EntreMentes
O último gole é sempre de alguém
Existe um fenômeno doméstico que a ciência ainda não explicou, o de que ninguém quer terminar aquilo que está quase acabando.
Publicado em 25/10/2026 às 06:50
Por Fernanda Curanishi
Olá leitores e leitoras queridos! Espero do fundo do meu coração que todos estejam bem, ainda que estejamos vivenciando dias complexos.
Para mim, nosso encontro dominical é um espaço de descanso, de intimidade, como uma visita de alguém familiar que vem à nossa casa no final de semana, e colocamos a conversa em dia. Então vou contar a vocês sobre a minha semana. Intensa, como sempre. Aulas, estágios, evento. Nas semanas em que acontecem eventos, trabalhamos dobrado. No fim do primeiro dia, no encerramento do coffee break, sugeri a uma aluna:
—Termine de tomar o refrigerante, só tem um pouquinho. Assim, já jogamos a garrafa fora.
Ela não quis. Eu também estava "cheia". Deixamos a garrafa como estava e ficamos observando: nenhum aluno teve coragem de finalizá-la; antes, os que queriam beber mais pegavam de outras garrafas, mais cheias. Contemplando o nosso experimento social, eu disse a ela:
— As pessoas temem o fim de tudo, inclusive o do refrigerante. A coluna dessa semana tem que ser sobre isso.
Ela riu, talvez pensando ser brincadeira. Mas já vi isso acontecendo outras vezes, e provavelmente você também. Existe um fenômeno doméstico que a ciência ainda não explicou, a filosofia talvez não tenha coragem de enfrentar e a família brasileira conhece muito bem. O de que ninguém quer terminar aquilo que está quase acabando.
Não falo de relacionamentos, empregos ou promessas de Ano-Novo. Refiro-me às coisas pequenas, materiais, perfeitamente substituíveis, mas que, por alguma razão misteriosa, passam a carregar uma responsabilidade moral quando chegam ao fim. O último gole de suco, a última colherada de requeijão, o restinho de xampu, aquele pedaço solitário de bolo que sobreviveu a três dias na geladeira.
O brasileiro, particularmente, desenvolveu uma habilidade extraordinária para conviver com esse quase nada. Somos capazes de manter uma embalagem vazia em circulação por dias, semanas, às vezes meses, como se o simples ato de descartá-la representasse uma derrota pessoal. Não é economia, exatamente. Tampouco é preguiça, embora a preguiça tenha seus méritos nessa história. É uma espécie de pacto silencioso, um acordo coletivo segundo o qual ninguém precisa ser o responsável pelo fim.
Na geladeira, por exemplo, mora o último dedo de leite. Não há leite suficiente para encher um copo, mas há leite demais para jogar fora sem uma pontinha de culpa. Quem abre a geladeira pela manhã avalia o conteúdo da caixinha com a seriedade de um perito criminal. Inclina o recipiente, observa a quantidade, calcula mentalmente se aquilo serve para alguma coisa e, concluindo que não, devolve-o à prateleira. O próximo fará a mesma coisa. E o seguinte também. Assim, o leite permanece ali, refrigerado e sem propósito, esperando que alguém tenha coragem de encerrar sua carreira.
O mesmo acontece com o suco. Há sempre um restinho na jarra, uma porção insuficiente para uma pessoa e perfeitamente adequada para ninguém. Se você servir, alguém perguntará: “Acabou?”. Se não servir, alguém reclamará que deixaram tão pouco que nem dá para tomar. A solução brasileira é deixar o problema para o próximo. E o próximo, naturalmente, somos todos nós.
No pote de requeijão, a situação ganha contornos dramáticos. O conteúdo já não permite passar uma faca no pão, mas ainda é possível raspar as paredes com uma colher, desde que se tenha tempo, paciência e alguma disposição para a arqueologia alimentar. Ninguém termina. Todos sabem que está acabando. Mas terminar, nesse caso, significa assumir a responsabilidade de lavar o pote, jogá-lo fora e admitir que uma era chegou ao fim.
Há também o café. Não o café fresco, perfumado, recém-passado, mas aquele último gole esquecido na garrafa térmica, já morno, com a dignidade de quem perdeu a batalha contra o tempo. A pessoa abre a tampa, olha para dentro e fecha novamente. Talvez outra pessoa queira. Talvez alguém apareça. Talvez o café ainda tenha alguma utilidade misteriosa. E assim ele permanece, até que a garrafa seja lavada por alguém que, além de encerrar o expediente do café, terá de lidar com o ressentimento imaginário de todos os que poderiam ter tomado aquele gole.
No banheiro, a tragédia se repete em outra linguagem. O xampu está no fim, mas ainda há uma quantidade mínima agarrada ao fundo do frasco. Para fazê-lo sair, é preciso virar a embalagem de cabeça para baixo, bater no plástico, sacudir como quem tenta ouvir uma resposta do universo. Quando nada funciona, acrescenta-se um pouco de água, fecha-se a tampa e agita-se o recipiente com a esperança de produzir mais duas lavagens. A essa altura, já não usamos xampu, mas administramos uma crise hídrica em escala doméstica.
O condicionador, por sua vez, é um caso de resistência física. A embalagem parece conter uma substância que desafia as leis da natureza. Apertamos o frasco, torcemos o plástico, enrolamos o tubo, esmagamos as laterais. Se fosse necessário extrair petróleo do fundo do oceano com as próprias mãos, talvez desistíssemos antes. Mas, diante de três gotas de condicionador, somos persistentes. Há algo de brasilidade nessa luta, não vamos jogar algo fora enquanto ainda houver uma possibilidade remota de aproveitar o que sobrou.
E o creme dental? Ah, o creme dental merece um capítulo à parte. Quando o tubo chega ao fim, começa a engenharia. Primeiro, apertamos com os dedos. Depois, passamos a escova sobre a embalagem, como se estivéssemos espremendo uma fruta. Em seguida, dobramos o tubo, enrolamos a ponta e prendemos com um grampo, um pregador ou qualquer instrumento que a civilização tenha colocado ao nosso alcance. O tubo deixa de ser um objeto de higiene e se transforma num projeto de sobrevivência. Tudo isso para produzir uma quantidade de pasta que mal cobre metade das cerdas da escova.
Na cozinha, há ainda o azeite, o detergente, o molho de tomate e os potes de geleia que guardam uma última camada grudada no vidro. Na despensa, um pacote de biscoitos com duas unidades quebradas no fundo. No armário, o perfume que já não alcança o nariz sem uma generosa sequência de borrifadas. Na bolsa, o protetor labial que exige uma precisão cirúrgica para ser aplicado. Se observarmos bem, em cada canto da casa há um pequeno monumento à nossa dificuldade de aceitar o fim.
Penso que o mais curioso seja que não fazemos isso apenas por economia. Se fosse, terminaríamos tudo com eficiência, sem cerimônia, aproveitando cada gota e descartando a embalagem imediatamente. Mas não. O restinho fica. Ele não alimenta, não hidrata, não perfuma, não resolve. Apenas permanece.
É como se, ao terminar alguma coisa, assumíssemos uma culpa que não nos pertence. Quem acabou com o leite? Quem tomou o último suco? Quem usou o restante do xampu? Quem deixou o tubo de creme dental parecendo um acordeão? São perguntas simples, mas capazes de produzir um tribunal doméstico inteiro. O responsável pelo fim precisa, além de encerrar o ciclo, providenciar a reposição. E ninguém quer ser a pessoa que anuncia a escassez.
Talvez seja por isso que o último pedaço de bolo permaneça na geladeira por tanto tempo. Ele já não é exatamente uma sobremesa; é uma negociação. Alguém o observa durante o café da manhã, outro o considera depois do almoço, um terceiro abre a geladeira à noite e fecha a porta sem tocá-lo. O pedaço vai ressecando, perdendo o brilho, endurecendo nas bordas. Mas continua ali, intocado, como se estivesse reservado a um convidado importante que nunca chega.
Há uma delicadeza involuntária nessa nossa incapacidade de terminar as coisas. Deixamos sempre um pouco para alguém. Mesmo quando ninguém quer, mesmo quando não há ninguém esperando, mesmo quando o destinatário provável é apenas o próximo morador da casa que abrirá a geladeira. É uma generosidade torta, uma gentileza que se confunde com a falta de iniciativa. Não queremos ser os últimos. Preferimos deixar uma sobra a assumir que fomos nós que encerramos a festa.
Pode ser que tenhamos aprendido a desconfiar dos finais. Terminar significa admitir que algo acabou e que será preciso começar de novo: comprar outro leite, abrir outro xampu, preparar mais café, buscar outro tubo de pasta. Enquanto resta um pouquinho, podemos fingir que ainda temos. O quase vazio é uma espécie de esperança doméstica, um intervalo entre a necessidade e a providência. O quase vazio nunca acaba.
E assim seguimos, brasileiros que somos, administrando pequenas escassezes com a seriedade de quem negocia tratados internacionais. Deixamos o último gole para o próximo, a última colherada para ninguém, a última gota para o futuro. Guardamos embalagens que já não guardam nada e convivemos com restos que não servem para quase coisa alguma. Ninguém diz nada. Mas, na próxima semana, alguém deixará um restinho de leite na geladeira. E eu, ou você o encontraremos, mas deixaremos para o próximo.
Um abraço afetuoso,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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