EntreMentes
Sobre quando a casa desaprende o relógio
Julho é um mês com talento raro para bagunçar calendários. Não chega cheio de luzes, promessas e presentes, como Dezembro.
Publicado em 26/07/2026 às 06:53
Por Fernanda Curanishi
Olá amigos e amigas leitores! Confesso que espero ansiosa a chegada do domingo, pois sei que temos sempre aquele nosso encontro marcado. Além disso, a casa é grande e sempre tem espaço para novos olhares. Se esse é seu primeiro acesso, seja bem-vindo ao nosso espaço, puxe uma cadeira e iniciemos um novo momento de prosa!
Essa semana, como sempre, procurei um assunto no cotidiano para tratar com vocês. Mas os dias passaram numa correria daquelas, e com a criançada de férias não consegui olhar para outros acontecimentos. Então observei com mais zelo o comportamento infantil do período: certamente nossa discussão de hoje lhe será familiar.
Julho é um mês com talento raro para bagunçar calendários. Não chega cheio de luzes, promessas e presentes, como Dezembro. Julho chega de chinelo com meia, abre a geladeira a cada 30 minutos e pergunta pela décima vez, antes das dez da manhã, o que vai ter para fazer hoje. Para quem mora com crianças, as férias de meio de ano não começam exatamente na última aula. Elas começam quando o silêncio da casa muda de endereço.
Durante o semestre, a rotina nos exige um esforço semiolímpico: acordar cedo, arrumar mochila, conferir o lanche, assinar agenda, correr, trabalhar, resolver, agendar, buscar, dar banho, fazer tarefa, dar janta, escovar os dentes e por para dormir, já pensando no despertador do dia seguinte. Exaustivo, é verdade, mas a gente descobre nas férias que trabalho é justamente não haver rotina. Aquela criança, que lutávamos para fazer acordar de manhã, agora levanta espontaneamente antes do sol, tomada por uma energia que parece ter sido escondida durante todo o semestre para ser usada exclusivamente nas férias. Desconfio, aliás, que essa seja uma lei da natureza ainda não revelada.
Toda mãe sabe disso. E quase todo familiar também. Precisamos de uma habilidade específica para responder cinquenta perguntas enquanto tentamos tomar um café morno, que foi se esfriando enquanto tentamos atender aos pedidos: um pão com manteiga sem queijo, outro com queijo mas sem manteiga, duas fatias do mesmo bolo (e ai de nós se elas não forem exatamente do mesmo tamanho)… o café, coitado, até desiste de sua missão. Mas depois de tragado, nos fortalece para separar as brigas cuja origem ninguém consegue explicar. Conflitos internacionais separam irmãos que cinco minutos antes eram os melhores amigos, inseparáveis.
A casa vira um mapa estratégico, aliás. A cozinha se torna ponto turístico, com visitas guiadas à geladeira. Essa, por mais cheia que esteja, sempre é acusada de “não ter nada para comer”. A sala se transforma em um campo minado, com barricadas de almofadas que são disparadas contra o inimigo. O combate, quase sempre sustentado por gargalhadas e cumplicidade, às vezes termina com choro, quando um dos lados acaba se machucando de verdade.
No passado, eu não entendia o stress da minha mãe nessa época do ano. Hoje, eu até entendo quando esquento meu chá pela segunda vez de manhã. Mas eu olho para meus filhos e me lembro de como é importante essa fase, de sentir que o mundo para nessa época do ano enquanto aprendemos a existir sem uma finalidade que nos aguarda, sem estudo para tirar nota ou tarefas com data para entrega. Existe uma liberdade muito bonita em existir para existir, e não serei eu quem tirarei isso da infância alheia.
Foi pensando nisso que notei certa delicadeza escondida em julho, que aparece quando não estamos olhando. Ela acontece no cobertor espalhado na sala porque assistir a um filme fica mais interessante no chão, ou no bolo simples preparado sem pressa, que termina coberto por uma camada irregular de chocolate porque a confeiteira oficial ganhou dois ajudantes excessivamente entusiasmados. Também surge no jogo de cartas que demora uma eternidade porque alguém resolveu mudar as regras no meio da partida. Tudo isso me mostra que as férias têm o estranho poder de devolver valor ao que a rotina costuma tratar como intervalo.
A casa revela pequenas memórias escondidas sob a correria dos dias úteis. No que a mãe vê bagunça, a criança vê cenário. Enquanto a mãe enxerga toalhas espalhadas, a criança construiu um navio. Se a mãe tropeça em almofadas, a criança acabou de atravessar um rio cheio de jacarés imaginários. (Ainda bem que) É difícil competir com a criatividade infantil. Porque ela lembra aos adultos uma língua que quase todos já falaram fluentemente.
Toda criança sabe que um cabo de vassoura pode virar espada, cavalo ou foguete sem que ninguém estranhe, porque a imaginação nunca precisou de licença para mudar a utilidade das coisas. Em algum momento da vida a gente esquece essa língua, mas julho costuma refrescar a memória. Enquanto recolhem brinquedos espalhados pela casa, muitas mães acabam encontrando, sem perceber, um pedaço da própria infância. É nesses instantes, discretos e cotidianos, que a infância dos filhos estende a mão para a infância das mães, como se o tempo resolvesse encurtar a distância entre as duas.
Julho ilumina tais lembranças, quem foi criança sabe. As férias pareciam enormes, duas semanas quase tinham o tamanho de um continente. Também existia o tédio, é verdade. Hoje ele ganhou fama de vilão, mas era um sujeito bastante criativo: ele botava a imaginação para trabalhar. Depois de reclamar durante meia hora que não havia nada para fazer, surgia uma invenção improvável. Uma peça de teatro apresentada para o cachorro. Um campeonato de bolinha de papel. Um restaurante imaginário servido em pratos de brinquedo. Um laboratório secreto instalado atrás do sofá.
As férias também costumam trazer uma culpa que se instala sem fazer barulho. Entre o trabalho, as crianças e a tentativa de dar conta de tudo, a vida perde um pouco o alinhamento, os horários se esticam, a casa deixa de parecer capa de revista, a pia acumula mais louça, a máquina de lavar entra em jornada extra e o sofá coleciona migalhas como quem guarda lembranças. No meio dessa desordem, porém, existe uma beleza difícil de notar enquanto ela acontece, porque cada brinquedo fora do lugar, cada copo esquecido sobre a mesa e cada cobertor largado na sala contam, à sua maneira, que a casa está sendo vivida.
Um dia, sem aviso, as férias deixam de ser barulhentas. Os desenhos animados cedem espaço para portas fechadas, os brinquedos desaparecem, as perguntas diminuem. A geladeira finalmente descansa. É curioso perceber que aquilo que hoje parece excesso acaba virando lembrança, por isso vale a pena viver essas férias com eles, mesmo quando a casa parece ter desaprendido qualquer noção de organização.
As mães voltarão à rotina com a sensação de que sobreviveram a uma temporada inteira de acampamento dentro da própria sala. Um pouco mais cansadas, é verdade, e talvez mais descabeladas. E com um estoque renovado de histórias que, daqui a muitos anos, serão contadas dando risada. No fundo, férias de julho são isso. Um tempo em que a casa perde o compasso, a infância ganha espaço e as mães descobrem, entre uma caneca esquecida e um abraço pedido sem motivo, que existe uma beleza discreta nas semanas em que a casa desaprende o relógio.
Desejo a vocês uma semana em que o relógio não tenha tanta pressa. Até a nossa próxima prosa,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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