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Sobre belezas e resistências

Quando me sinto nervosa ou aflita, eu busco me concentrar em encontrar alguma beleza do dia na cidade. E isso me ajuda muito.

Publicado em 11/10/2026 às 06:51

Sobre belezas e resistências (Foto: Reminiscence (2015) - Tina Spratt)

Por Fernanda Curanishi

Olá pessoal! Tudo bem com vocês?

As semanas têm passado diferente, já perceberam? Eu, que não sou tão jovem assim, confesso que nunca vi uma primavera tão chuvosa. Nem tantas catástrofes em nosso estado, embora nossa região tenha sofrido, por enquanto, menores impactos.

As coisas estão diferentes, mas não sei explicar direito o que acontece. A coluna de hoje é sobre isso, e eu espero conseguir colocar em palavras. Não sei se está se aproximando o fim do ano ou o fim do mundo, mas o cansaço típico do brasileiro parece estar … mais. Mais pesado, maior, mais complexo, enfim, diferente.

Há dias em que o mundo pesa. Acordamos cansados, cumprimos nossas obrigações e, ao abrir o celular, encontramos mais uma notícia difícil, mais uma discussão, mais um motivo para temer o futuro. A política vira briga, as diferenças se transformam em ofensas, a guerra tem feito mais vítimas, e parece cada vez mais difícil conversar sem que alguém precise vencer.

A tribulação chega em nossos dias, mas o expediente continua cobrando presença, atenção e responsabilidade. E eu tenho uma estranha sensação de ter a obrigatoriedade de ser mais do que uma. Ao mesmo tempo, temos que ser pais, trabalhadores, estudantes, atletas, praticar uma religião, estar por dentro das trends, estar informado sobre o último escândalo. Ou incêndio.

Mas no meio de tudo isso, a vida também continua acontecendo. O café passado na hora, o sol entrando pela janela, a mensagem de um amigo, a árvore florida na calçada. O cachorro que nos recebe como se tivéssemos passado anos fora, embora tenhamos saído apenas para comprar pão. São pequenas cenas, quase sempre despercebidas. E se soubermos reparar, podemos encontrar aí o extraordinário, naquilo que continua existindo enquanto estamos ocupados demais com as notícias ruins.

Eu chamo esses pequenos momentos de alívio de “beleza do dia”. Encontrar uma beleza do dia é colocar reparo em alguma coisa que sempre esteve no meu cotidiano, mas que eu nunca percebi devido à correria. Uma placa nova na rua, o ipê quando floresce a caminho da escola, uma pequena cena cotidiana de troca de afetos. Tudo isso me obriga a estar no momento, a manter meu pensamento somente onde e no que estou concentrada a fazer, e isso me ajuda a não me estilhaçar entre tudo o que a modernidade oferece para nos prender. Quando me sinto nervosa ou aflita, eu busco me concentrar em encontrar alguma beleza do dia na cidade. E isso me ajuda muito.

Não digo que devemos ignorar o que acontece ao nosso redor. Não dá para contemplar o pôr do sol e esquecer quem passa fome, quem sofre violência ou quem tem seus direitos ameaçados. A indignação é necessária. A participação política também. Há problemas que exigem nossa atenção, nossa voz e nossas escolhas. Mas precisamos reconhecer quando acompanhar os acontecimentos deixa de ser informação e vira exaustão. Quando passamos o dia alternando entre manchetes e discussões nas redes sociais, tudo parece urgente, ameaçador, impossível de suportar. É como se precisássemos permanecer em alerta a cada minuto, como se descansar o olhar fosse uma forma de omissão.

E não é. Podemos nos informar sem consumir cada tragédia em tempo real. Defender nossas ideias sem transformar o vizinho, o colega ou o parente em inimigo. Discordar sem reduzir uma pessoa inteira à sua posição política. E podemos, sobretudo, continuar prestando atenção à vida que acontece fora das telas.

O almoço de domingo, a criança aprendendo a andar de bicicleta, o pão quentinho da padaria, o reencontro depois de uma semana corrida. Nada disso, por si só, muda o rumo do país. Mas é nesse cotidiano que a vida se constrói, e é por ele que tantas vezes lutamos. Há algo de verdadeiramente humano em continuar se alegrando com essas coisas quando temos tantos motivos para nos preocupar. Não é ingenuidade, nem falta de consciência. É não entregar todos os nossos dias àquilo que nos entristece.

A beleza não precisa ser grandiosa. Às vezes, é apenas chegar em casa e encontrar alguém. Caminhar sem pressa e perceber os sons da rua. Olhar para o céu e descobrir que, enquanto discutíamos, a tarde ficou cor-de-rosa. Penso que resistir também é isso, menos pressa para reagir a tudo e mais disposição para perceber o que está diante dos olhos. O mundo continuará exigindo de nós. Haverá notícias difíceis amanhã, divergências na próxima conversa, problemas que continuarão à espera de respostas. Não temos como evitar tudo isso. Mas podemos impedir que a preocupação ocupe cada fresta dos nossos dias.

Da próxima vez que o cansaço apertar, experimente olhar para fora: procure uma beleza no seu dia. Repare na luz sobre a mesa, ligue para alguém de quem sente saudade, caminhe um pouco, aceite um convite. Não é uma solução para os grandes problemas. É apenas uma maneira de não deixar que eles nos roubem também as pequenas alegrias. Porque a vida não acontece somente nas crises que dominam as manchetes, nos discursos inflamados ou nas disputas que parecem dividir o país ao meio. Ela acontece agora, nas pessoas que amamos, nos gestos de cuidado, nas coisas simples que quase deixamos de notar.

E, quando tudo parece feito para nos dividir, assustar e endurecer, parar diante de uma árvore florida, acolher alguém ou simplesmente se permitir uma alegria pode parecer pouco, mas não é. Ver a beleza em meio ao cansaço, ao medo e à polarização não é fechar os olhos para o mundo. É não permitir que o pior dele determine tudo o que somos. É preservar a sensibilidade sem abrir mão da consciência, indignar-se sem perder a ternura e reconhecer as dores sem deixar de celebrar as alegrias.

Porque continuar encontrando beleza na vida enquanto cuida dela também é uma forma de resistir.

Espero que vocês, colegas queridos, consigam encontrar mais belezas em seus dias.

Com afeto,

Fernanda C.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Fernanda Curanishi

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