EntreMentes
Sobre lã e lembranças
Os dias já vinham esfriando, é verdade, mas foi quando o calendário marcou dia 21 que a Frozen cantou ‘lerigou’ lá do céu e o frio chegou. ...
Publicado em
28/06/2026 às 06:52
Atualizado em
Por Fernanda Curanishi
Essa semana, tivemos a ‘inauguração’ oficial do inverno. Os dias já vinham esfriando, é verdade, mas foi quando o calendário marcou dia 21 que a Frozen cantou ‘lerigou’ lá do céu e o frio chegou, esse sim sem aviso. Não veio devagar, nem em dias mais frescos. Chegou de repente, como um parente que apareceu na porta sem convite, e de uma vez só derrubou a temperatura com toda a sua força.
Confesso que nesses 3 anos de Paranavaí, eu nunca testemunhei um frio como esse: é impressão minha, ou antes até o frio aqui era menor? Ontem ainda estávamos reclamando do calor que fazia o asfalto soltar cheiro, e o suor escorrer pela testa antes de chegar ao trabalho. Hoje, basta abrir a porta de casa para sentir um ar que entra na roupa, na pele e até nos ossos, fazendo-nos implorar por (mais) um casaco.
É engraçado como mudamos em poucos dias. Agora, o armário virou um quebra-cabeça com cheiro de guardado: blusas, cachecóis e meias, que antes estavam no fundo das gavetas, agora são resgatados e tratados com prioridade em nosso look diário. Estamos nos vestindo como se fôssemos cebolas: camada por cima de camada, com várias calças, blusas e meias. Não podemos nos esquecer do cachecol que enrola o pescoço, das luvas que perdem um dedo, e até das meias que somem misteriosamente e reaparecem só no final da estação. Quem disse que se vestir no inverno é fácil? Parece que saímos de casa prontos para uma expedição ao gelo, mesmo que o destino seja só a padaria da esquina.
Mas se o frio traz trabalho, ele também traz de volta aquilo que não tem preço: as lembranças dos invernos de antigamente. É pouco provável que vocês não se lembrem. Não havia aquecedor, nem ar-condicionado ‘que esquenta’. Em minha época, o calor vinha da fogueira no quintal, onde se assava batata-doce e se contava histórias até tarde, com a fumaça subindo devagar e se misturando à neblina que cobria toda a cidade pela manhã. As camas eram cobertas com cobertores de lã grossos, pesados, que pareciam abraçar a gente com força, e ao amanhecer o cheiro já entrava pela janela: café forte, pão quentinho, canela na chaleira e sopa que fazia o corpo todo se aquecer do peito para as pontas dos pés.
Tenho a impressão de que o inverno de antes também deixava o tempo mais devagar. Ao meio-dia, quando o sol aparecia tímido, todo mundo saía para aproveitar: os idosos sentavam-se na calçada, as crianças corriam e brincavam, vestindo que eram dois números maiores, e ninguém tinha pressa. Conversava-se mais, ria-se mais, e o frio parecia ser só um motivo para ficarmos mais perto uns dos outros. Hoje, mesmo com todas as facilidades, esse inverno que chegou forte faz a gente parar um pouco. Faz a gente respirar aquele ar fresco, sentir o calor da xícara na mão e lembrar que o frio também tem o seu lado bom: ele acende memórias, aproxima as pessoas e transforma dias comuns em momentos mais aconchegantes.
Nos invernos de antigamente, o frio não era apenas uma presença do clima, era um companheiro teimoso que entrava pelas frestas das janelas e se instalava em cada tarefa do dia a dia. Sem água quente correndo das torneiras nem calor para aquecer os ambientes, tudo exigia mais tempo e mais dedicação. Para tomar banho, era preciso acender o fogão a lenha, ou a gás, esperar a água esquentar devagar, como se ela também tivesse preguiça de perder o calor; depois, carregá-la com cuidado até a bacia, antes que o vento gelado a transformasse em frio novamente. Depois, quando chegou o chuveiro elétrico, eu tinha a impressão de que o banho ‘de canequinha’ ainda era mais quente do que a capacidade da ducha em esquentar a água. No fim das contas, o banho nessa época era (e ainda é) difícil dos dois jeitos, mas a gente teima em afirmar que um deles é melhor. Quem sabe, enganando o cérebro dessa forma, a atividade diária seja menos gelada, não é? No final das contas, no inverno, lavar louças, roupas ou limpar a casa tornava-se um ritual de resistência: as mãos mergulhavam na água fria e ficavam avermelhadas, dormentes, como se o próprio inverno quisesse marcar sua presença no trabalho e no corpo de cada um.
Hoje, o frio continua chegando, mas perdeu muito de seu poder de atrapalhar. A água quente vem com um simples giro de torneira, o calor permanece dentro de casa e os afazeres não exigem mais aquele esforço de outrora. Mesmo assim, ainda sentimos um pouco de preguiça nas manhãs mais geladas, mas é de forma leve, sem o peso da luta que nossos antepassados conheceram. Ao lembrar disso, percebo que cada facilidade que temos hoje é um presente silencioso, que nos faz valorizar ainda mais o conforto que antes parecia um sonho distante.
E não é só o frio e as lembranças que chegam com o inverno, é também a temporada das festas juninas, abençoadas por três santos que fazem parte da nossa história e da nossa fé. Primeiro vem Santo Antônio, no dia 13 de junho, conhecido como o santo das causas difíceis, das famílias e dos casamentos. É aquele a quem, antigamente, as moças pediam ajuda para encontrar um bom par, e, para isso, escondiam o menino Jesus que vivia em seu colo até o pedido ser atendido. Na minha visão de criança, a ideia não tinha o menor cabimento: se alguém escondesse meu menino Jesus, aí é que eu não facilitaria nada mesmo, que desaforo! Mas, sendo o santo mais amável que eu, ele foi muito cortês e facilitou o caminho a muita gente: deve ter partido dele a inspiração para o Tinder. Assim, dois problemas foram resolvidos: o das moças em busca de um bom partido e o sumiço do menino Jesus, que nunca teve nada a ver com a simpatia. Depois, no dia 24, é a vez de São João, o grande anfitrião da estação, cuja festa ilumina as noites com fogueiras altas, símbolos de luz e alegria que espantam o frio. E para fechar com chave de ouro, no dia 29, chega São Pedro, guardião das chaves do céu, protetor das comunidades e de todos que vivem do trabalho da terra e da água.
Essa tríade transforma o inverno em tempo de encontro e calor humano. Lá nos tempos de antigamente, não havia festa sem preparo: as mulheres se reuniam para fazer pamonha, canjica e bolo de milho, os homens penduravam as bandeirinhas e armavam as barracas para as vendas, enquanto as crianças corriam atrás de balões e esperavam a hora de pular a fogueira. Hoje, ainda sentimos o mesmo cheiro doce, ouvimos o som da sanfona e vemos a luz brilhar nas praças, tudo isso para lembrar que, sob a proteção desses santos, a união, a fé e a alegria sempre conseguem aquecer mais do que qualquer cobertor.
Hoje, entre as lembranças do passado, o testemunho do presente e a insistência em perceber o calor humano diante das tradições do inverno, eu o vejo como uma estação que está longe de ser minha favorita, mas à qual eu definitivamente pertenço: não fosse o frio, metade das minhas lembranças mais calorosas da infância simplesmente não existiria. Esse pode não ser o seu caso, caro(a) leitor(a), mas me parece difícil que você também não tenha lembranças parecidas, em que o frio seja a principal característica de uma época em que éramos gelados, mas felizes. E caso você as tenha, eu adoraria poder conhecê-las.
De resto, nos resta receber bem essa estação! Mesmo com o nariz escorrendo, mesmo com a dificuldade de escolher a roupa, mesmo com a preguiça de sair da cama e com a dificuldade na hora do banho. Porque o inverno passa, mas as lembranças que ele traz ficam para aquecer a gente por muito mais tempo.
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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