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Crônicas do Tempo

Moço, Roubaram Minha Moto

O dia em que uma tarde tranquila virou caso de polícia.

Publicado em 05/09/2026 às 21:02

Moço, Roubaram Minha Moto (Foto: Emerson Branco)

Por Emerson Branco

Sábado de primavera, 2014.

Tarde morna, barriga cheia e aquela preguiça típica de depois do almoço. A casa estava silenciosa, o sofá parecia me chamar pelo nome e a soneca já tinha hora marcada. Mas, mas nem tudo acontece como planejamos, o telefone tocou.

Era um amigo.

Ele trabalhava como técnico de enfermagem, assim como “Julius”, vivia numa maratona entre dois empregos. Fazia plantões de 24 horas, corria de um hospital para outro e parecia disputar uma prova permanente contra o relógio.

Atendi.

Nem tive tempo de perguntar se estava tudo bem.

— Roubaram minha moto!

A voz denunciava o desespero.

Enquanto ele trabalhava em Maringá, a esposa havia ido ao mercado, em Nova Esperança. Fez as compras, voltou ao estacionamento... e a moto simplesmente não estava mais onde deveria estar.

Ele já havia avisado a chefia de que precisaria sair antes do fim do plantão. Também orientou a esposa a chamar a polícia. Até conseguir chegar, porém, levaria mais de uma hora.

Como eu estava por perto, fui até o mercado para ajudá-la.

Quando cheguei, ela já conversava com dois policiais. Fiquei por perto, em silêncio, apenas acompanhando a ocorrência.

Um dos policiais iniciou o procedimento de praxe.

— Usaram violência contra a senhora?

Ela fez uma expressão de quem tentava traduzir a pergunta.

— Não, moço. Eu só entrei no mercado.

O policial aguardou.

Ela continuou:

— Meu marido mandou um rapaz buscar a moto para fazer uma manutenção. Ele levou a chave, fez o serviço e disse que deixou a moto exatamente no mesmo lugar. Mas quando saí do mercado... ela não estava mais lá.

O policial anotou calmamente.

— Então não foi roubo. Foi furto.

Ela apenas concordou com a cabeça.

— A senhora sabe a placa da moto?

— Não...

— O modelo?

Ela pensou alguns segundos.

— É preta.

O policial respirou fundo.

Olhou para o estacionamento, repleto de motos pretas.

Olhou novamente para ela.

— Certo... e como a senhora pretende reconhecer a sua moto entre todas essas?

Ela sorriu, completamente segura da resposta.

— Ah, é fácil.

O policial pareceu ganhar um fio de esperança.

— Ela tem um adesivo bem em cima da placa.

Foi curioso observar a mudança de expressão do policial.

Até aquele momento ele parecia apenas preencher um boletim de ocorrência.

De repente, virou uma espécie de Sherlock Holmes.

Pediu o documento da moto.

Conferiu algumas informações.

Olhou novamente para o estacionamento.

Caminhou alguns passos.

Parou.

Apontou.

— Senhora... a sua moto está ali.

Ela olhou.

Franziu a testa.

Respondeu sem hesitar:

— Não, moço. Aquela não é a minha.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Por quê?

— Porque a minha tinha um adesivo.

E foi exatamente nesse momento que o mistério acabou.

O mecânico que havia buscado a moto percebeu que havia um adesivo de uma oficina concorrente colado na traseira.

Resolveu fazer um favor ao cliente.

Arrancou o adesivo.

Fez a manutenção.

E devolveu a moto exatamente onde a havia encontrado.

Sem imaginar que acabava de apagar a única característica que a proprietária conhecia.

Naquele sábado, minha soneca evaporou.

Meu amigo abandonou um plantão.

A polícia foi acionada.

Uma ocorrência foi registrada.

Todo mundo acreditava estar diante de um furto.

No fim das contas, o único desaparecido era um adesivo.

A moto continuava bem ali no estacionamento.

Quando tudo foi esclarecido, olhei para a esposa do meu amigo. 

Ela, que havia passado a tarde inteira acreditando ter sido roubada — e que, pelo desespero que demonstrou, eu imaginava estar em prantos — estava, na verdade, rindo. 

Os policiais também riam. 

E eu ri junto.

Desde aquele dia, aprendi que nem todo mistério precisa de um criminoso. Às vezes, basta arrancar um simples adesivo para transformar uma tarde tranquila em um caso de polícia — e uma boa história para contar muitos anos depois.



As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Emerson Branco

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