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Sobre o Agosto que começou em Julho

O tema desta semana não é dos mais leves mas, como sempre, é algo que faz parte da vida e que, como todo motivo de coluna escrita, realmente aconteceu.

Publicado em 09/08/2026 às 07:01
Atualizado em

Sobre o Agosto que começou em Julho (Foto: Obra: The Stages of Life (1835) — Autor: Caspar David Friedrich)

Por Fernanda Curanishi

Olá meus amigos leitores! Que bom ter vocês por aqui em mais uma conversa. Eu não conheço a maioria de vocês, mas quando escrevo a coluna semanal, eu imagino que estamos todos conversando em volta de uma mesa: o pão partilhado, um café quentinho e o coração aberto!

É assim que toda semana deveria começar, com pessoas numa roda de conversa e estreitamento de laços. Eu gostaria de muito de saber das experiências e modo de ver a vida que vocês trazem, então sempre que possível, comentem no post para continuarmos a discussão, será ótimo!

Confesso que o tema desta semana não é dos mais leves mas, como sempre, é algo que faz parte da vida e que, como todo motivo de coluna escrita, realmente aconteceu. O mês de agosto começou de forma lenta e dolorosa para mim, dando continuidade a um Julho digamos, atípico.

Julho chegou com promessa de pipoca e quentão, mas eu tinha duas pessoas muito queridas hospitalizadas, e em gravidade. Eu repetia para mim mesma: qual é a chance de perder duas tias de uma vez? Com esse pensamento eu iniciava minhas orações e tranquilizava meu coração, porque idade tem desses sustos. Mas o mês foi passando, as previsões piorando e o destino, que nos ironiza quase sempre, levou de nós não duas, mas três familiares. Então sim, a coluna de hoje falará sobre perda.

Confesso que um dos tios que partiu morava distante. Era muito querido, sem dúvida, mas os milhares de quilômetros que o separava de cá não permitiam convívio. Ele foi o primeiro a partir. Rezamos, confortamos a família no que pudemos e eu comecei a refletir sobre o luto. Eu sempre fico reflexiva nessas ocasiões, para além da perda da pessoa propriamente dita. Começando pelo viés biológico, é muito abstrato, para mim, o fato de que a pessoa amanhece hoje bem, alegre e feliz. Mas algo acontece durante o dia, e a noite ela já não está mais entre nós. A transitoriedade da vida é tão fugaz, e a hora da morte tão rápida, que parece aquela festa de aniversário que eu fui quando criança, em que meu pai me deixou na porta da casa da amiguinha e a festa estava ótima, mas ele chegou para me buscar bem antes do combinado.

Então faleceu a segunda tia. Esse golpe foi pesado. Também distante, mas logo ali. Convivemos, e conversávamos sempre. Risada alta, brincadeiras irônicas entre os da casa e alguns xingamentos, às vezes. Alguns gritos, mas quem mora em casa de italiano sabe como é. A casa dela parecia pequena demais para caber os afetos que moravam lá dentro. Imagino o tamanho do vazio que lá ficou agora, depois da partida. Ver os que ficaram é algo que, honestamente, parte meu coração. 

Julho continuou. A terceira tia recebeu alta, graças a Deus! Mas a perda do primeiro tio a desolou. Logo, sua fragilidade sucumbiu e ela voltou para o hospital. E dali ela se encantou, e partiu junto ao irmão para se encontrarem com os antepassados. Três perdas, três lugares a menos na mesa de jantar e três diferentes pedaços da família estão quebrados.

Eu não gosto de velório (aliás, quem gosta?), mas quando chego, vou pela família que requer conforto. Consolei a quem consegui, e rezei por aqueles com quem não conversei. Nessas horas, é disso que precisamos, suponho. Uma mão amiga, um ombro acolhedor e palavras que dissolvam as mágoas, remorsos e inconformismos. Porque o defunto não precisa de nada disso agora, eles precisavam durante a vida. E embora eu tenha mantido contato com todos eles, agora que tudo isso aconteceu, parece que não fora suficiente.

Particularmente, eu deveria ter conversado mais, abraçado mais, feito mais chamadas de vídeo. O problema é que a gente acha que na correria entre trabalho, casa, escola e obrigações, sobrará tempo “mais tarde” para fazermos aquilo que realmente importa. Resgatar uma amizade antiga, mandar um “oi sumida” para a prima no WhatsApp, combinar aquele chopp que “vamos marcar” já tem três anos. Isso mesmo, três anos, não foi no mês passado (como nossa calculadora mental costuma fazer parecer). Porque amanhã, posso ser eu no caixão, ou aquele familiar/amigo com quem eu não falo há um tempo.

Só depois de tentar cuidar dos que ficaram eu penso no meu próprio processo de luto que, ao meu modo, é difícil e doloroso também. Ver que os ícones da minha infância, ou aqueles que ajudaram a construir as melhores histórias dos almoços de domingo estão partindo, ah, isso é… diferente. Conforme minha própria história se dissolve, aquilo que parte também continua dentro de mim. E que agora, sou eu a adulta da vez, e preciso agir como tal (embora muitas vezes eu não entenda como a vida de gente grande funciona). Eu devo criar novas histórias para os almoços, adubar as infâncias que já se anunciam na família, e auxiliar na continuidade de nosso nome.

Eu não sabia que o ofício de jardineiro dos outonos, aquele que cuida das raízes quando o inverno se anuncia era tão difícil, mas talvez seja por isso que ninguém passa pela perda sozinho. É possível que seja justamente esse o sentido de permanecer, o de não impedir que as folhas caiam (porque elas caem), mas cuidar para que as raízes continuem fortes. A morte interrompe uma voz, um abraço, um lugar à mesa, mas não precisa interromper o amor que essas pessoas semearam em nós. Enquanto houver alguém disposto a reunir a família, a contar as histórias dos que partiram, a fazer um café para quem chega e a oferecer um ombro para quem chora, haverá também um pedaço deles vivendo entre nós. E talvez seja isso que Deus, com sua delicadeza, queira nos ensinar: algumas presenças deixam de ocupar uma cadeira, mas jamais deixam de ocupar um coração.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Fernanda Curanishi

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