Crônicas do Tempo
No sítio da Dona Emília
Lembranças de uma fruta e de um mundo de aventuras que cabiam numa tarde.
Publicado em 14/06/2026 às 06:55
Por Emerson Branco
Ainda sinto o cheiro do algodão recém-colhido. Lembro dos campos branquinhos como um grande tapete — como se as nuvens tivessem descido e coberto toda a paisagem. Eu ajudava minha mãe na colheita quando ainda era só um garoto, não por obrigação, mas porque a tarde pedia movimento. A fibra macia escapava entre os dedos, e o sol quente no pescoço tinha um peso bom, desses que a gente só sente quando é pequeno e o tempo parece infinito.
Depois da escola, eu tinha horas livres. Muitas. Naquela época, a colheita do algodão durava até o começo do inverno, e o dinheiro que entrava ajudava nas despesas de casa. Mas quando passava essa fase, eu voltava a ter as tardes inteiras para mim — não ociosas, nunca vazias. A gente sempre achava o que fazer. E quando não achava, a gente criava.
Esconde-esconde, barata, pega-pega, futebol na rua de chão batido. Brincávamos até o escurecer, de vez em quando, até depois, quando a mãe aparecia na porta — a gente fingia que não ouvia. Mas o mundo ali, na frente de casa, às vezes, ficava pequeno. Faltava aventura. Então a gente ia longe.
Os sítios da região eram generosos. Mangas, laranjas, tangerinas, jabuticabas, goiabas, pitangas, amoras — cada fruta tinha seu ritual. A manga coquinho, por exemplo, a gente batia contra o tronco até ela ficar completamente “mole”. Depois, com todo cuidado, fazia um furinho no biquinho e apertava para extrair aquele caldinho. Um verdadeiro néctar. Quando a casca rachava, o melado descia pela mão, pelo braço, até os cotovelos, junto com a sujeira do dia — uma mistura de amarelo e terra que a gente só lavava em casa, já tarde, depois de ter sido feliz.
As goiabas eram duas espécies: a branca e a vermelha. Sempre gostei mais da vermelha, porque nela o famoso bicho-da-goiaba era fácil de ver. Na branca ele se camuflava, traiçoeiro. Achar o bicho inteiro ainda ia — o problema era achar só a metade.
Cada fruta era uma aventura, mas havia um lugar especial.
O sítio da Dona Emília era diferente. Ficava à beira da estrada, nos arredores da cidade, e quando a gente entrava lá, o tempo parecia mudar de passo.
A casa de madeira, simples, rangia com o vento. O papagaio nas árvores sempre chamava nossa atenção. Lá atrás, um paiol e uma charrete encostada. A água do poço era tirada à mão, num balde preso a uma manivela de madeira que gemia ao girar.
O pomar, cheio de árvores frutíferas e sombras densas.
Ali, o tempo era curto e infinito — numa medida que só a infância entende. Era tudo simples, muito rústico — e ainda assim extraordinário. Como canta o Queen em “A Kind of Magic”, era "um raio de luz que mostra o caminho": uma espécie de encanto que transformava o simples pomar em um reino particular.
Naquele pedacinho de paraíso escondido, tinha as frutas que eu mais amava. A ameixinha amarela, ácida, que apertava a boca. A seriguela, casca fina e polpa suculenta, hoje tão rara que parece de outro tempo. E a mexerica-cravo — também conhecida como “bafo-de-bode”, “fedidinha” ou “fuxiqueira”. O cheiro dela é único, impossível de esconder. Bastava chegar perto: tem mexerica aí. O perfume forte denunciava antes mesmo avistar os pés.
Eu gostava de pegar a fruta direto do pé, mesmo ainda quente do sol, descascar com os polegares, sentir aquele óleo essencial impregnar os dedos. O gosto doce e azedo ao mesmo tempo, com um fundo de flor. E o cheiro — ah, o cheiro ficava nas mãos o dia inteiro, como se a fruta não quisesse se despedir.
Faz muitos anos que mudei daquele lugar. Dona Emília já descansa na eternidade, e o sítio foi vendido. Hoje outros donos, outra rotina, novas histórias.
De vez em quando, porém, encontro mexericas-cravo no mercado. O cheiro ainda denuncia — atravessa as sacolas, se anuncia. O gosto, confesso, não é mais o mesmo. Talvez a fruta tenha mudado, ou quem mudou fui eu. Mas sempre que as vejo, compro. Porque o que procuro nelas não é apenas o sabor de antes.
É o tempo inteiro que cabia numa tarde de aventuras. É como algodão entre os dedos, o chão batido sob os pés descalços, o balde rangendo no poço. É a esperança de que, em algum lugar, ainda existe um pé de mexerica esperando a gente.
E que, enquanto houver memória, os dias de criança continuam ali — intactos, maduros, prontos para ser colhidos, como aquela mexerica que hoje tem gosto de infância.
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As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
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