EntreMentes
Sobre o lado de dentro da bandeira
Esperamos que onze pessoas façam, em noventa minutos, aquilo que nós mesmos temos dificuldade de construir todos os dias.
Publicado em 12/07/2026 às 07:06
Olá amigos leitores! Espero que tenham passado a semana bem, na medida do possível. Todos tivemos que ‘digerir’ um retorno precoce de nossa seleção. É isso, no domingo, o Brasil saiu da Copa do Mundo. E não tinha como eu não partir desse ponto para nossa conversa semanal.
Como sempre acontece, vieram as explicações. Faltou coletivo. Sobrou vaidade. Cada um parecia jogar para si. O time não encontrou o time. Enquanto ouvia essas análises, pensei que talvez a seleção carregue um peso impossível: esperamos que onze pessoas façam, em noventa minutos, aquilo que nós mesmos temos dificuldade de construir todos os dias. Vocês podem estar se perguntando: mas o que nós temos a ver com jogadores de alto nível? Na profissão, provavelmente muito pouco. Mas no comportamento e na maneira de enxergar a vida, acredito que tenhamos mais em comum com nossos estimados atletas do que gostaríamos de admitir.
Em um evento da magnitude de uma Copa, o mundo olha para o time pelo viés esportivo: representa-se um país, uma comunidade gigantesca, milhões de pessoas, portanto o jogador que ‘veste a camisa’ é aquele que está no time porque joga em equipe, ou seja, sinônimo de grupo, conjunto, em outras palavras, coletivo.
Nós, os representados, também somos um coletivo. De pessoas, estados e municípios. Bairros, vizinhança, tudo ao nosso redor respira e acontece em comunidade. Confesso que não compreendo porque, na contramão desse processo, nosso comportamento é, culturalmente, individual. Chega a ser incoerente nós vivermos numa coletividade onde cada um é por si, e dificilmente alguém é por todos, já observaram isso? Não que a individualidade em si seja um problema, mas a vida se torna mais difícil quando deixamos de enxergar o outro como parte da mesma caminhada.
No domingo passado, logo depois da partida, li um comentário de um leitor dizendo que tentaram mudar a cor da nossa bandeira para vermelha. Parei diante da tela por alguns instantes. Não porque a bandeira tivesse mudado, ela continua exatamente como sempre foi. Verde, amarela, azul e branca. Mas porque me dei conta de como temos permitido que nossas cores carreguem pesos que não lhes pertencem.
A bandeira do Brasil, essa que sustentamos com orgulho durante a Copa, não deveria ser um assunto polêmico sobre política. Ela não é propriedade de nenhum partido, de nenhum governo, de nenhuma ideologia. Ela não foi feita para dividir brasileiros entre os que podem ou não podem carregá-la. Foi feita para lembrar que, antes de qualquer divergência, existe um país que é de todos. Meu e seu, ainda que pensemos de maneira diferente. Dessa forma, deveríamos olhá-la com a mesma união que demonstramos quando a seleção entra em campo: com orgulho, carregando-a de braços abertos, pois ela representa um país livre, independente e soberano. Talvez a pior coisa que possa acontecer a uma bandeira não seja mudarem suas cores. É usarem suas cores como cortina para esconder aquilo que deveria estar exposto à luz.
Nenhum ato de corrupção se torna menor porque está envolto em verde e amarelo. Nenhuma injustiça merece complacência porque veste vermelho ou outra cor qualquer. O erro continua sendo erro. A honestidade continua sendo honestidade. A verdade não muda de lado conforme o vento da política. E talvez seja aí que a derrota no futebol encontre a vida.
Esperamos que onze jogadores pensem primeiro no coletivo, mas quantas vezes nós mesmos transformamos tudo em torcida? A política, a justiça, as relações e até os símbolos nacionais. Em vez de caminharmos lado a lado, passamos a disputar quem tem o direito de amar mais o Brasil. Mas eu penso que amar um país seja outra coisa.
Talvez seja desejar que ele seja justo, mesmo quando isso contraria quem pensamos apoiar. Talvez seja recusar qualquer tipo de vantagem, venha de onde vier. Talvez seja entender que um adversário político continua sendo um compatriota. E que nenhum projeto de poder vale mais do que o país que continuará existindo quando todos esses projetos tiverem passado.
Existe uma filosofia africana muito bonita, que é o Ubuntu: “eu sou porque nós somos”. Nessa ideia, uma pessoa que existe só se realiza por meio de suas relações com o coletivo. É uma ética humanista que nos conduz à solidariedade, ao respeito mútuo e à compreensão de que ninguém floresce sozinho.
Por isso eu vejo uma beleza silenciosa nas coisas feitas em conjunto. Ocorre que elas quase nunca têm dono, e dificilmente rendem manchetes. Mas sustentam o mundo. Alguém segura a porta do elevador para um desconhecido. Alguém espera o outro terminar de falar. Alguém divide o mérito. Alguém cede a vez. Pequenos gestos que não levantam taças, mas sustentam a vida com decência. Eu acredito mesmo que o coletivo seja isso: uma sucessão de renúncias tão discretas que ninguém aplaude.
Não sei se a seleção perdeu por excesso de individualismo. Não conheço os bastidores para afirmar. Mas sei que foi curioso assistir a milhões de brasileiros lamentando a falta de um espírito coletivo que, talvez, também nos faça falta quando a televisão é desligada.
A Copa termina. A vida continua e, diferente do futebol, ela nos oferece novos jogos todos os dias. Eles acontecem sem estádio, sem narrador e sem VAR. Há apenas a oportunidade silenciosa de escolher, mais uma vez, se queremos vencer uns dos outros ou construir alguma coisa juntos. No final das contas, a bandeira continua a mesma, mas pode ser que quem ainda precise aprender a caminhar unido sob ela sejamos nós.
Com esse pensamento, desejo a você uma semana em que você seja porque nós somos, pois esse também é jeito brasileiro de viver.
Um abraço afetuoso,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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