EntreMentes
Sobre o tradição verde e amarela
Aliás, a conversa dessa semana não teria como ser outra. É lindo ver o espírito de comunhão entre os brasileiros nessa época.
Publicado em 05/07/2026 às 06:52
Por Fernanda Curanishi
Olá pessoal! Espero que vocês estejam bem e animados. Agradeço terem dado uma passadinha aqui, para aquela prosa de respeito que temos todos os domingos. Confesso que estou mais animada esses dias, movimentada interiormente por uma mistura de ansiedade e frio na barriga a cada partida da copa que é transmitida.
Aliás, a conversa dessa semana não teria como ser outra. É lindo ver o espírito de comunhão entre os brasileiros nessa época. A cada quadriênio, torcedores de times rivais se unem para torcer pela seleção. Na última segunda, dia 29, corri ao supermercado para pegar um ingrediente que faltava para o almoço. Tendo esquecido da icônica partida contra o Japão, dei uma escapadela ‘rápida’, pensando que voltaria a tempo de terminar nossa refeição.
Ledo engano. Presenciei cenas em que eu tive certeza: a coluna dessa semana será não sobre a Copa, mas sobre quem somos nós durante o evento. Pais e mães, com crianças recém-saídas da escola, buscavam alimentos não para o eventual almoço, mas para sustentar uma partida que sabíamos ser complexa. Vi famílias com o carrinho abastecido para o famoso churrasco. Vi pessoas com cestinhas providas de petiscos e bebidas. Outras ainda escolhiam como participariam do momento, cada uma com a preferência e o orçamento de que dispunham. Mas em todas elas havia algo em comum: a alegria da expectativa, porque, como diz minha mãe, “o melhor da festa é esperar por ela”.
Observar tudo isso me faz pensar que há algo de sagrado na Copa do Mundo que nunca coube apenas dentro das quatro linhas do campo. E esse algo começa muito antes do apito inicial. Inicia-se quando uma rua ganha bandeirinhas atravessando o céu como pequenos pedaços de sonho; quando alguém tira do armário a camisa amarela já um pouco desbotada, carregando vitórias, derrotas e tardes de domingo. Famílias se reúnem em dia de semana, se for preciso. Nas ruas, o verde amarelo toca tudo, desde fachadas, propagandas, vitrine de lojas, supermercados e restaurantes. Em alguns lugares, até a própria rua fica colorida.
Arrisco a dizer que, inclusive, nosso coração se transforma e muda de cor. As crianças aprendem nomes de jogadores e até quem diz não gostar de futebol acaba perguntando: "Que horas é o jogo?". É como se, diante desse espetáculo, o Brasil se lembrasse de si mesmo. Perdemos o constrangimento de vestir a camisa, pausamos momentaneamente as discordâncias, e colocamos os problemas tupiniquins em modo de espera. É um ritual que nos concentra, une e transforma o coletivo em uma forma de poder que esquecemos ter.
Não importa o ano, toda geração guarda uma lembrança de copa. Eu mesma já testemunhei duas finais vitoriosas, e ambas foram inesquecíveis. Há aqueles que recordam o rádio ligado na sala, enquanto a vizinhança explodia em gritos. Outros lembram da televisão de tubo cercada de cadeiras emprestadas, da família inteira dividindo o mesmo sofá, dos fogos que começavam antes mesmo do juiz encerrar a partida. Há quem tenha crescido vendo Ronaldo desafiar o impossível, quem tenha aprendido a admirar a genialidade de Ronaldinho, quem tenha chorado em 1998, vibrado em 2002, silenciado em 2014 ou alimentado a esperança em tantas outras campanhas.
As Copas passam, mas as lembranças permanecem. Porque, no fundo, não colecionamos apenas resultados. Colecionamos cheiros de almoço de domingo, ruas vazias durante noventa minutos, buzinas desafinadas, abraços espontâneos em desconhecidos, corações acelerados diante de uma bola que parecia carregar muito mais do que um campeonato. Talvez seja por isso que a Copa nunca envelhece. E nós também não envelhecemos diante dela.
Ela nos devolve uma versão do Brasil que insiste em sobreviver, a de um país capaz de interromper a rotina por um instante, de conversar com quem nunca viu antes, de encontrar assunto na fila da padaria, de rir junto, sofrer junto, acreditar junto. Em tempos tão fragmentados, esse é um grande milagre: lembrar que ainda somos capazes de compartilhar emoções coletivas.
Hoje, do outro lado do campo, estará um dos maiores nomes do futebol mundial, Erling Haaland, vestindo a camisa da Noruega e carregando consigo a expectativa de quem transforma talento em espetáculo. Mas, por aqui, o olhar nunca repousa apenas sobre o adversário. O Brasil entra em campo levando algo que nenhuma estatística consegue medir: a capacidade quase ingênua de acreditar. Não enfrentaremos apenas uma seleção forte. Enfrentaremos nossos próprios medos, nossas lembranças de Copas passadas, nossos traumas e nossa insistência em sonhar outra vez com o Hexa. Porque, enquanto eles jogam uma partida, nós vivemos um acontecimento: o futebol pode ser universal, mas a forma como o brasileiro experimenta uma Copa continua sendo um patrimônio que não se exporta.
Quando a bola voltar a rolar, milhões de brasileiros repetirão um ritual que atravessa gerações. Haverá ansiedade, superstição, palpites feitos com a convicção de quem nunca treinou uma seleção. Haverá crianças vivendo sua primeira Copa consciente, enquanto adultos revisitam todas as outras dentro da memória. E, mais uma vez, o país inteiro parecerá respirar no mesmo compasso. O futebol, afinal, será apenas o pretexto. O que realmente entra em campo é a esperança, essa velha camisa da Seleção que o brasileiro nunca deixa de vestir completamente. Ela pode ganhar novos remendos, carregar cicatrizes de derrotas inesquecíveis, provocar desconfiança em alguns momentos. Ainda assim, quando chega uma Copa do Mundo, ela volta a servir.
Porque acreditar, para o brasileiro, nunca foi apenas uma escolha. Sempre foi tradição.
Desejo a vocês uma excelente partida, e uma ótima semana,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
Notícias relacionadas
Professor conquista alunos com paixão pela literatura, teatro e educação
05/07/2026 às 07:00
GTA VI, O Maior Assalto da História
05/07/2026 às 06:53
Depois do Escuro
05/07/2026 às 06:51
Paranavaiense “Sorlei” já vestiu a amarelinha da Seleção Brasileira
05/07/2026 às 06:50
Festival de Dança de Paranavaí começa nesta sexta (3) após mudança na programação
02/07/2026 às 09:03
Rock na Praça terá shows de bandas e concerto da Orquestra Municipal em Paranavaí
01/07/2026 às 09:32