Portal da Cidade Paranavaí

EntreMentes

Sobre quem chega e decide ficar

Quantos amigos ou amigas de verdade vocês consideram ter? São pessoas de longa data? Vocês sabem bastante uns sobre os outros?

Publicado em 27/09/2026 às 06:55

Sobre quem chega e decide ficar (Foto: "Recolhendo Castanhas" - William Adolphe-Bouguereau (1825-1905))

Por Fernanda Curanishi

Olá amigos e amigas leitores da coluna! Tudo bem com vocês? Eu gostei muito da nossa conversa da semana passada, falar em amizades é sempre algo muito bom. Espero que aquela coluna tenha edificado vocês em algum momento. Se isso aconteceu, minha vocação tem uma razão de existir.

Essa semana eu continuo falando sobre o tema amizade, porque ele tem me trazido muitas coisas boas. Então começo perguntando: quantos amigos ou amigas de verdade vocês consideram ter? São pessoas de longa data? Vocês sabem bastante uns sobre os outros?

Eu sempre pensei que a amizade fosse como uma árvore: a gente planta a sementinha, rega, e observa, contente, seu crescimento. Demora anos para que a árvore seja adulta, na mesma medida em que pode levar muito tempo para que a amizade se fortaleça e se torne, assim como a árvore, única. Eu pensava assim até me mudar para Paranavaí. Aqui não temos familiares, nem pudemos trazer os amigos de quem éramos próximos. De qualquer maneira, criar vínculos autênticos demandaria muito tempo e dedicação, isso, é claro, se eu estivesse concentrada em criar novas amizades.

Então a vida me surpreendeu novamente. Tenho boas relações com a maioria dos colegas de trabalho, mas não pensei que seria amiga de nenhum deles no início. E tudo bem, vida que segue. Mas descobri que há pessoas que chegam à nossa vida sem alarde. Não anunciam a própria chegada, não pedem passagem, não prometem permanência. Apenas chegam. E, quando percebemos, já ocupam um espaço que parece ter sido reservado para elas muito antes de as conhecermos.

Foi assim que eu percebi a relação com uma colega, professora de língua inglesa. Na época, éramos cordiais uma com a outra. Até que ela sacrificou o próprio horário de trabalho, colocando-se (pela primeira vez) em aulas às sexta-feiras, para que eu pudesse ter esse dia vago na semana uma única vez na vida. Isso me chamou bastante atenção, porque alguém se preocupou comigo o suficiente para perceber uma espécie de perseguição que acontece com os temporários.

Depois foi a saúde: ao saber que eu estava internada, ela apareceu no hospital e permaneceu dois dias comigo numa enfermaria durante todo o processo, simplesmente porque eu estava sozinha. Ali houve uma declaração silenciosa. A de que a empatia entre colegas tem limite, e de que eu não estava mais diante de uma colega, mas sim de uma amiga que chegou e decidiu ficar.

Que sorte a minha! Há amizades que obedecem ao tempo, pois precisam de anos, de histórias acumuladas, de uma sucessão de encontros e desencontros para se tornarem sólidas. E há aquelas que parecem ignorar o calendário. São recentes, mas têm a intimidade das coisas que reconhecemos. Tenho pensado nisso ao olhar para essa amiga que, em tão pouco tempo, já dividiu comigo algumas das paisagens mais distintas da vida. Houve dias luminosos, naturalmente, mas também houve aqueles em que o céu parecia baixo demais e a travessia, longa.

Isso também aconteceu recentemente, e, dentro do que eu podia, eu contribuí para que a travessia dela fosse… menos. Se pudesse mais, eu mesma a teria carregado no colo para que a fase difícil que ela viveu passasse mais rápido. Fiz, rezei, conversei, sugeri tratamentos. A amizade tem uma camada muito significativa na vida humana, porque às vezes a gente guarda nossas dores na gaveta para emprestar os bolsos vazios à dor do outro. É na dificuldade desses momentos que uma amizade deixa de ser apenas companhia, e passa a ser presença.

 Porque estar ao lado de alguém quando tudo vai bem é quase uma extensão da alegria. Mas permanecer quando a vida aperta, quando as palavras faltam, quando o outro precisa mais de acolhimento do que de respostas, é outra forma de afeto. Uma forma silenciosa, sem grandes gestos, mas que diz muito. E foi assim que essa amizade, ainda tão jovem, ganhou a densidade de algumas coisas antigas.

 Agora ela está melhor, e acabamos de celebrar conquistas importantes dela. Depois de tanta tempestade, vê-la bem me traz um sentimento difícil de nomear. É alegria, certamente. Mas é também alívio. É aquela sensação de quem finalmente pode respirar depois de acompanhar, à margem, uma longa travessia. Há uma beleza particular em testemunhar a recuperação de alguém que queremos bem. Talvez porque, quando a pessoa volta a sorrir depois de ter conhecido dias difíceis, o sorriso carregue uma história que só quem esteve por perto consegue perceber.

 A vida não nos poupa das tempestades. Às vezes, elas chegam sem aviso e permanecem mais do que gostaríamos. Mas também há algo de esperançoso na passagem delas. O céu não deixa de ser céu porque escureceu. E a luz, mesmo quando parece distante, não deixa de existir porque não conseguimos vê-la. Talvez as amizades verdadeiras sejam um pouco assim: não aquelas que prometem impedir a chuva, mas as que nos fazem companhia enquanto ela cai. E há um conforto imenso em saber que algumas pessoas, mesmo chegando há pouco, já nos ensinaram o significado de ficar.

 Hoje, olhando para ela bem, talvez eu compreenda melhor que certas amizades não precisam de uma longa história para serem profundas. Algumas simplesmente encontram o lugar certo dentro de nós. E, quando isso acontece, o tempo deixa de ser medida e passa a ser apenas testemunha.

Desejo que vocês tenham, na vida, pelo menos uma amizade assim.

Com desejos de boa semana,

Fernanda C.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Fernanda Curanishi

Envie sua notícia

Participe do grupo do Portal da Cidade no WhatsApp