matéria especial
Dois pais, dois filhos e uma história que o amor escreveu
No Dia dos Pais, Aldinei e Adilson relembram a história de uma família que nasceu de sonhos, desafios e encontros que mudaram suas vidas.
Publicado em
09/08/2026 às 06:50
Atualizado em
Aldinei sempre sonhou em ser pai. Desde criança, antes mesmo de entender o que a vida lhe reservaria, já carregava consigo o desejo de um dia ter filhos. “Eu sempre pensei: quando eu crescer, quero ser pai”, conta. (Foto: Reprodução/Acervo pessoal.)
No Dia dos Pais, Aldinei e Adilson relembram a história de uma família que nasceu de sonhos, desafios e encontros que mudaram suas vidas
Aldinei sempre sonhou em ser pai. Desde criança, antes mesmo de entender o que a vida lhe reservaria, já carregava consigo o desejo de um dia ter filhos. “Eu sempre pensei: quando eu crescer, quero ser pai”, conta.
Quando se descobriu gay, porém, aquele sonho pareceu distante. Por algum tempo, ele acreditou que ser pai talvez não fosse possível. Até que a adoção passou a ser uma possibilidade real para casais homoafetivos.
Ao lado de Adilson, com quem já mantinha um relacionamento, começou a imaginar como seria construir uma família. E foi assim que, depois de muita espera, Theo chegou.
O primeiro encontro foi daqueles que ficam guardados para sempre. Aldinei conta que passou cerca de duas horas chorando ao olhar para o filho pela primeira vez.
“Ele olhou nos meus olhos. Era lindo, era meu sonho. Não tinha como eu parar de chorar.”
A chegada de Theo também trouxe uma mistura de sentimentos. Havia felicidade, mas também medo. Aldinei e Adilson se perguntavam se conseguiriam cuidar de um bebê tão pequeno, se dariam conta da responsabilidade e de tudo o que viria pela frente.

As primeiras noites foram de preocupação e aprendizado. Enquanto um dormia, o outro ficava olhando o bebê. Havia o medo de acordar às 5h da manhã apenas para conferir se Theo estava bem. Mas, dia após dia, o medo foi dando lugar à confiança.
Theo cresceu cercado de amor e se tornou, nas palavras de Aldinei, “a realização do primeiro sonho”.
Uma despedida que deixou marcas
A história da família, porém, também teve momentos de dor.
Depois de algum tempo, Aldinei e Adilson receberam Lucas. A criança chegou carregando marcas de abandono, maus-tratos e muito sofrimento. Foram dois meses de intensa adaptação.
Aos poucos, Lucas começou a confiar nos dois. Passou a chamá-los de pai, a dormir abraçado, a comer e a demonstrar carinho. O vínculo foi crescendo até que veio uma notícia que devastou a família: uma decisão judicial determinou que Lucas retornasse para a família biológica.
Aldinei e Adilson ainda tentaram encontrar caminhos para reverter a situação. Mas, diante da possibilidade de uma nova mudança no futuro e de fazer Lucas passar novamente por todo aquele sofrimento, decidiram respeitar a decisão.
A despedida foi um dos momentos mais difíceis de suas vidas.
“Foi um sofrimento muito grande. Eu me agarrei a Deus e entendi que talvez ele não tivesse vindo para ser meu, mas que tinha vindo por algum motivo.”
Lucas deixou uma marca definitiva na história daquela família.
Quando o sonho voltou a bater à porta
Depois de tudo, Aldinei decidiu que não adotaria mais. Havia feito uma promessa a si mesmo: aos 45 anos, encerraria aquele capítulo.
O tempo passou. Ele e Adilson chegaram a conversar com Theo e explicar que ele não teria um irmãozinho. Theo, porém, continuava pedindo a Deus por um irmão.
Aldinei completou 45 anos e ainda não havia ido ao Fórum para formalizar a desistência.
Até que, em uma sexta-feira, o telefone tocou.
Era Bia, do Fórum de Paranavaí.
“Tenho uma notícia boa para você.”
O coração de Aldinei disparou. A notícia era sobre um menino de um ano e oito meses chamado Brian.
A princípio, ele ficou assustado. Afinal, já havia decidido que não teria mais filhos.
Contou a Adilson, que também respondeu que eles não adotariam novamente. Mas, depois de perguntar se era menino ou menina e receber uma foto de Brian, o silêncio tomou conta.
Quando Aldinei chegou em casa naquela noite, encontrou o companheiro chorando.
“Ele me abraçou e falou: ‘Nós vamos ser pai de novo, né?’ Eu falei: ‘Vamos’.”
E eles foram.

O encontro com Brian
Brian estava havia um ano e dois meses com uma família acolhedora. Por isso, a aproximação precisou acontecer aos poucos.
Vieram os primeiros encontros, depois duas semanas de aproximação e, finalmente, os finais de semana em casa.
Theo recebeu o novo irmão com alegria.
“Ele ficou em êxtase. Todo mundo ficou. Não tinha como não ficar diante daquela criança linda.”
Brian tinha apenas um ano e oito meses e, por isso, a adaptação aconteceu de maneira mais tranquila. Ainda assim, o primeiro mês trouxe desafios. Aldinei e Adilson precisaram aprender a lidar com duas crianças, duas personalidades e uma nova rotina.
Uma viagem que já estava marcada acabou se tornando parte desse processo. Foi durante aqueles dias, convivendo intensamente, que os vínculos foram se fortalecendo.
Quando voltaram para casa, a família já parecia completa.

O amor que virou família
Hoje, Aldinei e Adilson dizem que têm o “sol e a lua” dentro de casa.
Theo, moreno, tranquilo e carinhoso, é a lua. Brian, loiro, cheio de energia e intensidade, é o sol.
São diferentes, mas igualmente essenciais.
“Hoje a gente não sabe como ficou tanto tempo sem eles na nossa vida”, diz Aldinei.
Para o casal, a adoção também mudou a maneira de enxergar o significado de família. Aldinei, que é caçula de uma família de dez irmãos, e Adilson, caçula de uma família de quatro, aprenderam que o vínculo familiar não está necessariamente no sangue.
“Família não é sangue. Família é amor, é coração. O que significa são os laços construídos.”
A história também mostrou quem deveria permanecer por perto. Algumas pessoas ficaram, outras se afastaram. E, no lugar de qualquer ausência, ficaram quatro pessoas construindo diariamente uma nova história.
Aldinei e Adilson, que um dia imaginaram que seriam apenas dois, hoje são quatro.
Eu, Adilson, Theo e Brian.
Uma família que nasceu de um sonho, atravessou a dor, enfrentou o medo e encontrou no amor a sua forma mais bonita de existir.
Neste Dia dos Pais, mais do que celebrar a paternidade, eles celebram a oportunidade de terem encontrado um no outro — e nos dois filhos — aquilo que sempre procuraram: um lugar para chamar de família.
Fonte: Portal da Cidade Paranavaí
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