EntreMentes
Sobre a infância e os crimes perfeitos
Então eu entendi mais um patamar que só a maternidade nos proporciona: criança não sente vergonha porque terceiriza esse sentimento para a mãe.
Publicado em 02/08/2026 às 06:50
Olá amigos e amigas! É com muita alegria que eu saúdo cada um de vocês que tira, gentilmente, um tempinho de seu descanso para vir aqui, nesse nosso cantinho, ler com carinho as reflexões que eu partilho.
Esta semana eu tinha outro assunto em mente. Comecei a escrever uma coluna sobre relacionamentos interpessoais, mas aconteceu-me um fato tão humilhante (e, como tantas mães sabem, bastante comum) que recalcularei a rota dessa conversa. Hoje quero falar das humilhações públicas que as mães passam em sociedade. Honestamente, não sei como isso ainda não rendeu um livro, pois toda mãe, pai ou familiar já quis se enterrar depois de alguma indiscrição dita em público por uma criança.
Confesso que esse constrangimento acontece comigo raramente, e eu geralmente finjo não ser a mãe da criança. Disfarço em um corredor próximo, converso com outra pessoa. Já cheguei a perguntar “Mas quem é a mãe dessa criança?”. Tudo, lógico, num tom de brincadeira. Mas os pequenos evoluem, e a vergonha que eles podem causar parece aumentar conforme eles crescem.
Minha filha não gosta muito de ir para a escola, o que eu considero normal para alguém de quatro anos. Ela verbaliza, diz que não quer ir, às vezes inventa um dodói para “arriscar” ficar em casa. E nunca cola, mas ela se reinventa e cria novas estratégias, como ocorreu essa semana. Ao chegar na escola, eu desci e abri a porta do carro, como sempre, mas na hora de ela descer, percebi que a criança simplesmente desligou. Fechou os olhinhos e parecia uma menina dormindo. Quem passava pelo portão acreditava que a criatura havia adormecido justamente na entrada da escola.
Eu sabia que ela estava acordada, os lábios dela esboçaram um sorriso, e então eu tive a brilhante ideia de tirá-la do carro. Evidentemente ela acordaria e revelaria a brincadeira, pensei. Que arrependimento! Eu a coloquei em pé, ela manteve os olhos fechados e segurou minhas pernas para não cair. Estava em pé, sim, mas ‘ainda dormindo’. A vó, que estava conosco, resolveu entrar na brincadeira e pegá-la no colo, no que a neta amoleceu igual manteiga em calor de Paranavaí. Instantaneamente, eu:
- Filha, abre esses olhos, pelo amor de Deus, temos que entrar.
-…
-Garota, eu sei que você está acordada, não me faça passar essa vergonha.
Silêncio total. O “sono” era tão profundo que as pálpebras dela nem tremiam. As inspetoras começaram a rir, a póbi da mãe não tinha autoridade nenhuma sobre a própria filha, elas devem ter pensado. Ofereci sorvete como recompensa, disse que levaria ao parquinho se ela acordasse. No auge do desespero, disse que ela ia conversar com a cinta chegando em casa, e nada resolvia. Confesso que, na minha derrota, cheguei a cogitar um sono verdadeiro por décimos de segundos. Que nada. O sorrisinho vitorioso me dava vontade rir e chorar ao mesmo tempo. Eu chorri.
Ao entrar na escola, a avó passou ela do próprio colo para o colo da inspetora, que não continha o riso. Vi minha filha ser levada para a sala de aula tal qual uma boneca de pano, desengonçada, mas mantendo o sono sereno (e profundo, vamos combinar).O riso dos outros pais veio, acompanhados por uma vontade homérica de sair dali por teletransporte. Parecia que eu estava em um reality show, mas não sabia se a audiência era positiva ou se eu estava sendo cancelada. Então eu entendi mais um patamar que só a maternidade nos proporciona: criança não sente vergonha porque terceiriza esse sentimento para a mãe.
Vocês já passaram por situações semelhantes? Eu sempre vi indiscrições de crianças em diversos lugares, mas como professora entendo que o filtro deles funciona diferente, e conforme a idade. Como mãe, até então, eu só tinha passado por isso uma única vez, quando meu filho me perguntou em alto e bom som como eu ia pagar pela comida no supermercado se eu não tinha dinheiro. É uma pena que naquela ocasião também não houvesse teletransporte. Uma orientação básica na entrada do mercado, que negava a ele orçamento para a compra de brinquedos se transformou quase num pedido de caridade para alimentar a família.
Quando será que começa essa distribuição do constrangimento? Com que idade? Já testemunhei algumas exposições que crianças desconhecidas fizeram com seus pais, mas eu sempre ria porque estava na ótica da criança, a ficha de mãe ainda não tinha me caído. Como quando, anos atrás, ouvi uma criança perguntando em voz de estádio “Mãe, por que aquela moça tá tão gorda?”. A mãe possivelmente também quis evaporar na ocasião. Ou abdução. Na porta da escola, uma vez vi um menino apontando um homem careca, dizendo "Olha, mãe! Igual o tio!", com a empolgação de quem mostra uma atração turística. Já vi criança perguntar "Você tá grávida?", quando eu claramente não estava, mas essa situação não me causou riso nenhum. Na mãe, muito menos, mas desconfio que ela deu boas risadas depois que tirou a filha de perto de mim.
Inclui-se nessa lista fazer amizade instantânea com um estranho e, cinco minutos depois, estar contando toda a rotina financeira da casa, ou decidir que o elevador é o lugar ideal para cantar uma música inventada sobre o sovaco do pai. Também vale experimentar roupas na loja e sair do provador pelado antes da mãe conseguir impedir. Em casos como esses, a plateia sempre aparece em menos de trinta segundos. Por último e não menos importante, temos o clássico grito de "Mãe, eu quero fazer cocô!", como se fosse um comunicado oficial. A mãe ativa o modo avestruz, buscando um buraco para esconder a cabeça e (tentar) não ser percebida.
Existe algo de maravilhoso nas indiscrições que as crianças cometem por inocência. Elas nos revelam que a criança não tem a maldade, ou as máscaras que nós adultos assumimos por pura convenção social. Afinal de contas, que pecado há em não querer ir para a escola, em ter dúvidas sobre o orçamento da casa ou curiosidade sobre os bebês que moram na barriga de outras mães? O universo infantil é vasto, e sempre há alguma observação ou pergunta despretensiosa que nos pega desprevenidos. E assim eu percebo que ainda tenho muita estrada a caminhar.
Achava que tinha zerado a maternidade quando aprendi a desconfiar dos silêncios da casa. A bagunça é barulhenta, mas é um alerta sonoro de que os filhos estão seguros e sem nenhum osso quebrado. Os silêncios sim, são o grande perigo. Eles costumam esconder franjas cortadas, paredes desenhadas com canetinha permanente, tentativas de banho no gato, poções mágicas criadas com shampoo, condicionador e perfume. Na seção das artes domésticas, cabe uma infinidade de traquinagens dentro do silêncio. E agora, depois dessa ida à escola, suspeitarei dos silêncios públicos também.
Tenho a sensação de que minha filha acorda de manhã e pensa: "Como posso constranger minha mãe em público antes do almoço?". O resto do dia é apenas execução do plano. Eu, quando criança, não constrangia minha mãe porque ela sempre sabia o que o meu gênio do mal ia aprontar, e impedia antes. Eu achava que ela tinha poderes sobrenaturais, mas hoje entendo que ela já conhecia meu histórico criminal. E eu estou aprendendo o repertório da minha pequena. Assim como eu, ela já acumula um pequeno currículo de crimes perfeitos que, em sua inocência infantil, julga que não são vistos.
Comer doce escondido e olhar para você com migalhas de chocolate na boca jurando inocência, culpar o cachorro pelo vaso quebrado, jurar que "já estava assim", ou que “foi o irmão”. Eu já aprontei algumas dessas, e aposto que você também. Na verdade, eu rezo para que ela, por enquanto, pratique apenas essas travessuras normais à sua idade. Porque nós, que vivemos numa época sem câmeras e registros fáceis, já fizemos bem mais, só não tivemos nossas ações gravadas.
Penso que a maior traquinagem de nossa infância foi nos convencer de que crescer seria muito mais divertido. Hoje pagamos boletos, marcamos consulta médica e sentimos saudade da época em que nosso maior problema era esconder da mãe que o copo quebrado explodiu sozinho. A infância era um caos. Mas era um caos sem senha de banco, sem imposto e sem reunião às oito da manhã.
Essas infrações, como a que eu passei essa semana, revelam uma infância saudável, e rendeu uma história a ser contada pelas próximas décadas. A infância tem esse poder mágico de reunir fábulas da vida real que se tornam uma espécie de patrimônio afetivo da família. Estou considerando montar um diário das travessuras para meus filhos, pois esses momentos precisam ser documentados. O que na hora é humilhação, com o passar dos anos se transforma em gargalhadas e saudades. E se você recorda de alguma vergonha que já tenha passado, compartilhe nas postagens. Eu preciso saber que não estou sozinha no corredor das mães que desejam teletransporte às vezes.
No meio da tarde voltei à escola e pedi desculpas para a inspetora. Ela riu e me contou que minha filha entrou na sala ainda "dormindo". Foi colocada no cantinho da soneca e permaneceu imóvel por alguns instantes. Então, convencida de seu triunfo, levantou de um salto, abriu um sorriso de orelha a orelha e anunciou para a tia:
- Te enganê-êi!
E saiu correndo para brincar com os colegas, como se nada tivesse acontecido. A conclusão a que chegamos, juntas, foi a de que a Globo está perdendo uma excelente atriz. Talvez esse seja um dos trabalhos da infância, o de ensinar aos pais que vergonha passa. As histórias, não. Crianças terceirizam a vergonha para as mães, mas também lhes entregam as lembranças mais divertidas da vida.
Eu desejo a você, e a mim, que nunca percamos a tolerância nem o olhar para as travessuras de nossos pequenos, porque, como escreveu Lya Luft, “a infância é um chão que a gente pisa a vida inteira.”.
Um abraço afetuoso,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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