EntreMentes
Sobre o que fica quando o tempo passa
Sabem esses cacarecos que a gente engaveta, numa promessa de retomar num futuro não muito distante? Esse levou 15 anos.
Publicado em 19/07/2026 às 06:53
Olá, meus amigos e amigas leitores deste espaço! Tudo bem com vocês? Hoje prometo não falar sobre a Copa, embora, no fundo, eu saiba que ainda assistirei à final. Existe aqui um pezinho na brasilidade nossa de cada dia que me recuso a negar.
Essa semana estive pensando muito sobre um assunto bacana para conversarmos, mas o cotidiano me atravessou feito uma flecha numa simples visita que fiz à minha sogra. Estávamos conversando quando ela abriu uma caixa com velhos pertences, da época em que eu ainda morava no mesmo lar que ela. Objetos meus que, segundo ela, estavam no apartamento ‘ocupando espaço’, e de que eu talvez precisasse.
Primeiro foram capas de almofadas que eu nunca terminei, um jogo de toalhas novinho ainda dentro do pacote. Bolsas de artesanato que eu usava na juventude. Comecei a sentir que aquelas coisas ocupavam muito mais do que um lugar no guarda-roupas, elas ocupavam um tempo imenso que eu insistia em não deixar passar. Sabem esses cacarecos que a gente engaveta, numa promessa de retomar num futuro não muito distante? Esse levou 15 anos.
Eu estava imersa nesse túnel do tempo quando ela tira uma toalha de chá humilde, feita em algodão cru, com bordados rústicos feitos à mão:
- Imaginei que você iria querer essa de volta.
Reconheci na hora. O trabalho feito com esmero. As pontas cuidadosamente desfiadas compondo a barra do bordado. Os ramos de morangos tão vermelhos quanto o meu coração, que começou a ferver. Lembrei da minha avó, que bordou aquele tecido humilde com as mãos calejadas pela vida, e o desejo de que a neta um dia tivesse uma casa, e, com ela, paz. Uma mesa arejada onde repousasse os morangos e o café quente antes de um dia de trabalho. Ela não tinha como saber os caminhos por onde eu passaria, mas eu usara aquela toalha no início da vida de casada sem perceber a ternura que costurava aqueles ramos. Depois, vieram quinze anos de escuridão, dobrada no fundo de uma caixa.
A vida da gente passa e é marcada por pequenas coisas, aparentemente sem importância. Uma xícara lascada, um lenço dobrado com cuidado, uma fotografia amarelada, um perfume esquecido no fundo da gaveta. E há aqueles presentes que, sem que ninguém lhes explique como, deixam de ser apenas matéria para se tornarem morada.
O presente que ganhei da minha avó era apenas um gesto de carinho, desses que as avós distribuem com a naturalidade de quem acredita que amar é um verbo cotidiano. Recebi, agradeci e segui vivendo, sem imaginar que, um dia, aquele objeto deixaria de me lembrar do momento em que foi entregue para me devolver, inteira, a presença de quem o ofereceu.
Hoje, minha avó já não está aqui. Mas basta meus olhos encontrarem aquele presente para que alguma coisa silenciosa aconteça dentro de mim. Não é uma lembrança organizada, como quem abre um álbum de fotografias. É uma visita. O tempo se dobra por um instante. Volto a ouvir sua voz, quase sinto o toque de suas mãos, recordo o jeito como ela pronunciava meu nome, a delicadeza de seus gestos, a segurança que existia simplesmente porque ela existia.
É curioso como a memória escolhe seus esconderijos. Observo atentamente as manchas que o tempo marcou na toalha. Olho atentamente para os ramos, e vejo uma variação do verde das folhas, que ela precisou substituir às pressas para finalizar o trabalho: o verde-oliva acabou. Fomos de verde folha, porque até a falta encontra seus meios quando o amor cuida do outro. Foi assim que compreendi que aquela toalha era única. Em todos os cantos, folhas verde-oliva. Em apenas um deles, folhas verde-bandeira. Quando criança, eu não entendia o constrangimento da minha avó ao me entregar o presente. Hoje penso justamente o contrário: aquelas folhas pareciam recém-brotadas, como se a primavera tivesse encontrado um jeito de florescer onde o plano original não foi possível.
Nesse abrir de caixas, minha memória extraiu uma sensação de acolhimento de um esconderijo que eu esqueci existir. E ali eu me senti muito, mas muito forte. Essa força não mora nas grandes datas, nas festas ou nos acontecimentos extraordinários. Muitas vezes, prefere habitar um objeto esquecido sobre uma estante, um cheiro que atravessa uma rua qualquer, uma música tocando ao acaso no rádio ou o aroma de um bolo que invade a casa sem pedir licença: Sempre se esconde em uma beleza do dia que não conseguimos (ou não queremos) enxergar.
Vivemos acreditando que guardamos as lembranças. Mas penso o contrário. Talvez sejam elas que nos guardem, permanecendo adormecidas até que um detalhe qualquer as desperte. Então chegam sem fazer barulho, sem pedir licença e reorganizam o coração inteiro. E, por alguns segundos, compreendemos que a saudade não é apenas ausência. É também uma forma delicada de permanência, tão delicada quanto a fineza de uma tolha de chá de algodão cru.
Nessa altura eu imagino que você já tenha passado por uma experiência semelhante. Um cheiro de pão quente, uma receita confortante que te remeta à infância, uma música específica que, de surpresa, te lembre de alguém que ficou no passado. Existe uma beleza silenciosa nisso: as pessoas que amamos partem, mas deixam pequenas sementes espalhadas pelo cotidiano. Algumas florescem em objetos. Outras em canções. Outras ainda em receitas repetidas sem medir ingredientes, em expressões que passamos a dizer sem perceber, em gestos herdados que reconhecemos um dia diante do espelho.
A vida segue acumulando compromissos, urgências e distrações. Ainda assim, basta um encontro inesperado com uma dessas pequenas relíquias para entendermos que o amor nunca desaparece por completo. Ele apenas muda de endereço. Eis aí a função mais bonita das lembranças afetivas: lembrar-nos de que ninguém que nos ensinou a amar vai embora por inteiro. Sempre fica alguma coisa, um jeito de olhar o mundo, um hábito, uma palavra, um objeto, um afeto que insiste em sobreviver ao tempo.
E, quando menos esperamos, o cotidiano nos surpreende com um reencontro com a parte de nós que ele nunca levou embora.
Uma semana de bençãos e reflexões para vocês,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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