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crônicas do tempo

Duas Vidas, Dois Sustos e um Sentimento

Quando encontros inesperados mudam nosso dia

Publicado em 23/08/2026 às 06:54

Duas Vidas, Dois Sustos e um Sentimento (Fonte: Reprodução Emerson Branco)

Por Emerson Branco

Era sábado de manhã, daqueles em que a casa parece respirar mais devagar. Eu estava nos fundos, procurando alguma coisa para fazer, quando ouvi gritos vindos da frente.

A princípio, achei que não fosse nada demais. Talvez uma brincadeira de crianças, talvez algum susto passageiro. Mas havia algo diferente naquele som. Um desespero que atravessava a distância.

Quando cheguei, vi Lome, uma cachorrinha de aproximadamente seis meses, sendo carregada nos braços. Estava ensanguentada, assustada e tremendo. Ela havia escapado quando a vizinha abriu o portão para receber uma entrega. Naquele instante, uma pick-up passou em velocidade e a atingiu. O veículo passou sobre suas patas traseiras. A pata esquerda ficou esmagada.

O motorista não parou.

Lome gritou. Certamente pela dor e medo. Ou porque, naquele momento, não entendesse porque o mundo havia se tornado tão brutal de repente. Quando foi colocada nos braços, porém, ficou quieta.

 Apenas tremia.

Ainda sangrava muito. Rasguei uma camiseta e improvisei uma faixa. Enrolamos suas patas e corremos para o veterinário. Lome foi sedada, medicada e suturada. Depois de algum tempo em observação, voltou para casa com curativos. Parecia que o pior havia passado. 


Mas alguma coisa dizia que ainda era preciso investigar. Levamos Lome a outra clínica para fazer um raio-X. O resultado trouxe uma notícia difícil: os dedos atingidos estavam gravemente comprometidos. Se necrosassem, a pata inteira poderia ser perdida.

Foi necessário amputar os dedinhos esmagados. Mas a pata foi salva, e com ela, uma parte importante de sua vida.

Lome ganhou um cone, alguns curativos e, principalmente, uma nova chance. Em poucos dias, já corria pelo quintal e brincava novamente, como se o corpo tivesse decidido esquecer aquilo que a memória ainda não conseguia.

Talvez os animais tenham mesmo essa sabedoria. Eles não ficam muito tempo perguntando porque aconteceu. Quando a dor passa, simplesmente voltam a viver.

Lome, não vive só. Tem um companheiro em casa. Divide o quintal com Beethoven, um pitbull grande, bonito e praticamente um atleta. O muro da casa tem quase dois metros de altura. Para ele, parece ter sido construído apenas para ser pulado.


Beethoven gosta de visitar a cachorrinha do vizinho. Os dois passam boa parte do dia passeando pela vizinhança. São dois espíritos livres, cada um à sua maneira.

Apesar do tamanho, Beethoven sempre foi dócil. Quando eu chego, vem me cumprimentar. Meus cachorros, do outro lado da grade, não compartilham da mesma simpatia. Ficam latindo sem parar, provavelmente devem pensar que aquele sujeito enorme é algum tipo de invasor.

Antes de entrar, eu sempre paro, me aproximo e faço um carinho em Beethoven.

Havia, porém, uma coisa que sempre me preocupou: quando me vê chegando, ele vem correndo — muitas vezes pela frente do carro.

Até que, num domingo de manhã, aconteceu aquilo que eu temia.

Beethoven surgiu de trás de um monte de areia, em disparada. Não chegou a entrar na frente do carro, mas ele estava tão rápido que bateu contra a lateral.

A pancada foi forte. 

Parei imediatamente. De longe, percebi que a pata esquerda da frente estava deslocada. Ele latia desesperado. Só de olhar, doía. Torci para que não estivesse quebrada. Aproximei-me devagar. Um animal ferido pode reagir de maneiras inesperadas, mesmo sendo dócil. Beethoven estava agitado, tremendo, tentando entender aquela dor repentina. 

Aquela cena devastou meu domingo. Mas fiz o possível. Abaixei-me e o segurei, quase num abraço. Aos poucos, ele foi se acalmando. A dor, porém, continuava ali. Precisávamos encontrar um veterinário. Conseguimos levá-lo à mesma clínica que, poucos dias antes, havia atendido Lome. Beethoven foi tratado imediatamente.

O raio-X trouxe, dessa vez, uma boa notícia: não havia fratura. Apenas uma luxação. Ele ficou internado por três dias. Quando voltou para casa, já caminhava normalmente.

Duas semanas. Dois acidentes. Duas vidas que, por pouco, poderiam ter terminado de maneira muito diferente.

Hoje, Lome corre pelo quintal com seus pequenos dedos a menos. Beethoven continua pulando o muro, atravessando a rua e aparecendo sempre que me vê. E eu continuo fazendo carinho nos dois.

Eles se aproximam, cheiram minha mão e seguem suas vidas. Talvez não saibam exatamente o que aconteceu. Provavelmente nem se lembrem da dor. Mas, quando nos olham, gosto de imaginar que existe ali alguma forma de reconhecimento.

Não sei se animais entendem gratidão como nós entendemos. Pode ser que entendam de um jeito muito mais simples. Talvez gratidão seja apenas confiar novamente.

Confiar em uma mão depois de sentir dor. Aproximar-se de alguém depois de ter conhecido o medo. Voltar a correr depois que o corpo descobriu que também pode se quebrar.

Lome e Beethoven me lembraram de uma coisa que a gente costuma esquecer: nem todo animal que precisa de ajuda é nosso. Nem toda vida que cruza o nosso caminho chega para ficar. Algumas aparecem apenas por alguns minutos, talvez por algumas horas, e ainda assim podem deixar algo dentro da gente.

Às vezes, cuidar não exige grandes gestos. Exige apenas parar, olhar e não passar adiante. Porque talvez seja isso que realmente nos torna humanos: não o fato de podermos seguir o nosso caminho, mas a capacidade de interrompê-lo quando outra vida precisa de nós. 

Duas vidas. Dois sustos. E um sentimento que ficou.

A certeza de que, quando uma vida está ferida diante de nós, cuidar nunca é perda de tempo. É simplesmente, escolher fazer o que for preciso para que ela continue.



As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Emerson Branco

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