EntreMentes
Sobre os nós que vão ficando para trás
Enquanto namoro essa vida online, comecei a pensar na vida que eu deveria ter tido, considerando o “eu” da infância.
Publicado em
03/05/2026 às 06:34
Atualizado em
Olá amigos leitores! Como vocês estão? Espero que passando bem no feriado.
Eu sigo por aqui, trabalhando demais, como sempre. E antes de dormir, também como sempre, fico navegando pelo celular em produtos que eu nunca irei comprar. De decoração chique para uma casa de luxo que não tenho a produtos de beleza para a maquiagem que eu não sei como produzir, existe uma infinidade de promessas para a vida perfeita sendo vendidas na internet.
Enquanto namoro essa vida online, comecei a pensar na vida que eu deveria ter tido, considerando o “eu” da infância. Aquela menina queria muita coisa, inclusive ser astronauta, mas a vida de gente grande toma caminhos que nem sempre coincidem com nossos planos. E chegando perto de fazer mais um ano de vida, eu sou grata pelas coisas que realizei, mas desconfio que aquela menina que ficou lá atrás, na infância dos anos 90, talvez esteja decepcionada.
Se eu encontrasse minha versão de 10 anos hoje, a conversa começaria educada e terminaria com ela claramente reconsiderando as próprias escolhas, inclusive a de crescer. Frente a mim, imagino que o diálogo começaria com um:
— Então você sou eu?
— Tecnicamente, sim.
— Nossa.
Não seria um “nossa” impressionado. Seria um “nossa” administrativo, desses que a gente usa quando não pode falar “eu esperava mais”. Mas, curiosa como toda criança, ela continuaria:
— Mas tia, cadê o resto?
— Que resto?
— O resto da vida incrível que a gente imaginou.
Eu explicaria que, numa cidade de 90 mil habitantes, a vida incrível precisa caber entre a farmácia e a padaria. Ela se estica no meio do expediente, aparece em fragmentos nas histórias alheias que a gente escuta sem querer. Às vezes, estaciona em fila dupla e liga o pisca-alerta.
— Mas tia, você pelo menos faz algo importante?
— Eu sei exatamente qual caixa do mercado anda mais rápido.
— Isso é sobrevivência, não é importância.
Ela perceberia rápido que eu me tornei especialista em coisas inúteis com confiança profissional: prever chuva pela dor que eu sinto no meu ombro que já foi quebrado um dia, calcular quanto tempo dá pra evitar alguém no supermercado sem parecer fuga, e dominar a arte de parecer ocupado mesmo quando na agenda só consta “resolver coisas”.
— Você é feliz?
— Eu sou funcional.
— Tia, isso parece pior. Então isso é crescer?
Ela possivelmente perderia a fé no futuro. Para mim, a eu do outro lado, não é que seja ruim, é só… contínuo. Aqui, os dias não explodem, eles se repetem com pequenas variações, como se alguém estivesse testando versões beta da mesma rotina. Eu olho para o céu noturno e consigo contar as estrelas, tentando ouvi-las enquanto a cidade silencia. Ainda não consegui comprar a casa dos nossos sonhos, mas eu consigo quase tocar o inimaginável do alto de onde estou. Aquele inimaginável que mora nos escondidos do cotidiano sabem? O cheiro do pão quente saindo na padaria, o riso das crianças que brincam na praça, o carro de som que anuncia ofertas no centro. Tudo faz parte de uma vida que não brilha, mas pulsa. É um privilégio notá-la e fazer parte, mas não sei se ela entenderia tudo isso.
— Tia, por que você conhece tanta gente?
— Porque não tem como não conhecer.
— E por que você evita tanta gente?
— Pelo mesmo motivo.
A criança que fui ficaria especialmente intrigada com o fenômeno local de ser observado, conhecido e lembrado sem ser exatamente relevante:
— Aquela pessoa te olhou estranho.
— Ela sempre olha.
— Quem é?
— Não faço ideia. Mas provavelmente sabe onde eu moro, e deve ser amiga de alguém que me conhece.
Numa cidade assim, a privacidade é quase teórica. Você não some, só muda de calçada. Não é esquecida, só muda de contexto conforme frequenta o dia a dia. Mas isso não seria resposta satisfatória, presumo:
— Tia, mas e os seus sonhos?
— Ah, eles aconteceram diferente, foram… otimizados.
— Isso é o que adultos dizem quando desistem?
Eu tentaria argumentar que não é desistir, é ajustar expectativas. Mas isso também soa como desistir, só que com vocabulário melhor. Ainda assim, existe uma espécie de charme involuntário em tudo isso. Uma poesia meio cansada, que aparece no barulho conhecido da rua, na previsibilidade quase reconfortante, no fato de que o mundo nunca te ignora completamente. Na verdade, a vida adulta só não faz questão de te surpreender. E então elaficaria em silêncio por alguns segundos, analisaria essa estranha, como quem decide se vale a pena investir naquele futuro.
— Eu achei que você seria mais…
E compreendendo a visão de mundo daquela criança, mas apegada a visão que eu construí do mundo, eu responderia com um sorriso:
— Eu também, meu amor.
E pronto. Sem drama, sem lição, sem música de fundo. Só esse acordo tácito entre quem esperava demais e quem aprendeu a esperar sentado. No fim, minha versão de 10 anos iria embora com a leve impressão de que crescer é basicamente isso: trocar grandes planos por pequenas competências e chamar isso de maturidade. E eu ficaria ali, defendendo o indefensável com a serenidade de quem já sabe que, quando criamos raízes, encontramos outros fundamentos que nos sustentam.
Hoje, eu ainda olho os sites que vendem produtos que prometem tornar a vida perfeita. Mas já faz meses que eu não compro nada. Não porque que a vida seja perfeita, mas porque, honestamente, ela dificilmente seria melhor do que já é.
Um abraço e o desejo de ótima semana,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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