Portal da Cidade Paranavaí

Crônicas do Tempo

O Último Abraço

Um encontro, uma conversa e lembranças que atravessam o tempo.

Publicado em 01/11/2026 às 06:53

O Último Abraço (Foto: Emerson Branco)

Por Emerson Branco

Eu havia dirigido doze horas seguidas para visitar minha avó em Santa Catarina. Estava exausto. Tudo o que queria era um banho e um pouco de descanso. Foi então que recebi uma mensagem de uma amiga. Acho que ela só queria conversar, talvez sobre nada específico, como tantas vezes fizemos. Expliquei que tinha acabado de chegar. Ela respondeu apenas: “Então depois conversamos.”

Minha amiga sempre foi daquelas pessoas que transformam o ambiente quando chegam. O sorriso era a primeira coisa que a gente notava — e é assim que sempre me lembro dela. Nos conhecemos no trabalho, e foram muitos os momentos que compartilhamos.

Eram as férias de janeiro, e ela também viajou. Foi para o Nordeste. Depois disso, não nos falamos mais.

Às vezes, me pego pensando na última vez em que nos encontramos. Não foi nada combinado. Aconteceu por acaso. Sentamos, só os dois, e conversamos por um bom tempo. Nada sério, apenas coisas corriqueiras. Era fim de tarde. O sol foi baixando devagar, o azul cedeu lugar ao laranja e, por fim, escureceu por completo. As horas passam depressa quando a companhia é boa.

Eu disse que precisava ir. Ela apenas sorriu. Levantou-se, veio até mim e me abraçou. Foi um abraço rápido, desses em que a gente diz “até logo”, certo de que o reencontro não vai demorar.

Eu nunca imaginei que aquele seria o nosso último abraço.

Naquele domingo, eu ouvia Imagine Dragons. A música “Birds” me chamou a atenção. Havia algo naquela letra que parecia falar comigo, como se aquelas palavras tivessem sido escritas para aquele momento. A canção falava de mudanças, de caminhos que se separam e da possibilidade de reencontro. Naquele momento, eu não sabia o que estava por vir. Mais tarde, aquelas palavras ganhariam outro sentido.

A notícia chegou. E nada mais foi igual.

É estranho como tudo pode mudar de uma hora para outra. Como uma tarde de sol pode escurecer por dentro, mesmo sem que uma única nuvem apareça no céu.

Algum tempo depois, assisti ao clipe de “Wrecked”, da mesma banda. A música falava de uma dor que volta em ondas, de como tudo pode trazer de volta a lembrança de alguém. Era exatamente assim que eu me sentia. A canção não oferecia consolo. Oferecia companhia. Naquele momento, isso já era muito.

Há algum tempo, eu comecei a compor músicas por hobby. Foi numa dessas madrugadas em que a saudade aperta e o sono não vem que escrevi uma homenagem a ela. Dei à canção o título de “Beyond the Last Embrace” — Além do Último Abraço.

A música nasceu daquela dor que não encontra palavras. Começa com a lembrança daquele dia, o sorriso dela e o abraço que nenhum de nós sabia que seria o último. Pergunta por que ela partiu tão cedo, por que não houve tempo para uma despedida. 

Aos poucos, porém, a dor dá lugar à percepção de que o tempo não apaga o lugar que alguém ocupou em nossa vida. No fim, uma estrela pode desaparecer de vista, mas ela continua a brilhar.

Não se trata de esquecer. Trata-se de aprender a conviver com a ausência sem deixar que ela apague tudo o que ficou. A música não a trouxe de volta, mas me permitiu reencontrar, em cada verso, um pouco daquilo que ela deixou em mim.

Ainda penso naquela mensagem. Eu estava cansado, tinha acabado de chegar e queria descansar. Não havia nada de errado nisso. De vez em quando, é assim que acontece: a gente conversa depois, responde mais tarde, deixa para outro dia. Eu não tinha como saber.

Mesmo assim, às vezes me pergunto como teria sido aquela conversa. O que ela queria me contar? Sobre o que teríamos falado? São perguntas que não precisam de grandes respostas para doer.

Talvez seja isso o que mais pesa quando uma pessoa querida parte sem que a gente tenha a oportunidade de se despedir: não apenas o que vivemos, mas cada momento que ainda poderia ter sido compartilhado. 

Felizmente, há também o que aconteceu. A amizade, as conversas que tivemos, o sorriso que tantas vezes iluminou o ambiente. E aquele abraço, tão breve que, naquele instante, não mereceu sequer uma segunda reflexão.

Hoje, ele tem outro tamanho.

Não posso voltar àquela tarde, prolongar a conversa ou transformar o até logo em despedida. Posso apenas guardar a lembrança e reconhecer que, sem que soubéssemos, aquele gesto simples se tornaria uma das coisas mais preciosas que me restaram.

A conversa ficou para depois. O sorriso e o abraço ficaram comigo.


Acesse os links e aumente o som:

Beyond The Last Embrace

https://youtu.be/j3P2IYLKSJ8?si=gMYXPR_Wb_dxq0Q-

Birds

https://youtu.be/cWV6G5CYTHI?si=4vFlkbo6Q6BW7gBF

Wrecked

https://youtu.be/Y2NkuFIlLEo?si=uhwChM_zkNXHiXph


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do Portal da Cidade de Paranavaí.

Fonte: Emerson Branco

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