Crônicas do Tempo
Uma Sinfonia Escrita por Pássaros
Uma manhã, um encontro, e a poesia em forma de música.
Publicado em
04/10/2026 às 03:46
Atualizado em
Por Emerson Branco
Era início de 2014. Como gestor de uma instituição de ensino, eu preparava a abertura do ano letivo para professores e funcionários. Queria fazer algo diferente — não apenas um discurso, mas uma mensagem que ficasse. Foi nessa busca que encontrei uma história que nunca mais esqueci.
Em 2009, o artista brasileiro Jarbas Agnelli folheava um jornal quando uma foto chamou sua atenção: pássaros pousados nos fios de uma rede elétrica. Muitos veriam apenas uma imagem comum. Jarbas viu além.

O posicionamento das aves lembrava notas musicais — e ele não resistiu. Recortou a foto e compôs uma melodia usando exatamente a posição de cada pássaro. A música parecia já estar ali, escrita na partitura dos fios. Faltava apenas alguém disposto a lê-la. Jarbas manteve cada ave em seu lugar e transformou aquela imagem em música. Depois, fez um vídeo para mostrar ao mundo a sinfonia que havia encontrado.
Resolvi apresentar aquele vídeo na abertura da reunião. Mas, antes, preparei o terreno. Falei sobre a Gestalt — sobre como nosso olhar pode transformar a maneira como percebemos uma mesma imagem. Afinal, várias pessoas podem olhar para a mesma coisa e enxergar algo completamente diferente. E foi exatamente isso que Jarbas fez: olhou para o comum e viu o extraordinário.
Mostrei algumas imagens de dupla interpretação — daquelas em que um rosto pode parecer um corpo, uma pessoa pode se transformar em animal. A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, vieram os palpites. Um dizia ver uma árvore, outro jurava ser uma caveira. Uma professora enxergava uma bailarina, enquanto o professor ao lado garantia que era uma borboleta. Cada um defendia sua versão com a convicção de quem estava diante da verdade absoluta. E todos estavam certos — cada um do seu jeito. Era a Gestalt acontecendo ali, ao vivo, na minha frente.
O vídeo virou um fenômeno mundial. Mas, ali, naquela sala, ele fez algo diferente: silenciou. Quando a última nota se dissolveu na tela, ninguém aplaudiu de imediato. Ficamos todos parados, como se o som ainda ecoasse em algum lugar dentro da gente. Alguns sorriam. Outros tinham os olhos marejados. Uma professora, sempre a mais falante, apenas balançou a cabeça, sem dizer nada. E aquele silêncio dizia mais do que qualquer discurso que eu poderia ter preparado.

Naquele dia, entendi que Jarbas, ou talvez os próprios pássaros, não haviam apenas criado uma música. Eles nos ensinaram a escutar o que sempre esteve ali — nos fios, nas calçadas, no ambiente, no barulho do vento entre as folhas. A poesia não estava escondida em lugares distantes. Morava no comum, esperando alguém disposto a reparar.
Nas palavras do próprio Jarbas: “...é possível ver poesia em qualquer lugar, depende só do jeito que a gente olha...”
E é isso que a gente esquece no meio da correria: olhar. Reparar. Admirar. Não o olhar apressado de quem atravessa a rua, mas aquele que sabe parar por um instante, respirar fundo, sentir o ar enchendo os pulmões e perceber o que estava ali o tempo todo. Porque o extraordinário, muitas vezes, não chega com fogos nem trombetas. Chega em silêncio. Pousa num fio. E espera.
O vídeo terminou. A reunião seguiu. Os desafios e as dificuldades do trabalho continuaram exatamente onde estavam. Mas alguma coisa havia mudado. Talvez de um jeito diferente em cada um, algo que eu jamais saberia nomear. Em mim, ficou uma certeza: a beleza não precisa ser criada. Às vezes, ela já está inteira diante dos nossos olhos — só esperando que alguém pare, observe e a admire.
Desde então, quando encontro pássaros pousados num fio, eu diminuo o passo e olho para cima. Fico alguns segundos em silêncio. Vai que eles estão compondo alguma coisa. Vai que, no meio da pressa, a música já começou — e eu ainda não aprendi a escutar.
Acesse o link e aumente o som!
https://youtu.be/-7XoQuc9nlg?si=gZ-q3RANo0eOlkQY

As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do Portal da Cidade de Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
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