Portal da Cidade Paranavaí

Crônicas do Tempo

Depois do Escuro

Memórias de um vocabulário que o tempo não apagou.

Publicado em 05/07/2026 às 06:51

Depois do Escuro (Foto: Reprodução Emerson Branco )

Por Emerson Branco

Há um idioma que só a infância sabe falar — e que o tempo passa a vida inteira tentando nos fazer esquecer. Não se aprende nas escolas, não está nos dicionários; é uma língua feita de invenção e de verdade, onde as palavras ainda não foram engessadas pela obrigação de serem corretas. É um modo de falar com o corpo inteiro — com os olhos arregalados e a alma sem pressa.

As crianças enxergam o mundo de um jeito que a vida adulta insiste em nos roubar. É assim que trovão vira “bululun”, fantasma vira “fantasbada” e galinha é “cocó”. Quem nunca presenciou uma cena dessas e se viu entre o riso e o espanto, percebendo que, no fundo, são elas que têm razão?

Guardo comigo algumas joias desse tempo. Meu irmão, por exemplo, era fiel a um pequeno cobertor — o famoso “bo”. Ganhou ainda bebê e, quando aprendeu a andar, passou a ser sua sombra. Era arrastado para todos os cantos, como uma extensão da própria infância — testemunha silenciosa de brincadeiras e travessuras. Sem ele, o mundo desabava. Ninguém ousava perdê-lo — era questão de paz doméstica. Resistiu por anos, até virar apenas fiapos encardidos e, por fim, desaparecer. 

Eu também tive minhas pérolas linguísticas. Lembro do “friche” da vaca, da “raja” de água e do “tragão” que cuspia fogo. Não sei quando aprendi a falar “do jeito certo”, mas essas palavras foram companheiras fiéis por muito tempo.

Outro dia, em um almoço de família, meu sobrinho brincava com meu cunhado quando, de repente, uma pilha de utensílios despencou no chão. Os olhos de todos se voltaram para os dois. Silêncio. A brincadeira congelou no ar. Meu sobrinho arregalou os olhos e, sem pestanejar, decretou:

— Foi o tio.

A gargalhada foi geral. Naquele instante, ele nos ensinou que a verdade, às vezes, é apenas uma questão de ponto de vista — e de sobrevivência.

Em outra ocasião, reunimo-nos para fazer yakissoba. Enquanto os adultos se esmeravam nos temperos, uma das minhas sobrinhas, ainda pequena, analisou o prato com a sinceridade de quem ainda não aprendeu a mentir por educação:

— Quero este não, quero macarrão sem sujo.

Alguém insistiu:

— Experimenta, está gostoso.

Ela respondeu, sem hesitar:

— Quero não, quero macarrão gostoso.

E ali estava dito, com precisão, tudo o que, na vida adulta, vira meias palavras.

Mas há uma lembrança que guardo com especial carinho: a da minha afilhada. Ela tinha um olhar curioso, desses que ainda descobrem o mundo passo a passo. Hoje é mulher, mas, para mim, continua sendo aquela menina que não esperava pelo amanhã — esperava pelo “depois do escuro”. 

Era um jeito bonito de dizer que o dia só nascia quando a luz vencia a noite — e que o futuro não era um compromisso na agenda, mas algo que estava logo ali, depois do sono.

O tempo passou. Minha afilhada cresceu, aprendeu os nomes corretos das coisas, descobriu que o amanhã tem hora marcada. Mas o nosso dicionário particular permaneceu intacto. Quando nos encontramos, ainda brincamos como antes. E, nessas horas, ainda consigo ouvir o eco daquela voz pequena me oferecendo o maior elogio que já recebi:

— Você é “besto”, padrinho!

O erro era o charme. A prova de que a nossa cumplicidade dispensava a gramática. Bastava o riso.

Talvez crescer seja aprender a dar nome às coisas — organizar o mundo em categorias, prazos e compromissos. Mas lembrar… lembrar é resistir. É não deixar que as palavras percam o encanto, que a poesia se desfaça em mais um dia qualquer.

A verdade é que as crianças não falam errado. Elas apenas falam outra língua.

E, para este tio ainda “besto”, o futuro continua tendo gosto de curiosidade — de quem espera, com o coração aberto, o que vem logo ali… depois do escuro.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.



Fonte: Emerson Branco