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Crônicas do Tempo

Um Filme, dois Idosos e um Ponto de Interrogação

O café mais caro do mundo e a lição mais simples da vida.

Publicado em 28/06/2026 às 06:51

Um Filme, dois Idosos e um Ponto de Interrogação (Foto: Emerson Branco)

Por Emerson Branco 

O que você faria se soubesse que tem apenas seis meses de vida? Foi essa pergunta que me acompanhou num domingo chuvoso, desses em que a gente desacelera. Naquela tarde assisti ao filme "Antes de Partir". Quando os créditos subiram, a história terminou na tela, mas continuou ecoando dentro de mim.

O filme conta a história de Edward Cole, um bilionário acostumado a comprar quase tudo o que desejava e Carter Chambers, um mecânico moldado por uma vida simples e pelo trabalho duro. Mas há momentos em que a vida apaga todas as distinções. Quando receberam o mesmo diagnóstico — um câncer em estado avançado — dinheiro, conhecimento e experiência perderam o valor que sempre tiveram. Restava apenas uma verdade incômoda: o tempo, para ambos, havia se tornado um bem escasso. 

Entre conversas, silêncios e diagnósticos difíceis, nasceu uma amizade improvável. Foi então que Edward percebeu que Carter escrevia algo em uma folha de papel. Era uma lista de coisas que ainda queria fazer antes de morrer. Na maioria, eram desejos simples — daqueles que sempre ficam para depois. 

Em uma das conversas, Edward oferece a Carter um café Kopi Luwak. Fala dele com o entusiasmo de quem acredita estar diante do melhor café do mundo. Carter recusa a xícara, mas deixa escapar um sorriso discreto — daqueles sorrisos que guardam uma verdade que ainda não chegou a hora de ser contada. 

Os dois voltam à lista. Ela misturava sonhos grandiosos e desejos surpreendentemente simples. Havia aventuras capazes de atravessar continentes, lugares que muita gente sonha conhecer uma vida inteira e experiências reservadas a poucos. Alguns itens pareciam mais difíceis que saltar de paraquedas ou alcançar o topo de uma montanha: rir até chorar, beijar a garota mais bonita do mundo...

Juntos, transformam os dias restantes em uma coleção de experiências que atravessa países, culturas e paisagens. 

Com o passar dos dias, Carter percebe que nenhuma paisagem do mundo seria mais valiosa do que uma tarde ao lado da família. Decide interromper a viagem e voltar para casa. Edward, porém, carrega uma bagagem diferente. Há anos não fala com a filha e transformou o orgulho em uma muralha difícil de atravessar. Carter então acrescenta uma palavra silenciosa à lista: reconciliação. Tenta convencer o amigo a procurá-la, mas encontra resistência. Os dois acabam se afastando. 

O tempo, que até então parecia correr ao lado deles, de repente cobra sua conta. Carter passa mal e é levado às pressas para o hospital. As viagens ficam para trás. Os planos silenciam. Diante da fragilidade de um quarto hospitalar, tudo parecia menor. Antes de entrar para a cirurgia, ele ainda encontra forças para sorrir e dizer a Edward que talvez precise terminar a lista sozinho. 

Uma das cenas mais memoráveis acontece poucos minutos antes da cirurgia. Carter decide revelar o segredo do café Kopi Luwak — aquele mesmo que o amigo havia tratado como uma joia rara. Com o sorriso de quem prepara uma última travessura, ele explica que os grãos passam pelo sistema digestivo de um pequeno animal antes de serem recolhidos e transformados em bebida. 

— Sabe como eles fazem esse café, Edward? O bicho come o grão, digere, e os nativos recolhem os grãos do outro lado. É cocô de bicho. Você está tomando cocô de bicho.

O rosto de Edward congela. O olhar de horror é tão perfeito que Carter já começa a rir. Edward, entre a náusea e a indignação, solta um "Você está mentindo!" tão sincero que parece uma criança traída. Carter, com lágrimas nos olhos de tanto rir, balança a cabeça:

— Estou falando sério. Você pagou uma fortuna para beber o que saiu do traseiro de um bicho indonésio.

E então os dois explodem numa gargalhada sincera — daquelas que fazem a barriga doer e os olhos marejar. Eles se olham, dois amigos, um prestes a entrar na faca, outro prestes a ficar sozinho, e riem. Porque é exatamente o que a lista pedia: "rir até chorar". 

Edward enxuga os olhos discretamente e acena em silêncio, enquanto o amigo é conduzido na maca com um leve sorriso no rosto — um daqueles sorrisos tranquilos, quase serenos, de quem acabou de experimentar algo essencial da vida. À medida que a porta do centro cirúrgico se fecha, não é apenas um quarto que se encerra, mas uma história que se aproxima do seu limite.

Algum tempo depois, Edward já está com a família de Carter quando um médico entra na sala. Antes mesmo de abrir a boca, o olhar que troca com Edward carrega uma resposta inteira. E, naquele instante, tudo se torna silenciosamente compreensível. Carter não havia resistido à cirurgia.

E então o contraste se impõe, cruel e inevitável como a própria vida: poucos instantes antes, dois homens riam até perder o fôlego por causa de um café caro e de uma verdade inconveniente. Minutos depois, um deles já não estava mais ali.

Edward permanece sentado, em silêncio, com a xícara agora fria entre as mãos. Tenta compreender que os últimos presentes deixados por Carter não foram objetos ou destinos, mas algo mais simples e mais raro: amizade e riso. Naquele hospital, naquela manhã, alegria e perda cabiam no mesmo instante.

No fim, não era o café, nem a piada, nem mesmo a morte que permanecia. O que ficava era outro gesto: alguém que, diante do fim, escolheu rir. E alguém que teve a sorte de rir junto. 

É esse contraste — entre o riso mais leve e a perda mais silenciosa — que faz de "Antes de Partir" uma história tão humana. A vida não avisa quando muda de tom. Não há transição entre comédia e drama; apenas o acontecimento.

Nossas vidas seguem como córregos distintos que, no fim, deságuam no mesmo destino. Todo adeus carrega em si um pequeno “antes de partir”. Muitas despedidas não chegam com aviso — simplesmente acontecem.

Por isso, talvez seja tão necessário aprender a mandar flores em vida: enquanto ainda há tempo de ver o sorriso de quem as recebe.

Edward encontra uma carta deixada por Carter. Nela, um último gesto silencioso: o convite para que ele se reconcilie com a filha. Ele decide ir.

No encontro, conhece a neta pela primeira vez. Ao beijar seu rosto, risca mais um item da lista — “beijar a garota mais bonita do mundo”. E, nesse instante, a lista deixa de ser uma coleção de viagens e experiências para se tornar outra coisa: um mapa de afetos finalmente atravessados.

E, no fim, uma lata de café no topo do mundo.

Depois da partida de ambos, o assistente de Edward cumpre o último gesto da lista: sobe o Monte Everest e deposita ali as cinzas dos dois amigos — guardadas em duas latas de café, lado a lado. Então risca o último item.

No silêncio do topo do mundo, o extraordinário e o simples se encontram pela última vez.

Talvez a pergunta mais importante não seja o que falta fazer — e sim o que ainda estamos adiando sem perceber.

O que você quer, de verdade, viver antes de partir?


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.



Fonte: Emerson Branco