EntreMentes
Nós, vós e Eles
Éramos em torno de umas 20 pessoas, e chegamos todos a uma mesma conclusão: todo brasileiro tem uma esquisitice.
Publicado em 01/11/2026 às 06:55
Por Fernanda Curanishi
Olá pessoal! Bem-vindos ao nosso espaço semanal de reflexões! Por aqui, a vida continua a mesma, corrida, com alguns vieses e com os apertos do fim do mês. Enquanto não surgem novidades que eu possa contar a vocês, vou traçando por aqui as reflexões que eu guardo na minha cabeça.
Semana passada eu falei sobre a nossa dificuldade com os restinhos de tudo: do refrigerante, do xampu e da pasta de dentes. Depois que a publiquei, estava conversando sobre ela com meus alunos, na segunda-feira. Éramos em torno de umas 20 pessoas, e chegamos todos a uma mesma conclusão: todo brasileiro tem uma esquisitice. “Ai, mas não pode generalizar!”, posso sim! Eu tenho, meus alunos têm e aposto que você tem também, mas talvez não tenha se dado conta (ainda).
Não falo aqui de uma aparência física excêntrica, ou de algum hábito rotineiro que seja duvidoso. A discussão é mais ampla. Refiro-me às pequenas singularidades cotidianas, que fazem com que a gente seja taxado de fresco, sabem as manias alheias, à qual sempre apontamos no outro, mesmo que não vejamos as nossas?
Eu começo por mim: tenho mania de xícara duralex marrom. Sim, exatamente aquelas que minha avó usava antes que eu fosse um projeto nesse mundo. Em pleno século XXI, com acesso às louças finas, ou canecas hypadas, eu gosto de usar a mesma xícara da minha avó por dois motivos. O primeiro é que o utensílio traz a medida perfeita para receitas de bolos, biscoitos e pães. A segunda reside no fato de que um café na velha e boa xícara duralex não tem tempo de esfriar, visto que a xícara é pequena, sem falar nos tombos que essa xícara leva e nem trincar ela trinca. A xícara marrom é mais forte que eu na vida.
E não pensem que minha xícara é uma exceção. O mundo está cheio de pessoas com pequenas manias que, vistas de perto, são verdadeiros estudos de comportamento humano. Tem, por exemplo, aqueles que negociam com a água do chuveiro. Não tomam banho, fazem uma espécie de tratado internacional com a temperatura. Abrem a torneira, colocam a mão, afastam, esperam um pouco, testam novamente. Quando finalmente entram, a água está quente demais. Ajustam o registro, esperam mais um pouco, testam de novo. Enquanto isso, o planeta já perdeu alguns metros de camada de ozônio e a pessoa ainda não molhou o cabelo. É uma relação de amor e desconfiança que merece um capítulo à parte. Especialmente o do inverno, no qual parece haver mais desconfiança que amor pelo banho.
Também existem aqueles que têm um prato preferido. Não estou falando da comida, mas do prato mesmo, aquele de louça, que precisa ser usado em toda refeição. Pode haver uma pilha inteira no armário, mas, se alguém pegar justamente o prato errado, a comida perde um pouco do sabor. Acontece que a gente também se alimenta afetivamente, e quando perdemos a posse do prato preferido, só o corpo é alimentado: o coração continua esperando aquele prato que, por alguma razão, precisa confirmar presença em toda refeição que fazemos.
O mesmo vale para roupas. Há quem tenha uma camiseta que parece ter sido costurada diretamente na pele, uma calça que não pode ser aposentada ou uma roupa tão querida que só sai do armário em ocasiões muito especiais. Algumas peças já deveriam ter pedido aposentadoria, mas seus donos insistem em mantê-las na ativa porque também não sabem viver sem elas.
E as pessoas que guardam embalagens bonitas? Essas merecem nossa atenção. Uma lata de biscoitos com estampa delicada, um vidro de geleia com formato interessante, uma caixa de presente com acabamento caprichado. Nada disso vai para o lixo. A pessoa olha, admira e pensa que “Isso aqui vai servir para alguma coisa”. E guarda. O problema é que nunca se sabe exatamente para quê. A casa vai se transformando em uma espécie de museu de objetos com futuro incerto.
Há também os que não conseguem se desfazer das caixas dos eletrodomésticos. Compram uma televisão, tiram da embalagem, instalam, ligam, assistem à novela e guardam a caixa. Compram uma cafeteira, fazem café, lavam a cafeteira e guardam a caixa. Afinal, nunca se sabe quando será necessário transportar tudo novamente. Em alguns lares, há caixas tão antigas que já poderiam ser tombadas pelo patrimônio histórico. E ninguém toca nelas, porque vai que precisa. Outra categoria bastante interessante é a dos que têm lugar cativo, sabem do que estou falando? No sofá, na mesa de jantar, no carro, na sala de aula, na igreja. Não importa onde, a pessoa escolhe um lugar e estabelece ali seu território. Se alguém ousa ocupá-lo, instala-se um desconforto difícil de explicar. Não há discussão, não há reclamação formal, mas o olhar lançado ao invasor é suficiente para deixar claro que houve uma violação de propriedade. É como se cada um de nós tivesse um CEP emocional.
E não podemos esquecer daqueles que comem primeiro as partes menos gostosas do prato, deixando a melhor para o final. É uma estratégia de vida! A pessoa enfrenta o chuchu, a abobrinha e a salada com a determinação de quem cumpre uma missão, reservando o bife, a batata ou a sobremesa para o grande encerramento. O problema é quando alguém aparece e pede um pedacinho justamente da parte que foi cuidadosamente preservada. Aí não estamos mais falando de educação alimentar, mas de uma ameaça à felicidade individual. Ou então pode acontecer – e digo por experiência própria – de você ter se empenhado tanto na batalha de ingerir os alimentos necessários, que quando chega na parte final, está cheia e acaba deixando o mais gostoso de fora. Você quer comer, mas não cabe. Esse é um grande capítulo de injustiça gastronômica na vida de qualquer um. Mas na próxima refeição, almoço ou jantar, faremos tudo igual de novo.
E existe uma mania muito brasileira, que talvez mereça reconhecimento internacional, a de retirar os plásticos dos eletrodomésticos e eletrônicos novos. Basta comprar uma televisão, um computador, um celular ou até uma geladeira para começar a operação. Lá vamos nós arrancar películas, fitas adesivas, proteções de cantos e plásticos transparentes. É quase uma cerimônia de inauguração, e às vezes há briga para escolher quem vá retirar os plastiquinhos do produto. Há quem retire tudo imediatamente, com uma satisfação indescritível, e há quem deixe uma película no aparelho por tanto tempo que ela acaba ficando amarelada, levantando nas pontas e acumulando poeira. Nesse caso, o produto novo envelhece, mas continua protegido. Não sabemos exatamente do quê.
Pensando bem, talvez nossas esquisitices tenham alguma coisa em comum. São pequenos rituais que inventamos para organizar o mundo à nossa maneira. Escolhemos uma xícara, um lugar, um prato, uma roupa, uma temperatura de banho. Guardamos caixas, embalagens e lembranças que talvez nunca tenham utilidade prática, mas que, por alguma razão, não conseguimos abandonar. Cada um encontra seu jeito particular de tornar a vida um pouco mais familiar, previsível e confortável.
No fim das contas, somos todos meio esquisitos. Alguns escondem melhor, outros fazem questão de exibir suas manias, mas ninguém escapa completamente. E ainda bem! Imagine que chatice seria viver em um mundo de pessoas perfeitamente normais, que usam qualquer xícara, sentam em qualquer cadeira, jogam todas as caixas fora e tomam banho sem discutir com o chuveiro. Talvez a graça da vida esteja justamente nessas pequenas extravagâncias que nos diferenciam, nos aproximam e, vez ou outra, fazem os outros revirarem os olhos. Afinal, se cada um de nós tem sua pequena coleção de maluquices, quem somos nós para julgar a do outro?
Somos todos um pouco esquisitos. E, convenhamos, ainda bem que somos!
Um abraço afetuoso,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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