EntreMentes
Sobre os rostos que ainda vão escolher o mundo
Sofro daquele cansaço que não é só do corpo. É de ter atravessado corredores, ouvido histórias, respondido perguntas.
Publicado em
04/10/2026 às 03:48
Atualizado em
Por Fernanda Curanishi
Olá amigos e amigas leitores! Aproximem-se, aconcheguem-se e sirvam uma xícara de café: chegou a hora da nossa prosa!
Espero que estejam todos e todas bem, apesar de uma semana de intempéries climáticas. Cada evento desses me gela a espinha dorsal. Felizmente, nossa região é privilegiada se comparada a algumas outras, que foram mais devastadas.
Apesar da tempestade, essa foi uma semana daquelas. Como professora, estive em quatro colégios diferentes de nossa amada cidade. Salas diferentes, uniformes diferentes, regras diferentes, realidades que, à primeira vista, pareciam não ter quase nada em comum. E tudo o que eu observei merece virar reflexão.
Três eram públicos. Dois deles, cívico-militares. Um era particular, daqueles que a gente chama de escola de elite, onde quase tudo parece funcionar em outro ritmo, com outros recursos, outras possibilidades. Eu cheguei ao fim da semana cansada. Houve dias em que somei dezesseis horas de trabalho. Sofro daquele cansaço que não é só do corpo. É de ter atravessado corredores, ouvido histórias, respondido perguntas, observado rostos e tentado guardar um pouco de cada lugar. Porque até mesmo em meio à exaustão, há tempo para que as belezas sejam reconhecidas.
E foi no meio desse cansaço que uma coisa começou a me chamar atenção: independentemente da escola, se central ou afastada, se cívico-militar ou se escola pública regular, se simples ou com recursos, os adolescentes eram muito parecidos entre si.
Não importa tanto o muro da escola, o preço da mensalidade, o uniforme, a disciplina, o bairro ou o tamanho da sala. Vi dezenas, talvez centenas de rostos curiosos, meninos e meninas, tímidos, por vezes até desafiadores. Mas todos eles com o brilho no olhar de quem está descobrindo o mundo, aprendendo novos conceitos e tentando se ajustar numa realidade que todos os dias se mostra nova.
Eles continuam sendo adolescentes. Vi a ansiedade de quem quer saber se está no caminho certo. Vi a vergonha de levantar a mão para fazer uma pergunta. Vi o aluno que fala demais e o que se esconde no fundo da sala. Vi quem já sabe o que quer ser e quem ainda não faz a menor ideia. Vi celular escondido, risada fora de hora, olhos atentos, olhos cansados.
De colégios sem luz elétrica a salas de aula climatizadas, vi adolescentes preocupados com o futuro, enquanto outros parecem não querer pensar nele ainda. Vi aqueles que têm pressa de crescer e aqueles que, de alguma maneira, ainda querem ficar um pouco mais perto da infância. E vi uma coisa que me pareceu maior do que todas as diferenças entre aquelas escolas: todos eles estão tentando descobrir quem são.
E como isso é bonito! Os adultos, mesmo que não saibam exatamente quem são, sustentam personagens na sociedade; aposto que você deve conhecer um ou dois que sejam assim. Talvez você mesmo seja desse jeito. E não há nada de mal ou inescrupuloso nisso: a gente se constitui é aos pouquinhos. Mas nossos jovens não, eles não aceitam se costurar aos poucos. Não toleram pequenos remendos nos véus do cotidiano, em que num dia a gente gosta de verde e, no dia seguinte, prefere a cor azul. Essa nova geração vem para bater martelos e tecer definições: sobre si, sobre seus pares e sobre o mundo que querem para si. Isso é bonito demais.
E também é uma responsabilidade enorme para quem educa, para quem convive com eles e para quem constrói o país onde eles vão viver. Porque a gente olha para um adolescente e ainda enxerga um menino, uma menina, alguém que depende dos adultos para tanta coisa. Mas o tempo não pede licença. Daqui a pouco, esses mesmos jovens estarão votando. Exercerão, com outra mentalidade, a mesma cidadania que nós nos esforçamos tanto para preservar.
Vão escolher prefeitos, vereadores, governadores, deputados, senadores e presidentes. Vão participar das decisões que afetarão a escola, o bairro, a cidade, o país. Vão ocupar espaços que hoje parecem distantes. E talvez seja por isso que eu tenha saído dessa semana tão cansada e, ao mesmo tempo, tão esperançosa. Porque, entre uma escola pública e uma escola particular, entre uma rotina cívico-militar e uma realidade de elite, eu encontrei adolescentes que, apesar de tantas diferenças, carregam as mesmas dúvidas, os mesmos medos, a mesma vontade de pertencer e de encontrar um lugar no mundo.
Eles ainda estão aprendendo. Nós também. E é bom lembrar disso antes de desistir deles. O Brasil que esses jovens vão ajudar a construir começa muito antes da urna. Começa na sala de aula, na conversa que alguém decide ter com eles, na pergunta que alguém leva a sério, na oportunidade que alguém oferece, na capacidade que temos de ensiná-los não apenas a responder, mas a pensar. Um dia, eles vão votar.
E quando esse dia chegar, espero que levem consigo não apenas um título de eleitor, mas a lembrança de que participar da vida do país é também uma forma de cuidar dele. Depois de uma semana tão cansativa, foi nisso que fiquei pensando.
No fim das contas, a diferença entre aquelas escolas não foi a coisa mais importante que vi. Sem dúvidas, o mais importante foi perceber que, em todas elas, havia jovens olhando para o futuro. E o futuro, gostemos ou não, tem o rosto deles.
Torço para que você consiga enxergar, na família e na sociedade, o potencial que esses jovens têm.
Uma semana afetuosa,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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