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Sobre eu, o nós e os outros

Chega a época de eleição e o brasileiro descobre que, além de 200 milhões de técnicos de futebol, somos também 200 milhões de cientistas políticos.

Publicado em 30/08/2026 às 05:59
Atualizado em

Sobre eu, o nós e os outros (Foto: Golconda (1953) René Magritte)

Por Fernanda Curanishi

Olá pessoal! Tudo bem com vocês? Obrigada por chegarem para mais uma prosa de fim de semana. Hoje prometo não falar das artes das crianças nem dos encantos de se viver no interior.

A conversa hoje é mais pontual. Lembro que durante a copa do mundo eu escrevi falando de como éramos especialistas em futebol durante o torneio, com PhD em Fifa e campeonatos mundiais. Essa semana me peguei pensando como é parecido nosso comportamento quando as eleições se aproximam.

A cidade ganha novas cores e contornos. Várias salas coloridas, com fotos de candidatos, passam a funcionar como escritórios de coligações. As ruas, cheias de bandeiras e santinhos distribuídos aos milhares, ganham uma decoração própria até o final de outubro. E todos nós viramos cientistas políticos. Chega a época de eleição e o brasileiro descobre que, além de 200 milhões de técnicos de futebol, somos também 200 milhões de cientistas políticos.

Seria cômico se não fosse trágico. O brasileiro se importa tanto com algumas questões que literalmente veste a camisa, a de cinco estrelas ou a de rosto de candidato. É curioso. Basta aparecer uma urna no horizonte e pronto: o vizinho que até ontem emprestava açúcar vira adversário ideológico. O primo do grupo da família passa a ser tratado como se tivesse cometido um crime contra a humanidade porque vota diferente. O colega do trabalho, aquele sujeito que reclama do preço do café exatamente como você, de repente pertence a uma espécie diferente.

Aqui é dispensada a pergunta “isso já aconteceu com vocês?”, porque não existe brasileiro imune a esse convívio. Formamos times. Tem o time azul, o time verde, o time que odeia os dois, o time que não sabe em quem votar e o time que já sabe em quem votar desde 1998 e considera qualquer dúvida uma falha de caráter.

Cada time tem sua camisa, seu hino, seus memes e, principalmente, sua certeza de que o outro time é formado por idiotas, bandidos e ladrões. É aí que a coisa fica perigosa em casos extremos, mas geralmente engraçada na maioria das situações. Porque, no intervalo dessa guerra toda, o sujeito do time A e o sujeito do time B fazem exatamente as mesmas coisas.

Ambos acordam cedo reclamando do despertador. Ambos pagam boletos. Ambos xingam o preço do supermercado (inclusive eu). Ambos têm alguma coisa em casa que precisa ser consertada há seis meses. Ambos dizem “esse país não tem jeito” pelo menos duas vezes por semana. Ambos têm medo de doença. E a lista desses milhares de ambos não para: ambos querem que os filhos tenham um futuro melhor, ficam indignados quando o salário desaparece antes do fim do mês, conhecem a sensação de entrar no mercado para comprar três coisas e sair de lá com uma sacola e a impressão de que foram assaltados legalmente, e assim por diante.

Quando chega a eleição esquecemos tudo isso. É quando o outro deixa de ser o sujeito que pega o mesmo ônibus, paga o mesmo imposto e reclama da mesma conta de luz. Os outros viram eles. Que palavra poderosa! Como professora que trabalha com a língua portuguesa, não posso deixar de analisar, junto com vocês, esse pronome.

Eles são sempre os culpados. Eles não entendem. Eles são alienados. Eles são manipulados. Eles são perigosos. Eles são isso, aquilo e mais alguma coisa que a gente aprendeu ontem num vídeo de 47 segundos. Enquanto isso, nós, naturalmente, somos diferentes. Nós somos os sensatos. Nós lemos as notícias certas, seguimos as pessoas certas, fazemos as perguntas certas e, sobretudo, concordamos com as pessoas certas.

Acho maravilhosa a democracia, mas é uma pena que, às vezes, o brasileiro pareça torcida organizada, que se divide e discute entre si quando deveria apreciar o espetáculo e fazer parte da festa. Esse é um grande truque das eleições, o de convencer pessoas muito parecidas de que são completamente diferentes.

O político passa quatro anos prometendo resolver nossos problemas e nós passamos alguns meses brigando com quem tem problemas praticamente idênticos aos nossos. Enquanto isso, continuamos com o supermercado caro, pegamos o mesmo ônibus atrasado, a mesma rua esburacada e a mesma promessa de que “agora vai”. A diferença é que, durante a eleição, temos alguém para culpar, o que nos dá uma breve sensação de controle.

Mas no fundo, caro leitor, penso que sejamos todos muito mais iguais do que gostaríamos de admitir. Temos a mesma ansiedade, as mesmas contas, medos, esperanças e a mesma vontade de reclamar. Possuímos o mesmo desejo de transformação, de futuro e de crescimento. E, infelizmente, a mesma habilidade de transformar uma diferença de opinião em uma guerra civil no grupo da família.

Talvez a gente pudesse experimentar uma coisa revolucionária nesta eleição: lembrar que o cidadão do outro lado da discussão não veio de Marte. Ele também está tentando viver, também erra, acerta, tem convicções que considera importantes. E também pode estar errado sobre quem apoia, assim como nós podemos. Aliás, essa última possibilidade é especialmente democrática.

Devemos nos lembrar que, no dia da eleição, todo mundo entra na cabine sozinho. Não veste camisa de time, não tem torcida e nem comentarista. Não tem o familiar insistindo em qual candidato você deveria votar. Nesse dia será só você, a urna e aquele pequeno momento de humildade em que percebemos que, depois de meses discutindo política como se estivéssemos decidindo a final da Copa, a vida vai continuar na segunda-feira.

O boleto continuará chegando, o café continuará acabando, o mercado continuará pela hora da morte, o vizinho continuará pedindo açúcar. Nessa hora, parece que despertamos e lembramos que ele não é inimigo, só vota diferente. E você há de concordar comigo que já temos problemas demais para transformar isso em campeonato. Até porque, se essa disputa fosse mais uma partida da vida, estaríamos todos no mesmo time, o dos brasileiros, ainda que ninguém queira falar nisso.

Um abraço reflexivo,

Fernanda C.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.


Fonte: Fernanda Curanishi

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