Portal da Cidade Paranavaí

Geek com Stone Hit

Odisseu nunca foi tão humano: o que Nolan fez com a maior aventura da mitologia?

Com culpa, silêncio e rock progressivo, Nolan transforma a jornada de Odisseu em um épico sobre as consequências de voltar para casa.

Publicado em 04/10/2026 às 03:47
Atualizado em

(Foto: Geek com Stone Hit)


Em A Odisseia, Nolan parece finalmente encontrar o riff perfeito para algumas de suas obsessões favoritas: tempo, culpa, memória e, claro, a velha e conhecida megalomania cinematográfica. O resultado é um épico que lembra um grande álbum conceitual do Pink Floyd: denso, hipnótico e construído para ser ouvido — ou, neste caso, assistido — até a última nota.


O anti-herói e o preço das escolhas

Matt Damon interpreta Odisseu longe da imagem clássica do herói estrategista e quase infalível. Aqui, ele é um homem consumido pelas consequências das próprias decisões.


E essa talvez seja uma das escolhas mais interessantes de Nolan.

Em vez de transformar a famosa astúcia de Odisseu em motivo de celebração, o diretor a transforma em peso. A lenda perde um pouco do brilho e ganha algo muito mais humano: o arrependimento.


O episódio do “Ninguém”, diante do Ciclope, ganha outro tratamento. A esperada revelação triunfal do nome dá lugar a um momento muito mais seco e silencioso. É como pegar aquele solo de guitarra exageradamente virtuoso e transformá-lo em uma balada tocada em um boteco às três da manhã.


Menos espetáculo. Mais cicatriz.

O som da Idade do Bronze

Nolan também parece brincar com uma regra não escrita do cinema épico: se existe uma batalha, coloque metais, coros gigantescos e faça o espectador sentir que o Olimpo inteiro está prestes a desabar.


Aqui, a escolha é outra.


A trilha procura parecer parte daquele universo, como se o som nascesse junto com a história. E, no momento em que Odisseu tensiona o arco para o grande confronto, a lira ganha protagonismo.


Arma e instrumento se encontram.

É mitologia transformada em linguagem cinematográfica — e, convenhamos, Nolan sabe fazer esse tipo de coisa como poucos.


A banda de apoio

Tom Holland interpreta Telêmaco, filho que cresceu carregando não apenas a ausência do pai, mas também o peso de uma história que começou muito antes de ele poder escolher qualquer coisa.


Anne Hathaway, por sua vez, encontra força justamente nos momentos em que não precisa dizer muito. Há emoção nos silêncios, nos olhares e naquilo que fica suspenso entre uma fala e outra.


Zendaya e o restante do elenco completam esse universo sem transformar cada aparição em uma disputa pelo protagonismo. E isso é importante em uma história tão carregada de personagens, deuses, monstros e destinos grandiosos.


Nem todo mundo precisa roubar a cena.


Às vezes, basta ajudar a construir o palco.


O terceiro ato: a catarse


Quando finalmente chegamos a Ítaca, Nolan novamente evita o caminho mais fácil.


Nada de uma vitória limpa, grandiosa e pronta para virar pôster.


O que existe é o desgaste.


Odisseu finalmente retorna para casa, mas a sensação não é exatamente de chegada. É a percepção de que determinadas viagens mudam tanto uma pessoa que voltar ao ponto de partida já não significa voltar a ser quem se era.


O confronto final funciona justamente por isso.


Em vez de fogos de artifício, sobra o silêncio.

É como o fim de uma grande balada: a última nota desaparece, os instrumentos param e, por alguns segundos, ninguém sabe se deve aplaudir ou simplesmente continuar ouvindo aquilo que ficou ecoando na cabeça.


Talvez essa seja a grande jogada de Nolan em A Odisseia.

Ele não está apenas contando a história de um homem que tenta voltar para casa.

Está contando a história de alguém que descobre, tarde demais, que algumas viagens não têm retorno.

E isso, para um diretor obcecado pelo tempo, parece bastante apropriado.







Oferecimento


World Games Paranavaí

Avenida Euclides da Cunha, 1128 – Paranavaí

Instagram: @worldgamespvai

Telefone: (44) 99871-0204




As opiniões, ideias e fontes expressadas nesta coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: nova roupagem/Geek com Stone Hit

Envie sua notícia

Participe do grupo do Portal da Cidade no WhatsApp