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Crônicas do Tempo

Profissão Perigo, Codinome Gambiarra

Lembranças das aventuras de um herói nada convencional.

Publicado em 20/09/2026 às 06:55

Profissão Perigo, Codinome Gambiarra (Foto: Emerson Branco)

Por Emerson Branco 

Outro dia, um amigo precisou instalar uma proteção em um equipamento. Sem tempo, sem a peça adequada, ele fez o que todo brasileiro faz quando a solução original não está disponível: improvisou.

Olhei aquilo e não resisti:

— Isso não é instalação, é gambiarra de nível MacGyver.

Ele apenas sorriu. Uma outra colega que passava ouviu a conversa e imediatamente emendou:

— Nossa, meu marido também é chamado de MacGyver. Vive fazendo suas gambiarras.

Foi então que percebi o quanto a série Profissão Perigo continua viva na nossa memória.

Eu tinha por volta de 10 anos, mas me lembro muito bem das aventuras que invadiam as tardes de domingo. Bastava ouvir aquela música marcante da abertura para a molecada se reunir. Aqueles primeiros acordes de “Tom Sawyer”, do Rush, funcionavam como um chamado: era hora de parar tudo para ver o impossível acontecer.


Ouvir essa música hoje não é apenas lembrar. É ser transportado instantaneamente para a frente de uma TV de tubo, esperando descobrir qual objeto aparentemente inútil MacGyver transformaria em ferramenta de sobrevivência.

MacGyver era um protagonista atípico para a época. Enquanto outros heróis resolviam tudo com explosões, fuzis e metralhadoras, ele precisava apenas de um canivete suíço, um chiclete e um clipe de papel.

E, de alguma maneira, sempre dava certo.

Transformava materiais simples e conhecimentos científicos em superpoderes. O cotidiano banal, aos olhos dele, virava um laboratório de sobrevivência. O cara era o equivalente televisivo daquele brasileiro que conserta o chuveiro com fita adesiva no domingo de manhã e ainda olha para a instalação no final com a expressão de quem acabou de concluir uma obra de engenharia.

Uma geração inteira cresceu admirando aquele sujeito e, talvez sem perceber, começou a desenvolver sua própria engenharia do improviso.

Naquele tempo, brinquedo comprado era quase artigo de luxo. Então a criatividade precisava entrar em cena.

Latas de leite em pó viravam carriolas. Dois pedaços de balaústra de madeira e meias velhas viravam um kit de bets. O clássico carrinho de rolimã, com chassi feito de tábua de construção velha, era nosso carro de Fórmula 1.

E os potes de plástico presos na roda da bicicleta?

Aquilo era tecnologia de ponta.

Fazia um barulho que, na nossa imaginação, parecia o motor de um V8. Na prática, provavelmente parecia mais uma bicicleta pedindo socorro.

Éramos crianças, mas já nos aventurávamos nas gambiarras. 

Profissão Perigo teve sete temporadas e marcou uma geração. Com o tempo, a série acabou e as aventuras inéditas na televisão se foram. Mas MacGyver não desapareceu completamente.

Seu nome atravessou a televisão e entrou no nosso vocabulário.

“MacGyver” deixou de ser apenas o nome de um agente secreto e passou a representar aquela pessoa que olha para uma coisa quebrada e, antes mesmo de procurar a peça certa, já está pensando em fita, arame, parafuso, cola e qualquer outro objeto que esteja ao alcance.

É o sujeito que remenda a tira do chinelo com um prego, prende o escapamento com arame, e quando alguém pergunta se aquilo vai funcionar, responde com a confiança de quem tem doutorado em gambiarra:

— Vai. Já fiz várias vezes.

Talvez seja por isso que a lembrança de MacGyver permaneça tão forte.

Ele nos ensinava que nem sempre era preciso ter a ferramenta certa. Às vezes, era preciso apenas olhar diferente para aquilo que estava à mão.

E talvez a maior herança daquela época esteja justamente aí.

Hoje temos brinquedos que fazem quase tudo sozinhos, celulares que cabem no bolso, máquinas e as IAs capazes de resolver problemas que nem sabíamos que existiam. Mas ainda guardamos com carinho a lembrança de quando duas latas, um pedaço de madeira, algumas meias velhas e muita imaginação eram suficientes para construir uma aventura inteira.

No fim, talvez MacGyver nunca tenha sido apenas um herói da televisão.

Ele foi uma espécie de professor informal de uma geração que aprendeu, muito cedo, que criatividade também é uma ferramenta.

E foi assim que, muitos anos depois, bastou eu olhar para uma simples proteção de equipamento improvisada e ouvir a palavra “gambiarra” para descobrir que aquele velho agente da Fundação Phoenix ainda estava por perto.

A ficção terminou há muito tempo, mas o personagem deixou uma herança que os anos jamais conseguiram apagar: a certeza de que, diante de um problema, sempre existe alguma coisa por perto que pode servir para resolvê-lo.

Talvez seja por isso que, no Brasil, “gambiarra” nunca tenha sido apenas uma solução improvisada. É também memória, criatividade e, para uma geração inteira, um pouco daquele menino que assistia a MacGyver e acreditava que, com um canivete, um clipe de papel e imaginação, era possível resolver quase qualquer coisa.

No fundo, talvez MacGyver não tenha nos ensinado a fazer gambiarras.

Ele apenas nos ensinou a acreditar que elas dariam certo.

Acesse o link e aumente o som:

https://www.youtube.com/watch?v=TpjYpZGRmPM&t=20s


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Emerson Branco

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