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Crônicas do Tempo

Barrado na Alfândega

O dia em que eu não consegui provar que era eu, e ainda paguei caro por isso.

Publicado em 09/08/2026 às 06:51

Barrado na Alfândega (Fonte: Reprodução)

Por Emerson Branco

Como todo bom brasileiro que já pisou fora do país, minhas viagens internacionais se resumem a dois destinos: Paraguai e Argentina. Meu currículo de viajante internacional termina exatamente ali, nas fronteiras mais próximas.  

Tive oportunidade de fazer alguns cursos em Foz do Iguaçu. As atividades ocupavam o dia, mas as noites eram livres — e a gente aproveitava para turistar. Cada passeio rendia uma história.

Uma vez, por exemplo, o grupo em que eu estava comprou tanto vinho, azeite e alfajor que precisaram de uma empilhadeira para levar tudo até o ônibus. Em outra ocasião, vi o Sanderson se tornar Valdir por uma noite. E ninguém percebeu a diferença. Mas isso fica para outra história.

O destino preferido era a famosa feirinha de Puerto Iguazú. Normalmente, a gente ia nas vans que fazem o transporte. Mas, numa dessas noites, resolvemos ir de carro. Assim que as atividades do curso terminaram, partimos. 

Entrar na Argentina costuma ser simples: basta apresentar um documento válido com foto. Eu sempre levava a carteira de motorista. Naquele dia, também. O problema é que ela havia vencido cinco dias antes. Descobri isso justamente quando a entreguei ao agente da alfândega.

— Senhor, seu documento está vencido. O senhor tem outro válido?

Eu até tinha. Mas, com foto, apenas a versão digital.

— Nesse caso, o senhor não poderá entrar.

Eu não discuti. Mas, por dentro, minha cabeça já preparava o discurso: "O senhor entende que a carteira vencida me impede de dirigir, não de continuar sendo eu, né? A foto continua sendo a minha, o nome também. Até meu CPF continua igual..."

Mas esse é o tipo de resposta que a gente só faz no pensamento. Na vida real, eu apenas respondi:

— Tudo bem. Obrigado.

Meus amigos, extremamente solidários, abriram a porta do carro para eu descer, deram um tchauzinho e seguiram viagem. Acho que até hoje se lembram de mim. Pelo menos naquela noite, eu deixei de ser um dos três em tempo recorde.

Quando achei que o pior já tinha passado, descobri que a noite ainda guardava outras surpresas. Por sorte, havia um shopping bem perto. Entrei aliviado, pedi um lanche e um refrigerante. Antes mesmo de o garçom virar as costas, os alto-falantes anunciaram que faltavam dez minutos para o fechamento. Olhei o relógio: 19h50. "Como assim? Que shopping fecha às oito da noite?"

Comi tão depressa que nem sei dizer se o hambúrguer era de carne ou de papelão. Na hora de pagar, olhei o valor em pesos e pensei: "Ah, deve ser barato." Só depois fiz a conversão. Descobri que aquele lanche tinha custado o equivalente a quatro refeições completas em Foz do Iguaçu.

Mas a noite ainda não tinha terminado. Os alto-falantes anunciaram o fechamento mais uma vez, e eu fui gentilmente convidado a me retirar.

Lá fora, tentei mandar uma mensagem. 

Sem sinal.

Sem internet.

Nada.

Eu estava oficialmente desaparecido do mundo: com um documento vencido, um lanche caríssimo no estômago e um frio na alma. Como se ainda faltasse alguma coisa, dez minutos depois começou a chover. E chover forte. 

Fiquei ali, debaixo da marquise, vendo a água cair e repassando mentalmente todas as decisões que me levaram até aquele momento. Meus amigos só voltaram mais de duas horas depois.

Quando eles finalmente voltaram — secos, bem-humorados, carregados de sacolas e cheios de histórias para contar — seguimos para uma pizzaria no centro de Foz. Naquela noite, eu não consegui provar quem era, paguei um lanche a preço de ouro, passei mais de duas horas ilhado na fronteira e ainda tomei um banho de chuva. Descobri que um documento pode vencer em cinco dias. Já o prejuízo, a chuva e as piadas dos amigos duram bem mais. Pelo menos a pizza salvou a viagem.



As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Emerson Branco

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