Crônicas do Tempo
Belisca a Barriga da Viola
Uma história embalada por acordes, risos e memórias.
Publicado em 12/07/2026 às 07:04
Cresci numa família grande: cinco irmãos, 18 tios e uma legião de primos. Nas festas de fim de ano, a casa parecia pequena para tanta gente. Bastava chegar um parente novo para alguém perguntar, entre risos: "Esse é filho de quem mesmo?"
Tudo era mais simples. Não havia excessos, mas nunca faltava o essencial. A mesa era farta — dessas farturas que cabem até na escassez. Havia rodas de conversa, crianças correndo pelo quintal, as brincadeiras entre os primos, o cheiro da carne assando e uma felicidade que não precisava de muito para existir.
Quando chegava a grade de tubaína, era como se a festa ganhasse um presente, e a sodinha que a gente furava a tampa com todo cuidado, bebendo devagar para durar mais tempo.
Como alguns parentes vinham de longe, a festa nunca terminava no mesmo dia. A casa se transformava num grande abrigo de afetos. Colchões ocupavam a sala, os quartos e qualquer canto que coubesse mais alguém. Dormia-se apertado, mas ninguém se importava. Naqueles dias, o espaço era pequeno apenas para a casa — nunca para o coração.
Mas havia um momento esperado por todos. Entre uma refeição e outra, meus tios pegavam o violão. Bastava aquele gesto para a casa mudar de ritmo. As conversas diminuíam, as crianças se aproximavam, as cadeiras iam formando uma roda e, sem que ninguém pedisse silêncio, todos passavam a ouvir.
Antes da primeira moda, havia sempre um pequeno ritual. Um dos meus tios olhava para o outro, sorria e dizia:
— Belisca a barriga da viola.
Então vinham os primeiros acordes. A casa inteira parecia respirar diferente. As conversas silenciavam, as crianças diminuíam a correria e até quem continuava na cozinha acompanhava a música sem perceber. O repertório era de música raiz, dessas que não se aprendem apenas com os ouvidos, mas convivendo com quem as canta.
Eles seguravam a viola com um respeito que só se dedica às coisas realmente importantes. Não havia pressa nos acordes. Cada moda parecia despertar lembranças adormecidas: o sorriso dos meus tios e avós, que já partiram, as vozes da infância e pessoas que, por alguns minutos, voltavam a existir enquanto a música tocava.
Depois disso, o tempo parecia não existir. Uma moda puxava outra, as vozes se misturavam aos risos, alguém pedia mais uma canção, e ninguém parecia preocupado com a hora. Havia momentos que simplesmente se recusavam a caber no relógio.
Naquele tempo eu ainda não sabia, mas estava colecionando lembranças para a vida inteira. Descobri depois que algumas riquezas não cabem em fotografias nem em objetos. Permanecem guardadas em um cheiro, numa voz... ou no som de uma viola — porque mesmo o que é simples, quando vivido de verdade, não se perde.
O tempo fez o que sempre faz: levou cada um para um canto da vida. Vieram o trabalho, os casamentos, os filhos, as responsabilidades. As reuniões, antes tão naturais, passaram a depender de agendas, férias e coincidências. Sem perceber, fomos nos encontrando menos.
Quando já parecia que aqueles encontros pertenciam apenas às lembranças, surgiu a ideia de reunir a família outra vez. O Natal já não comportava tanta gente — meus irmãos e primos levaram o "crescei e multiplicai-vos" a sério. A solução foi janeiro, aproveitando as férias escolares e os aniversários espalhados pelo mês. O importante nunca foi a data. Era estarmos juntos novamente, à espera do momento em que a viola voltaria a reunir a família.
E, como sempre acontecia, havia um momento que todos aguardavam: a roda de viola. Meus tios voltavam a cantar como se os anos nunca tivessem passado. Um deles, em especial, esperava por aquele encontro com a ansiedade de uma criança. Falava da reunião durante semanas, perguntava se já estava tudo certo e mal via a hora de chegar janeiro. Mas, desta vez, a vida mudou o compasso. Poucas semanas antes do encontro, ele adoeceu. Achamos melhor adiar a confraternização. Sem ele, a roda simplesmente não estaria completa.
Mas a vida, às vezes, muda a música sem fazer cerimônias. Meu tio passou semanas esperando por aquele reencontro. Falava dele todos os dias, como quem conta o tempo até uma grande festa. Janeiro chegou. A roda de viola, não. Ele partiu justamente nos dias em que a família voltaria a se reunir. E o mês que sempre soava como riso, conversa e moda de viola ganhou um silêncio que ninguém havia ensaiado.
A confraternização deste ano não aconteceu. Não deu tempo. Mas aprendi que algumas pessoas não vão embora por completo. Elas permanecem naquilo que ajudaram a construir. Vivem nas lembranças, nos sorrisos e nos corações dos filhos e netos. Quando fecho os olhos, ainda sinto o cheiro da carne assando, vejo a roda se formando e ouço a viola enchendo a casa de música. Então percebo que meu tio continua ali, entre uma moda e outra, exatamente onde sempre gostou de estar.
A saudade veio, sim. Mas não levou a música com ela. Tenho certeza de que, na próxima roda de viola, alguém vai afinar o instrumento, outro vai sorrir, as primeiras conversas vão silenciar... e, quase sem perceber, uma voz vai surgir entre nós:
— Belisca a barriga da viola.

As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
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