Crônicas do Tempo
As Aventuras de Belo
Um gato que partiu sem aviso e voltou como se fosse só mais um passeio
Publicado em
12/04/2026 às 07:41
Atualizado em
Por Emerso Branco
Belo não era um gato. Era uma figura.
Na casa da minha amiga, ele tinha a rotina séria dos felinos respeitáveis: comer como se fosse o dono do pedaço, dormir como se tivesse inventado o sono, e circular pela vizinhança com aquela expressão de quem sabe de algo que nós, humanos apressados, jamais vamos entender. Era o xodó da família. Tinha nome, carinho e uma espécie de “documento invisível” que todo bicho bem cuidado carrega: o jeito de quem tem casa.

Até que um dia, em alguma curva do destino, Belo decidiu ampliar os horizontes.
Entrou no carro de uma arquiteta de outro estado que visitava nossa cidade. Não pediu licença. Não avisou. Não miou. Apenas entrou — como se estivesse indo ali na esquina comprar algo e voltasse em cinco minutos.
A arquiteta também não viu.
E assim Belo viajou. Foi para longe com a elegância de quem sempre soube que o mundo é maior do que a calçada em frente. Entrou no carro como quem pega um Uber. Desfrutou da companhia da motorista silenciosa. Aproveitou o clima agradável do ar-condicionado. Nota: 5 estrelas.
Fim da viagem. Cena digna de cinema: a arquiteta suspirou aliviada por estar em casa. Porta abrindo, inclinou-se para pegar a bolsa no banco de trás… e então um par de olhos felinos, calmos, instalados no carro como quem diz:
— Chegamos?
A arquiteta deve ter pensado várias coisas ao mesmo tempo. Algo entre “meu Deus” e “como isso foi acontecer” e “eu não acredito que sequestrei um gato”. Porque não foi roubo. Foi um equívoco com bigodes.
Ela procurou entender. Não sabia de quem era. Mas percebeu o óbvio: Belo era bem cuidado. Tinha aquele brilho de pelo que denuncia tutor atencioso e uma segurança de quem já conhece sofá. Reparou em um pequeno lascado no dente. Supôs que alguém, em algum lugar, chamava por ele ao entardecer — balançando um pote de ração, fazendo aquela voz ridícula que todo humano faz e finge que não faz.
Devolver… como? O gato não carregava RG no pescoço. E a vida, quando quer ser irônica, não dá endereço de volta.
Então ela fez o que pessoas decentes fazem quando o destino estaciona no quintal: acolheu.
Deu lar, cuidado, caminha. Mimou. Deu ao Belo a segunda parte da aventura: a vida de gato expatriado, um refugiado com status de hóspede. Belo até visitou dentista. Com o tempo, talvez ela tenha parado de se sentir culpada e começado a sentir aquilo que chega de mansinho, como pata em piso frio: apego.
Um ano passou. Um ano é muito tempo para humano. Para gato, é uma longa sequência de cochilos com pequenos intervalos de observação filosófica.
E então a arquiteta voltou a Alto Paraná para visitar a obra. Veio com Belo.
Isso, por si só, já diz muita coisa. Há pessoas que carregam malas; há pessoas que carregam consciência. Ela trouxe as duas. E trouxe o gato também, porque no fundo sabia: ele pode até morar longe, mas algumas histórias não conseguem terminar em aberto.
Procurou nas imediações. Perguntou aqui, ali, com aquele cuidado de quem não quer parecer louca dizendo “com licença, vocês por acaso perderam um gato que se meteu no meu carro um ano atrás?”. Talvez tenha pensado: “tomara que não encontre”. Mas foi assim, costurando a cidade com perguntas, que encontrou minha amiga.
Quando ouviu, deve ter sentido o golpe inteiro antes mesmo de ver o felino. Perder um amigo é ver um pedaço da casa sair andando pelo mundo. A gente fica parado na porta. Ela disse que sim: “um gato que sumiu. Tinha um dente lascado. Nosso xodó”. Procuraram por muito tempo. O sumiço virou um tipo de silêncio na família — desses que a gente aprende a conviver, mas nunca gosta. Já havia, como dá, aprendido a conviver com o luto. Quem tem pet sabe.
A arquiteta então mostrou Belo.
E Belo… bem, ele não pensou. Não negociou. Não fez drama. Não ficou em dúvida. Ele correu direto — como se o tempo não tivesse passado — e se enfiou nos braços da minha amiga com a confiança de quem apenas tinha ido dar uma volta. Um grande passeio.
A arquiteta, ao ver aquilo, sorriu do jeito triste de quem finalmente encontra a resposta que procurou, mas perde o rumo. Os olhos ficaram vermelhos. O semblante cedeu. Uma lágrima rolou — discreta, como quem evita transparecer.
Porque ela também amou. Do jeito possível. Foi o acaso transformando o inesperado em companhia.
E aí está a parte mais bonita — e mais dura — do tempo: ele nos empresta coisas como se fossem nossas.
No fim, Belo voltou para casa.
Voltou inteiro — e com uma alma renovada: a de quem fugiu sem fugir, viajou sem querer, foi cuidado sem ser “de alguém” e, quando teve chance, escolheu o caminho antigo como quem escolhe o próprio nome.
Imagino Belo naquela noite, já de volta, deitado no lugar de sempre, olhando para todos com a cara de quem viveu uma odisseia e não vai contar nada.
Porque gatos são assim — espíritos livres. Atravessam o mundo e ainda te fazem sentir que você é que está atrasado.
E talvez seja esse o segredo: perceber que, no meio de uma obra, de uma viagem e de um mal-entendido felino, o tempo estava ali, trabalhando quietinho — costurando coincidências, testando afetos, devolvendo o que era saudade.
E, quando devolveu, trouxe uma lição simples:
Alguns retornos são tão improváveis que parecem milagre.
Mas, às vezes, são só… as aventuras de Belo.

As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí
Fonte: Emerson Branco
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