EntreMentes
Independência ou morte. Mas primeiro deixa eu pensar.
O feriado e os desfiles são solenes e grandiosos, mas, no cotidiano, seguimos dependentes de pequenos rituais quase inexplicáveis.
Publicado em
05/09/2026 às 21:11
Atualizado em
Por Fernanda Curanishi
Olá leitor e leitora queridos! Espero que estejam bem. Imagino que boa parte dos amigos venha aqui para uma conversa sobre a maternidade ou amenidades do dia a dia. Mas não é sobre isso que conversaremos hoje. Confesso que depois do corte radical de cabelo, dificilmente algum feito estará à altura da coluna, então deixei o mundo infantil um pouco de lado.
Aproxima-se o feriado de nossa independência, e eu não tinha como não tratar disso hoje. Entre feitos e fastios, o Brasil tornou-se independente há muitos anos, mas será que os brasileiros são completamente independentes? O feriado e os desfiles acontecem de forma solene, grandiosa e de importância histórica. Mas, no cotidiano, somos criaturas completamente dependentes de pequenos rituais inexplicáveis. No dia 7 de setembro, comemoramos a independência do Brasil. O que ninguém explica é quando vamos conquistar a independência das nossas próprias manias, aquelas das quais não falamos, mas que todo mundo tem um pouco.
Nos libertamos de Portugal em 1822, mas continuamos escravos de coisas como conferir a porta três vezes antes de ir dormir, de abrir a geladeira outras tantas vezes mesmo estando sem fome e fingir que não vimos alguém na rua porque não temos disposição para conversar.
Duzentos anos depois da história, ainda temos pequenas dificuldades com a independência, não é? E aqui não me refiro à independência política, econômica ou da liberdade da vida adulta. Falo daquela emancipação miúda, cotidiana, que deveria ser simples, e que ainda não conseguimos conquistar. Por exemplo, ainda não conseguimos nos libertar das conversas imaginárias. Todo brasileiro, em algum estágio da vida, já venceu uma discussão que nunca aconteceu. Você está lavando uma louça e, do nada, explica para uma pessoa imaginária por que estava certo ou certa naquela discussão de 2022.
E explica com propriedade! Apresenta argumentos, exemplos, tem até uma frase de efeito que, na época, você não teve coragem de dizer:
— E foi exatamente por isso que eu…
Pausa dramática. A pessoa imaginária até fica em silêncio. Você finalmente venceu. Mas quando a vida real apresenta uma situação parecida, respondemos com um “ah, então deixa pra lá isso…”. Parece que nossa independência emocional está em processo de negociação, pois ainda temos certa incapacidade em admitir certas coisas. Por exemplo, ninguém assume que conversa sozinho, ou que tem músicas que canta com palavras trocadas por não conhecer completamente a letra. Ninguém conta de quando estava procurando o celular com o celular na mão, ou que abre o app do banco só para sofrer. Quase não admitimos que, depois de mandar uma mensagem, muitos de nós ficamos olhando para a tela como se pudéssemos controlar a velocidade da resposta por telepatia.
“Visualizou”. E passam-se trinta segundos. “Visualizou”. Dois minutos. “Visualizou”. Cinco minutos. Neste momento, já estamos construindo uma tese sobre a relação humana contemporânea. Eu vejo aí nossa capacidade de independência nacional: somos independentes o suficiente para ter nossas próprias manias, embora sejamos dependentes demais para admitir que elas existem. Cada brasileiro é uma república autônoma, governada por hábitos inexplicáveis.
Há aqueles que não conseguem dormir sem conferir o celular. Há os que precisam organizar os objetos na mesa de determinado jeito, enquanto outros se organizam melhor com a mesa completamente bagunçada. Tem gente que conversa com o cachorro como se estivesse diante de uma criança de cinco anos. Tem gente que dá “boa noite” para o motorista do uber, e depois passa os próximos dez segundos pensando se deveria ter dado “boa noite”. O Brasil se declarou independente em 1822, mas cada um de nós continua travando pequenas batalhas diárias pela própria soberania.
Essa é outra questão bem interessante. Lutamos pela soberania sobre a geladeira, sobre o despertador. Sobre a vontade de responder “você também” quando o garçom diz “bom apetite”, ou sobre a necessidade inexplicável de conferir se mandamos mesmo aquela mensagem. Lutamos bravamente pela soberania daquela lembrança constrangedora de quinze anos atrás que o cérebro decide recuperar justamente quando tentamos dormir. É uma luta diária, não é?
Amanhã poderemos passar o feriado fazendo absolutamente nada, o que é uma conquista extraordinária. Nisso somos verdadeiramente livres: o povo brasileiro declarou independência de usar o feriado para atividades produtivas. Nesse dia, nenhum de nós precisa construir uma nação. Podemos acordar tarde, tomar café, abrir a geladeira sem motivo. Podemos sair na rua e participar das comemorações. Podemos esquecer o que fomos buscar no quarto e, antes de dormir, podemos conferir se a porta está trancada pela terceira vez.
Amanhã é dia de Independência ou morte! Mas, antes de sair para celebrar, deixa eu voltar primeiro, para ver se tranquei a porta.
Desejo a vocês um ótimo feriado,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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