. Então quando isso acontece, a casa não hesita nem perde a oportunidade. Em questão de segundos, ouvi um “Eu quero pastel!”, e em instantes o pedido fora feito. Uma bobagem, né? De fato, mas uma bobagem que me ensinou mais uma miudeza do cotidiano, ao longo dessas décadas. Aprendi que é na pausa do instante que uma enxurrada de cansaço simplesmente nos deixa, e voltarmos a ser inteiros de novo.
- Ganhei 50 minutos de sofá, pela primeira vez na semana. As crianças sentaram-se com a mãe e ali conversamos, brincamos, sorrimos. Partilhamos a delícia do estar junto em família, e houve comunhão de risos, de perguntas e aprendizagens que também acontecem nos momentos de ócio. Por que estamos perdendo esses momentos?
Enfim, eu não derrubei minha pilha de taças, mas a depositei calmamente sobre a mesa das despreocupações. Eu nem sabia que ela existia, mas voltar-me para um momento autêntico, em casa, fez com que essa pilha diminuísse consideravelmente. Quando chegou o jantar, todos comemos alegremente. Até o pedido, que veio errado e chegou com atraso, não se transformou em problema. Nos fartamos de pastel frio como se estivéssemos em um banquete. Depois teve partidas de batalha naval, mãe pintando a unha da filha, música e dança. Uma verdadeira ousadia diante de um mundo que cobra perfeição e desempenho para fora de casa, não dentro.
- Viver é resistir. Aos desafios, às contradições e dificuldades que a vida em sociedade nos impõe dia a dia. Meu modo de desafiar esse padrão questionável de vida é estar em família, um dos raros lugares em que eu posso ser eu mesma. Acredito que todos nós temos um ambiente que nos ajude a seguir com mais leveza. Pizza, futebol, caminhada, grupo de oração, bicicleta. Não sei qual, mas torço para que você tenha encontrado o seu.
Quando tornei a visitar a mesa, não sei dizer quem levou boa parte das taças embora, nem quando isso aconteceu, mas sei que sobraram apenas algumas, as mais delicadas, as que precisam de mais cuidado para que em breve eu possa me livrar delas sem que tenham trincado.
Enquanto isso, ousarei fortalecer vínculos tantas vezes quanto me for possível. E estar aqui com vocês é um deles.
Com votos de boa semana,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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