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EntreMentes

Quando as diferenças se sentam à mesma mesa

Em meio à convivência, observando pensamentos, temperamentos e modos de agir tão diversos, percebi como nossas diferenças têm o poder de nos aproximar.

Publicado em 14/06/2026 às 06:56

Quando as diferenças se sentam à mesma mesa (Foto: A última Ceia, de Leonardo DaVinci)

Olá, amigos leitores! Olá, amigas leitoras! Como sempre, é com grande alegria que eu os recebo nesse cantinho, que tem se tornado cada vez mais nosso. A coluna de hoje trata de um tema universal; entre, pegue uma cadeira e fique à vontade para a conversa de hoje.

Na minha última coluna, escrevi que nossa cidade é para todos os gostos, e ela é mesmo. Há quem acorde antes do sol para caminhar. Há quem considere esse horário uma afronta aos direitos humanos. Há quem goste de silêncio. Há quem transforme qualquer encontro em uma roda de conversa. Há quem planeje cada passo, enquanto outro descubra o caminho enquanto caminha. Todos somos diferentes. E talvez seja por isso que somos interessantes.

Como vocês sabem, eu sou católica, e nos últimos dias, estive envolvida na organização de um evento religioso que durou o final de semana inteiro, da sexta ao domingo. Nada extraordinário, se olharmos apenas para o resultado final. Pessoas se reuniram, trabalharam, resolveram problemas, organizaram detalhes, acolheram participantes. Tudo acontecendo dentro do planejado. O que me chamou a atenção, porém, aconteceu nos bastidores. E é sobre isso que eu quero falar na coluna de hoje.

Ali estavam pessoas de idades diferentes, profissões diferentes, trajetórias de vida diferentes. Algumas se conheciam havia décadas. Outras mal sabiam os nomes umas das outras. Havia os que gostam de decidir rápido e os que precisam refletir um pouco mais. Os que falam muito e os que falam pouco. Os que carregam listas e planilhas. E os que, misteriosamente, conseguem encontrar a solução sem nunca ter escrito nada no papel. É na coletividade desse trabalho que servimos a um propósito maior, nesse caso religioso; mas a experiência do servir é profundamente humana. Em meio à convivência, observando pensamentos, temperamentos e modos de agir tão diversos, percebi como nossas diferenças têm o poder de nos aproximar e, às vezes, também de nos afastar.

Às vezes surgiam divergências. Afinal, se até numa família é difícil decidir o sabor da pizza, imagine organizar algo maior. Coordenar equipes, atribuir funções, cumprir metas dentro do tempo estipulado. Discordâncias fazem parte. Desentendimentos, infelizmente, também. Somos pessoas buscando a santidade, mas ainda habitadas uma humanidade complexa e desafiadora. Em meio ao trabalho, e algumas lágrimas no caminho, notei que havia algo mais forte do que as diferenças: havia o propósito comum.

E é curioso como um objetivo compartilhado tem o poder de revelar versões melhores de nós mesmos. A convivência obriga a exercitar a paciência. O trabalho conjunto ensina a ouvir. A responsabilidade dividida mostra que ninguém constrói nada relevante sozinho. Apesar das dificuldades, pouco a pouco, cada pessoa foi oferecendo o que tinha de melhor. Um ajudava com sua experiência. Outro com sua disposição. Outro com sua criatividade. Outro simplesmente com sua presença constante, aquela qualidade rara de quem faz a engrenagem funcionar sem precisar aparecer. No fim, percebi que o maior resultado daquele encontro foi a transformação silenciosa de quem participou dele.

Porque a comunhão não acontece quando todos pensam igual. Ela acontece quando pessoas diferentes descobrem que podem caminhar juntas, ainda que o percurso revele algumas dificuldades. Vivemos em um tempo que parece valorizar excessivamente as diferenças que nos separam: é fácil enxergar o que distingue. Perceber o que aproxima, por outro lado, requer um pouco mais de esforço.

O que aconteceu no encontro é uma amostra do cotidiano. Nossa cidade, com seus quase cem mil habitantes, é uma coleção de singularidades. Cada morador guarda sua história, seus sonhos, suas preocupações e suas certezas. Nenhuma dessas histórias é igual à outra. Ainda assim, algo invisível nos conecta. Talvez comunidade seja exatamente isso: um lugar onde ninguém precisa deixar de ser quem é para pertencer, um lugar onde as diferenças não são apagadas, mas respeitadas e, com sorte, harmonizadas. Algo parecido com um coral, em que cada voz mantém seu próprio timbre e, justamente por isso, a música acontece.

Ao observar aqueles voluntários trabalhando lado a lado, pensei que a cidade inteira funciona de forma parecida. Todos os dias, sem muito alarde, pessoas diferentes colaboram para construir algo maior do que elas mesmas. Na escola, na praça, no comércio, nas igrejas, nas associações, nas famílias. Viver é uma obra coletiva que nunca termina. E, possivelmente, o verdadeiro milagre da convivência não seja transformar pessoas diferentes em iguais. Talvez seja permitir que continuem diferentes, mas cada vez mais próximas. E, convenhamos, em tempos de tanta pressa e tanto ruído, isso já é uma bênção considerável.

Uma semana repleta de bençãos a vocês,

Fernanda C.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.



 



Fonte: Fernanda Curanishi