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Crônicas do Tempo

Blue, o Dragão de Komodo

Um encontro inesperado e uma conexão que começou com uma mordida.

Publicado em 26/07/2026 às 06:51

Um encontro inesperado e uma conexão que começou com uma mordida. (Foto: Emerson Branco )

Por Emerson Branco

Foi numa sexta-feira, no finalzinho da tarde, que uma jovem encontrou cinco filhotes de cachorro abandonados. A situação era lastimável. Estavam sujos, cobertos de carrapatos e pulgas, infestados de vermes e deixados à própria sorte numa estrada rural. A mãe os amamentou enquanto pôde. Depois, o leite secou. Por dias, sobreviveram comendo esterco de vaca e bebendo a água da chuva acumulada numa poça.

A estrada já estava escura quando ela freou o carro e desceu. Era dessas pessoas que enxergam primeiro a vida e só depois o problema. Não perguntou de quem eram. Apenas começou a recolher os três filhotes que encontrou, um a um, como quem junta pequenas migalhas de esperança espalhadas pelo chão. Levou-os consigo, cuidou deles e, mais tarde, descobriu que ainda havia outros dois. Voltou, resgatou os que faltavam e completou a ninhada.

Conheci aqueles filhotes algum tempo depois. Já estavam limpos, alimentados e um pouco mais fortes, embora ainda carregassem o medo de quem conhecera pouco além do abandono. Mas uma delas era diferente. Enquanto quatro se escondiam atrás da primeira coisa que encontravam, ela veio em minha direção. Cheirou minha mão, como quem avalia o terreno, e mordeu meu dedo — não com fúria, mas como quem dizia: "olá". Era pequenina, mas já vinha cheia de atitude.

O corpinho ainda franzino, mas decidido, era coberto por manchas marrons e brancas. O que mais chamava a atenção, porém, eram os olhos. De um azul intenso, pareciam guardar uma luz própria. Foi naquele primeiro encontro que ela ganhou o nome de Blue. 

Os outros quatro também ganharam nomes, inspirados naquilo que cada um tinha de mais marcante. A irmã de olhos azuis virou Zully. A branquinha recebeu o nome de Polar — depois transformado, carinhosamente, em Poly. A rajada passou a ser Tigris. E o único macho da turma, naturalmente, virou Noa.

Com o tempo, o medo foi cedendo lugar às aventuras. Blue, porém, parecia ter feito um curso intensivo de travessuras. Era disparada a mais atentada da turma. E foi justamente por isso que ganhou um apelido além do nome. 

Ela atravessava a casa como um pequeno dragão-de-Komodo em missão. Bastava ouvir o barulho da ração para surgir do outro lado da casa em tempo recorde. Comia numa velocidade impressionante e, quando terminava, ainda olhava para o pote com uma expressão que parecia perguntar: "Tem certeza de que acabou?" Foi impossível não compará-la ao famoso lagarto gigante. O apelido pegou.

A língua de Blue quase nunca ficava dentro da boca, como se estivesse conversando com o vento. Escalava tudo o que encontrava pela frente: sofá, pernas, cortinas. Sabia exatamente onde havia comida, mesmo quando ninguém dizia uma palavra. E, na dúvida, fazia questão de testar a resistência de móveis, chinelos e qualquer objeto que parecesse minimamente mastigável.

Os dias passaram depressa e, com eles, chegou a hora da despedida. Os filhotes precisavam encontrar um lar definitivo, embora o apego de quem os acolhera já fosse grande. Quem trabalha com resgate costuma dizer que o primeiro erro é dar nome aos animais. Nome cria vínculo. E vínculo torna toda despedida um pouco mais difícil. Mas já era tarde. Cada um deles já fazia parte da casa.

Noa e Zully foram os primeiros a partir. Zully ganhou uma família com bastante espaço e um companheiro especial: um cão idoso que logo a acolheu. Noa encontrou um sítio inteiro para correr. Polly e Tigris tiveram sorte em dobro. Foram adotadas juntas por um senhor que morava numa chácara, onde continuaram dividindo as brincadeiras de todos os dias. 

Cada partida era uma mistura de alegria e tristeza. O apego havia crescido, sim, mas a felicidade de vê-los partir para bons lares era maior.  

Só faltava Blue. Como deixá-la partir depois daquele primeiro encontro? Da mordida que parecia dizer "olá"? Daqueles olhos azuis que pareciam dizer: "Fica". Não houve despedida. Blue simplesmente ficou. Continuou sendo o Dragão de Komodo da casa: manhosa, estabanada, desastrada... e carinhosa.

Meses depois, outra cadela foi encontrada abandonada com sete filhotes. Estava tão fraca que mal conseguia sustentar o próprio peso. Já estava nas garras da morte. Foi resgatada, alimentada e cuidada. Exausta, porém, vivia se escondendo dos filhotes para conseguir descansar alguns minutos. 

Foi então que Blue, sem que ninguém lhe pedisse, assumiu o lugar que parecia conhecer desde sempre. Deitava-se entre eles, lambia um por um e os aquecia com o próprio corpo. Brincava como se fossem seus. Dormia abraçada àquela pequena ninhada enquanto a mãe recuperava as forças. Ninguém ensinou aquilo a Blue. Talvez apenas tenha reconhecido, naqueles filhotes, um pedaço da própria história.

Blue continua por aqui. Ainda corre como um dragão-de-Komodo, ainda mastiga o que não deve e ainda coloca a língua para fora como quem conversa com o vento. Mas, sempre que se deita ao lado de outro animal, parece se lembrar de que alguém um dia parou o carro por ela. E devolve esse gesto do único jeito que sabe: cuidando.

A trajetória de Blue é apenas uma entre tantas. Há outros olhares esperando por alguém que pare o carro, desça e os recolha. Outras patas trêmulas. Outras línguas para fora. Blue teve sorte. Mas essa sorte, a gente sabe, não é destino — é escolha. A escolha de quem doa um pouco de si, abre a porta e decide não desviar o olhar.

Adotar não é salvar o mundo. É salvar um mundo inteiro. E, às vezes, esse mundo encontra um jeito de salvar o nosso também.

Enquanto isso, Blue segue sendo Blue: desastrada, estabanada, dona de um coração enorme e daqueles olhos que um dia pediram apenas uma chance. Como se repetisse, todos os dias, a mesma mensagem:

— Fica. O mundo pode ser duro, mas a gente inventa um jeito.



As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.



Fonte: Emerson Branco

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