Crônicas do Tempo
Nina, a Menina que Lutava Contra os Quatis
Uma história que se iniciou num encontro inesperado em uma sexta-feira.
Publicado em 21/06/2026 às 06:50
Por Emerson Branco
Era a última sexta-feira de agosto do ano passado. Eu já estava atrasado quando a vi, a duas quadras de casa, exatamente no mesmo lugar onde, uma semana antes, uma senhora distraída havia batido no meu carro.
Foi quando a avistei pela janela do carro. À primeira vista, achei que fosse um filhote. Parecia perdida. Percebi que era bem cuidada. Não parecia uma cachorra de rua, ainda mais sendo uma beagle. Fiquei preocupado. Ela poderia ser atropelada; os carros costumam passar rápido naquele trecho. Meu receio aumentou quando, do outro lado da rua, avistei um bando de quatis em volta de uma lixeira, à beira de uma pequena reserva de mata.
Mesmo preocupado, não parei. Já estava atrasado.
— Alguém deve estar procurando.
Continuei dirigindo. Duas quadras adiante, aquela cachorrinha ainda ocupava meus pensamentos.
— E se ela for atropelada? E se acuar os quatis e for atacada por eles?
Os quatis andam em bandos, geralmente liderados por fêmeas. Têm dentes afiados, focinho pontudo e unhas longas, fortes e cortantes. A mordida deles não é brincadeira. E apesar da aparência dócil, reagem agressivamente quando se sentem ameaçados. Não é um bicho brincalhão quando acuado. E aquela gangue já tinha descoberto que o lixo da cidade era mais fácil que caçar na mata. Certamente, protegiam aquele território com unhas e dentes.
Imaginei aquele pequeno ser atropelado ou cercado pela gangue de quatis. Dei meia-volta.
Quando cheguei, ela já latia e avançava na direção deles. O confronto parecia inevitável.
Chamei-a. Ela veio imediatamente. Era dócil, amigável. Aproximou-se e lambeu minha mão. Começaram a passar alguns veículos. Peguei no colo. Olhei na vizinhança. Não havia sinal de pessoa procurando. Até que, caminhando mais um pouco, avistei uma moça que abrira o portão para sair para trabalhar.
Perguntei se era dela, se conhecia os tutores. Falei dos quatis e do receio de ser atropelada. Ela, gentilmente, disse que poderia colocar dentro do seu quintal e anunciar no grupo de WhatsApp do bairro. Fiquei mais tranquilo.
Mas, ao colocá-la dentro do quintal e me despedir, veio a surpresa: ela correu atrás de mim. Tentei uma vez. Duas. Três. Não houve acordo. Toda vez que eu saía, ela encontrava um jeito de me seguir. Agradeci à moça, deixei meu contato caso encontrasse os tutores pelo grupo do bairro e fui embora. Ou pelo menos tentei. A beagle parecia decidida a permanecer comigo.
Algumas presenças chegam sem avisar e, antes que a gente perceba, já encontraram lugar.
Acabei levando-a para casa. Coloquei água, ração e improvisei um canto confortável para ela descansar.
Passei o dia inteiro pensando. Sabia que minha obrigação era encontrar sua família e devolvê-la. Ainda assim, em algum lugar dentro de mim, já começava a torcer para que ela ficasse. Mas tinha que tentar encontrar a família de onde era. Talvez tivesse uma criança, ou mesmo adultos, sentindo a falta dela. Cheguei até a imaginar que, se não encontrasse seus tutores, precisaria escolher um nome para ela. Entre os vários que me vieram à cabeça, um ficou martelando: Nina.
No fim da tarde, recebi uma mensagem. Era a mãe do tutor da cachorrinha.
— Nina é o nome dela.
Sorri sozinho.
Combinei um horário e a devolvi naquela mesma noite. Não foi fácil. Em poucas horas, Nina já havia encontrado um lugar na casa.
No domingo, véspera do meu aniversário, eu estava no quarto da sobreloja quando olhei pela janela. E quem vejo passeando tranquilamente pela rua? Nina. Certamente havia escapado novamente.
Já era perto da hora do almoço. Desci. Chamei Nina, ela veio até mim como se já fôssemos velhos amigos. Levei para casa. Foi então que reparei nos pontos de uma cirurgia recente em sua barriga. Fiquei a tarde toda com ela. Depois entrei em contato e fui até a casa de seus tutores.
Conversando com a senhora que me recebeu, perguntei sobre os pontos. Foi então que conheci a verdadeira história de Nina. Viera de um sítio. Estava para ganhar filhotes quando surgiram complicações. Foi levada às pressas ao veterinário. Quase morreu.
Sobreviveu, mas precisou retirar o útero e nunca mais poderia procriar. Perdeu sua primeira casa.
E havia mais.
A família que a acolhera estava para se mudar para um apartamento. Nina estava prestes a perder mais um lar.
Olhei para ela.
Ela me olhou de volta.
Não precisei pensar.
— Eu fico com ela.
Às vezes, aquilo que procuramos salvar acaba nos salvando também.
Nina é uma das cachorras mais inteligentes que já tive. Outro dia, estava no quarto e escutei um barulho na cozinha. Fui olhar, não vi nada. Só então percebi que a mesa estava toda desarrumada. Ela pulou na cadeira e da cadeira pulou na mesa. "Cachorro ou canguru?", pensei.
Às vezes saio de carro e a levo comigo. Ela adora viajar com a cabeça para fora da janela, farejando o vento como quem tenta descobrir o mundo inteiro de uma só vez. Outro dia fechei o vidro. Instantes depois, ouvi o barulho da janela do carro se abrindo. Descobriu sozinha como apertar o botão e recuperar seu lugar preferido junto ao vento.
A história de Nina me fez lembrar de um livro que li na adolescência: O Alquimista. Nele, um jovem atravessa desertos em busca de um tesouro distante e descobre, ao final da jornada, que aquilo que procurava estava muito mais perto do que imaginava. Lembro de uma palavra que ficou comigo desde então: Maktub. Em árabe, significa: "está escrito".
Alguns encontros não são marcados em agenda. Simplesmente acontecem. E, às vezes, mudam alguma coisa dentro da gente. Nina, a menina que enfrentava quatis como quem defendia um reino, virou parte da família. Aquele dia — o atraso, a lixeira, a reserva, a gangue de quatis — talvez tenha sido apenas o jeito improvável que a vida encontrou para cruzar nossos caminhos.
Às vezes, os grandes acontecimentos costumam se disfarçar de dias comuns.
Os sinais estavam ali. Eu poderia ter seguido em frente. Na verdade, segui. Mas alguma coisa me fez voltar. Uma inquietação difícil de explicar. Uma certeza silenciosa.
Talvez alguns encontros simplesmente estejam destinados a acontecer.
Hoje, Nina tem um novo lar.
Maktub.

As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
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