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Sobre os crimes perfeitos da infância

Minha parte preferida do final de semana é aparecer por aqui. Escrevo como se já fôssemos próximos, porque, de certa forma, somos.

Publicado em 23/08/2026 às 06:52

Sobre os crimes perfeitos da infância (Fonte: Mary Cassat – Young Mother (1900)

Por Fernanda Curanishi

Olá leitor e leitora amigos! Minha parte preferida do final de semana é aparecer por aqui. Escrevo como se já fôssemos próximos, porque, de certa forma, somos. Ainda que eu esteja do lado de cá e vocês, do outro lado da tela, existe um laço que nos aproxima. Então bem-vindos a mais um pedacinho desse lugar que estamos construindo juntos.

Quem convive com os pequenos, em casa ou no trabalho, sabe: criança é um trem que não para quieto nunca! Enquanto ouvimos barulho, gritos, risos, e até mesmo o choro, é sinal de que está tudo em seu devido lugar. O silêncio, esse sim, é um perigo! Essa é a regra #1 para cuidadores, e foi justamente dela que eu me esqueci.

O dia tinha sido cheio, e quando ele ‘acabou’, fui cuidar dos afazeres domésticos. Enquanto meu marido lavava a louça, fui ajeitando as coisas, preparando a refeição e olhando os pequenos. Mas esqueci da lei do silêncio. Estava tão atarantada no meio dos afazeres que não percebi o silêncio pleno do lar. Com tudo organizado, resolvi passar uma vassoura na casa, quem nunca, né. Uma criança vendo desenho na sala, outra no quarto brincando. Tudo parecia sob controle.

Há mães que encontram desenhos na parede e respiram fundo. Outras descobrem um suco derramado atrás do sofá e conseguem, com alguma dignidade, pensar que é só uma fase, e que logo passa. Eu até tento, mas não sou dessas mães. Eu descobri uma tesoura no chão, e fios de cabelo (muitos!) escondidos debaixo do sofá. Não foi a primeira vez. Que fique bem claro que isso já aconteceu antes.

Dois anos atrás, na ocasião pioneira, eu estava confortada pela pouca idade da moça, e pensei que fosse só uma fase, um surto criativo que jamais aconteceria de novo: um aprendizado pela arte. Um corte de cabelo pedagógico. Sempre me disseram que as crianças aprendem com os erros. E que com o tempo, tudo passa. Mentira.

Descobri, essa semana, que as crianças aprendem com os erros, mas, às vezes, os repetem com mais convicção. Além de cortar o cabelo mais curto, ela teve o cuidado de esconder as provas do crime debaixo do sofá da sala. A maquinação, confesso, me impressionou: pelo cuidado em criar o crime perfeito e pela ousadia de evitar a bronca da mãe.

Chamei pelo nome: veio um metro de gente na minha frente, sorrindo, com uma tesourinha escolar, roxa, na mão. Ao me ver, ainda fez um tec tec com a tesoura. Naquela cabecinha terrível, um projeto capilar em andamento e um plano de ocultação de evidências. Eu fiz isso na minha infância também, mas uma única vez. Achei que já tivesse pago esse pecado dois anos atrás, e que o universo tinha nos deixado quites. Que nada. Quando vi os tufinhos de cabelo debaixo da poltrona, senti uma coisa que não sei se era raiva, desespero ou vontade de matriculá-la imediatamente em um curso de Direito. Ou do Senac, pois ainda não compreendi bem qual é a vocação da meliante:

 “Você cortou seu cabelo?”

 Silêncio.

 “Foi você que cortou?”

 Mais silêncio. Sorriso. E uma mãe tentando manter a compostura. Quando eu era pequena, eu pensava que as mães tivessem o conhecimento sobre tudo e sobre todos no mundo. Que tivessem as respostas para todas as dúvidas. Tinha certeza plena de que elas conheciam Deus frente a frente antes de serem mães, pois sempre tinham palavra para tudo: as coisas conhecidas e as desconhecidas.

 Quisera eu ter as respostas para aquele momento. Eu, que já não sei muita coisa, nessas horas percebo que não sei de nada. Descubro que travessuras podem despertar raiva, graça e amor ao mesmo tempo. E depois, desespero. Nela, aquela expressão de quem está diante de uma investigação internacional e foi orientada pelo advogado a não se manifestar.

 Só conseguia pensar: “Minha filha está parecendo o Chitãozinho”. Não o Chitãozinho de hoje, elegante, experiente, senhor de si, mas o cantor de uma época em que o cabelo tinha uma importância política, econômica e cultural. Minha filha havia recriado, com uma tesoura escolar e zero autorização, uma estética sertaneja de quem reivindica o poder sobre todas as artes. E eu estava ali, diante da obra pronta, tentando entender em que momento a maternidade tinha virado uma mistura de salão de beleza, perícia criminal e manutenção predial.

 Porque criança é isso, um ser humano pequeno, com pouquíssimo juízo e uma confiança gigantesca na própria capacidade. Que olha para uma tesoura e pensa: “Quero cortar meu cabelo”, ou olha para a parede branquinha da sala e decide “Vou desenhar aqui”. No auge daquela situação, eu disse a ela para voltar a brincar com as bonecas. Saí na varanda (dos fundos, porque eu sou modesta) e gritei como se estivesse com um travesseiro socado no rosto.

 Cães da vizinhança latindo, marido deixando a espuma na pia para acudir, trânsito normal na avenida. Ao voltar para a realidade, percebi que eu sempre chego cinco segundos depois do caos. Então, tendo aprendido essa lição, voltei ao papel das mães amigas de Deus: lá fomos nós, elaborar tratados sobre segurança, propriedade, estética, higiene, bom senso e consequências. Uma mãe exemplar, mas que, no fundo, queria ter raspado aquela cabecinha genial para deixar tudo igualado.

 Enquanto escrevo essas linhas, ainda pensando no que fazer com aquela (meia) cabeleira, vejo beleza na capacidade infantil de fazer maravilhas onde os adultos só enxergam desastre. Porque, enquanto ela não conhece o jeito certo de fazer algo, ela inventa, experimenta, mistura, corta, cola, pinta e desmonta. E quando dá errado, esconde os vestígios do erro debaixo do sofá. Nós, os adultos que sabemos de tudo, continuamos anos no mesmo lugar por medo de tentar. De trocar de emprego, de mudar de cidade, de ousar, de confiar, de desejar. Porque entendemos o erro como fracasso, não como parte do processo. E, aqui, Deus me mostra que minha filha é muito mais valente do que eu.

 É uma pena que aqueles fios, um dia, vão desaparecer junto com muitas outras coisas da infância. Nesse dia, pode ser que eu sinta falta da época em que o maior problema da casa era descobrir quem tinha cortado o cabelo e escondido a prova do crime atrás do móvel. Enquanto isso, eu sigo surtando, ela parecendo um cantor sertanejo dos anos 90 e a tesoura, apreendida. Certos experimentos precisam de supervisão.

Desejo a vocês uma semana leve e de novos experimentos,

Fernanda C.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Fernanda Curanishi

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