Maria Eduarda Oliveira
"Voltar ao cabelo natural foi uma libertação. Precisei me acostumar com uma nova versão minha, que não via há anos". "O sentimento de liberdade é enorme, me sinto muito feliz. Eu me arrependo de não ter feito o processo antes". Essas são falas de Eloíse e Ana Paula, duas paranavaienses que enfrentaram a transição capilar e libertaram os cachos depois de 15 e 10 anos de alisamento, respectivamente.
Nascida em Paranavaí, a jornalista, Eloíse Fernandes, de 31 anos, começou a alisar o cabelo quando era adolescente. Ela conta que sempre pensou em deixar a química de lado, mas não gostava da raiz enrolada do cabelo e acabava alisando. No entanto, essa história mudou com a chegada da pandemia da covid-19.
Para a personal trainer, Ana Paula Rodrigues, de 28 anos, a história não foi muito diferente. Ela também precisou ficar longe dos salões de beleza por causa da pandemia. Essa situação, junto com o exemplo de outras mulheres que passaram pela transição capilar, trouxe ânimo e a levou a dar adeus ao alisamento.
Quebra de padrão
Hoje, pelo meu trabalho, consigo mostrar para as clientes que elas não precisam de um padrão. Transição capilar é uma etapa de descobrimento e de muita dor. Eu já passei por isso. Teve momentos que eu pensava em alisar, mas a vontade de ter minha identidade de volta era maior. O padrão é o que faz a gente feliz!
Elis Lima, @papodenegra
O QUE UM CABELO PRECISA?
Mesmo com a dificuldade em voltar ao natural, Eloíse e Ana garantem que não voltariam atrás. As duas relatam que, apesar do alisamento prometer praticidade, se viam "reféns" dos secadores de cabelo e da chapinha. Os fortes produtos utilizados no procedimento também eram uma preocupação.
A biomédica e terapeuta capilar, Carolina Bilotti, explica que todos os tipos e graus de alisamento causam danos ao cabelo, pois rompem as ligações dos fios para que eles se tornem lisos. Ela ressalta que o aspecto brilhoso que os cabelos apresentam depois do procedimento é resultado de um "filme" criado ao redor dos fios, tornando-os impermeáveis e impedindo a absorção de novos tratamentos.
- química + saúde
O cabelo natural, por incrível que pareça, é mais fácil de cuidar, enquanto o alisamento traz uma falsa praticidade. Os procedimentos permitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) são os alcalinos, no entanto, a maioria dos salões de beleza ainda fazem os ácidos, utilizando produtos que podem causar danos respiratórios, principalmente para os profissionais que trabalham com eles frequentemente.
Carolina Bilotti, @carolbilotti
Em Paranavaí, a procura pelos cuidados específicos para cabelos cacheados e crespos cresce a cada dia. Por isso, a cabeleireira, Elis Lima, resolveu se especializar na área. Ela lembra que nos 25 anos de profissão viu mulheres tentando se encaixar no padrão do cabelo liso. Mas afirma que o cenário mudou nos últimos anos, principalmente com a representatividade na mídia e o investimento de grandes marcas em produtos direcionados às cacheadas.
Tomada de decisão
A última vez que alisei foi em novembro de 2019. Em 2020, quando veio o lockdown, não tinha como ir ao salão de beleza e pensei "é agora!". Eu cortei a parte lisa sozinha em casa. Minha transição capilar durou quatro meses e não foi fácil. Precisei de muita paciência e só vi luz no fim do túnel quando percebi que os cachos estavam aparecendo.
Eloíse Fernandes, @eloisefernandess
As mais novas cacheadas, Eloíse e Ana, hão de concordar com Elis. Ambas garantem que todo o esforço para retomar os cachos valeu a pena. Eloíse comemora em conseguir fazer penteados e manter o cabelo como deseja, independente da opinião dos outros. "Hoje tenho um cabelo saudável e gosto da forma como ele é", finaliza. Já Ana convida as mulheres que pensam na transição capilar a "se darem essa oportunidade", pois "não terão arrependimento". "O sentimento é inexplicável", conclui a cacheada.