Matéria Especial
“Eu agradeci a Deus por ter tido câncer”: a história de Leonardo, hoje cantor
Aos 14 anos, ele enfrentou um ano e meio de luta contra a doença. Hoje, aos 31, é pai e vive da música como Romário, da dupla Murilo & Romário.
Publicado em
05/09/2026 às 21:12
Atualizado em
Quem vê Leonardo hoje sobre um palco, microfone nas mãos e a música como profissão, dificilmente imagina o adolescente que, anos atrás, precisou lutar pela própria vida. Atualmente conhecido artisticamente como Romário, da dupla Murilo & Romário, ele tem 31 anos. Mas foi aos 14 que começou uma história que atravessaria hospitais, cirurgias, quimioterapia, medo e fé, e que mudaria para sempre a maneira como ele enxerga a vida.

A história começou em 2010. Segundo o pai, Leonardo foi diagnosticado com um câncer extratesticular, localizado ao lado do testículo. Após a retirada do primeiro tumor, novos exames apontaram um nódulo no pulmão, considerado naquele momento uma metástase. Durante a cirurgia para retirá-lo, porém, os médicos não conseguiram localizá-lo. Para os pais, que naquele momento estavam em oração, o episódio foi vivido e permanece lembrado como um milagre.
Enquanto a cirurgia acontecia, os pais estavam na capela do hospital. Eles contam que chegaram ao local transtornados, mas que, durante a oração, após entregarem seus filhos a Deus, sentiram um toque em seus ombros, que atribuíram a Jesus e, a partir dali, foram tomados por uma tranquilidade inesperada. Para a família, os acontecimentos foram interpretados como sinais de fé em meio a um dos períodos mais difíceis de suas vidas.

Ao todo, foram cerca de um ano e meio entre o início daquela batalha e a notícia da cura. Nesse período, Leonardo enfrentou as cirurgias, a quimioterapia e sucessivas intercorrências provocadas pela baixa imunidade. Ele conta que fazia ciclos de cinco dias de quimioterapia e que, quando surgia alguma infecção, era necessário interromper temporariamente o tratamento até que pudesse se recuperar e retomá-lo. Foram oito internações por infecções ao longo dessa trajetória. Nos períodos em que voltava para casa, o apoio dos amigos também foi importante.

Em uma das fases mais delicadas, o organismo já bastante debilitado passou a rejeitar a alimentação. Leonardo perdeu muito peso e chegou aos 49 quilos, mesmo tendo cerca de 1,80 metro de altura. Foi nesse período que uma profissional do hospital o confrontou diretamente sobre sua vontade de continuar vivendo. A conversa foi dura, mas provocou uma reação. Ele voltou a se esforçar para comer e, hoje, considera aquele momento decisivo para a própria recuperação. “Depois disso eu comecei a fazer a minha parte”, recorda.

Foi em meio ao tratamento que algo que já fazia parte da vida de Leonardo desde criança ganhou ainda mais força: a música. Na casa de apoio onde ficava em Curitiba, ele encontrou um violão e começou a tocar. Uma mãe pediu uma canção, outras pessoas se aproximaram e, pouco a pouco, aquilo virou rotina. Todos os dias, pacientes e familiares passaram a se reunir para cantar, fazer pedidos e pensar nas músicas que Leonardo deveria aprender para o encontro seguinte. Em um ambiente onde as conversas inevitavelmente giravam em torno de hospitais, exames e doenças, a música ajudou a mudar o assunto — e também a forma como Leonardo atravessava aqueles dias.

A história do adolescente que tocava para outras famílias durante o tratamento ganhou repercussão e chegou à Band. Leonardo participou de programas da emissora e, quando perguntado sobre sonhos que gostaria de realizar, contou que queria conhecer o Roupa Nova e ter um violão. Os dois desejos acabaram realizados: ele conheceu os integrantes da banda e também ganhou o instrumento.


Anos depois, Leonardo resume aquela fase com uma frase que pode causar estranhamento à primeira vista: “Eu agradeci a Deus por ter tido câncer.” Isso não significa que ele diminua o sofrimento que viveu. Pelo contrário. Ele descreve o período como extremamente difícil. Ainda assim, afirma que não apagaria a experiência de sua história, porque acredita que ela transformou profundamente sua maneira de enxergar a vida, valorizar as pessoas e enfrentar os problemas.

O futuro trouxe ainda um capítulo que, durante o tratamento, era cercado de incertezas. A família conta que recebeu orientações sobre a possibilidade de a quimioterapia comprometer as chances de Leonardo ter filhos. Hoje, curado e sem necessidade de acompanhamento, ele é pai de Leandro, de 4 anos, uma criança saudável. É parte de uma vida que aquele adolescente ainda tentava imaginar enquanto lutava para chegar ao dia seguinte.

A música, por sua vez, deixou de ser apenas uma companhia nos dias difíceis e tornou-se profissão. Hoje, como Romário, ele vive dos palcos ao lado de Murilo. Mas seu conceito de sucesso não está apenas no tamanho do público, nas músicas tocando ou nas conquistas da carreira. Como compositor, Leonardo diz já ter alcançado aquilo que considera seu maior sucesso: ouvir de pessoas que uma de suas canções mudou — ou até ajudou a salvar — uma vida.

Leonardo e sua família
Talvez seja justamente por isso que ele ainda mantenha tão presente o adolescente que foi. Durante o tratamento, Leonardo conta que costumava se imaginar no futuro. Pensava no homem que gostaria de se tornar e usava aquela imagem como motivação para continuar lutando. Hoje, a direção desse olhar se inverteu. Se antes o menino não queria decepcionar o homem que esperava ser um dia, agora é o adulto que sente que precisa honrar quem lutou para que aquele futuro existisse. “Eu não posso decepcionar aquele cara também, porque aquele cara lutou bastante”, resume.

Leonardo com sua dupla - Murilo e Romário
Fonte: Portal da Cidade Paranavaí
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