Portal da Cidade Paranavaí

Crônicas do Tempo

As Aventuras de Vó Trinda

Toda família guarda histórias que o tempo não consegue apagar.

Publicado em 02/08/2026 às 06:51

As Aventuras de Vó Trinda (Foto: Emerson Branco)

Por Emerson Branco 

Lembro do Corcel azul estacionado em frente de casa. Meus pais, meus irmãos e eu — todos apertados, todos animados. Ao som dos sucessos da época, seguíamos pela estrada até Bernardelli, um pequeno distrito onde meus avós moravam. Naquele tempo, o caminho parecia mais longo — e a chegada, muito mais esperada. 

Meus avós passaram boa parte da vida nas fazendas. Meu avô cuidava do gado e de tudo o que a terra exigia. Com o tempo, os filhos foram se casando e seguindo seus próprios caminhos, mas a família nunca deixou de se reunir. E nós, sempre que podíamos, passávamos o fim de semana na casa deles.

Lembro da boa comida — dos churrascos que meu avô preparava, do pinhão cozido que nunca faltava, do milho assado na brasa do fogão de lenha que, nos dias de inverno, também aquecia a casa. Tinha também o frango caipira com polenta, feito na panela de ferro, com aquele molho grosso que a gente molhava o pão até o último fio. Lembro também do macarrão caseiro: a massa estendida sobre a mesa, cortada em tiras finas, e o cheiro do molho que tomava conta da cozinha. E, nas tardes, os bolinhos de polvilho fritando — o aroma despertava a fome de todos outra vez. 


Nos dias frios, a cozinha virava o centro do mundo. Cada um se aproximava do fogão à lenha, buscando o calor que ele espalhava. Era a hora das velhas histórias — e, vez ou outra, uma das tias pegava o álbum de fotografias. Então as risadas tomavam conta da sala, e a gente ria das roupas, dos cabelos, dos bigodes que o tempo levou. E, no meio das risadas, ficava a sensação de que o tempo também sabe ser um bom amigo. 

Pela manhã, eu acordava com o aroma do café passando no coador de pano — um cheiro que invadia o quarto pelas frestas da porta, e mesmo que a cama quente ainda me segurasse, ele chegava primeiro e fazia o corpo despertar antes mesmo dos olhos. O rádio de madeira chiava baixinho ao fundo, soltando as modas que meu avô gostava. A cozinha já fervilhava, quente e viva. Era o começo de um dia que ainda não sabia o que ia ser — mas que, para um garoto, era o começo de tudo. 

O tempo, porém, também muda os caminhos. Meus avós se mudaram para longe e, aos poucos, os encontros que antes pareciam naturais passaram a depender da distância, das agendas e da vida. As visitas foram ficando cada vez mais raras.

Anos depois, já crescidos, quando minha avó e meus tios vinham nos visitar, a alegria era geral. Não só por revê-los — mas porque Vó Trinda, com suas mãos que não descansavam, logo tomava conta da cozinha. E de lá saíam rosquinhas, biscoitos de polvilho, café fresco. A casa se transformava. Enquanto ela comandava o preparo, a plateia crescia — e a ansiedade também. Nunca sobrava...

Há cerca de dois anos, fomos visitar minha avó em Santa Catarina. Passamos alguns dias com ela, reencontramos tios e primos. E, claro, a comilança foi parte essencial da viagem — cada dia uma novidade. Mas foi num desses dias que a vó resolveu surpreender a todos.

Era madrugada — dessas em que o sol ainda nem cogita aparecer. Na casa, todos dormiam um sono pesado, desses que grudam a gente no colchão. Menos Vó Trinda. Ela abriu os olhos com a precisão de quem tem um plano. Levantou-se devagar, sem fazer o menor barulho. Calçou as sandálias com a leveza de uma bailarina, colocou seu casaco, ligou seu modo furtivo e sorrateiramente saiu porta afora.

Ninguém viu.

Ninguém ouviu.

Ninguém percebeu.

A família sempre pedia para ela não sair sozinha — mas Vó Trinda, discretamente, fazia questão de ignorar o conselho. Antes que o sol rompesse de vez, ela já estava na estrada, passo firme, caminhando rumo à padaria que fica distante da casa.

Quando todos acordaram, o espanto foi geral:

— Cadê a vó?

A casa se agitou, olhares se cruzaram, ninguém sabia de nada. Foi quando a porta rangeu — e lá estava ela. Com seus passinhos curtos, os braços carregados de sacolas e um sorriso maroto, desses que dizem: “Fui, fiz e volto com o troféu.” Ela teve que ouvir, claro. Mas ninguém resistiu à rosca ainda quente, ao cheiro do pão de queijo, ao pão francês e ao queijo fresco que ela trouxe na sacola.

Depois de alguns dias, fomos embora. Ela ficou em Santa Catarina, retomando a rotina de sempre. Nós voltamos para casa levando uma lembrança que vale mais do que qualquer fotografia: Vó Trinda surgindo pela porta, ainda de madrugada, carregando sacolas, pão quentinho e aquele sorriso de quem sabia muito bem que tinha aprontado mais uma.

Talvez esse seja o maior dom de algumas pessoas: transformar um pão ainda quente, um café passado na hora e uma travessura de madrugada em lembranças que o tempo nunca consegue esfriar.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.









Fonte: Emerson Branco

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