Crônicas do Tempo
Seu Pedro, Dona Maria e o Arroz que Virou Canção
Quando a vida escolhe alguém para transformar destino em música.
Publicado em
24/05/2026 às 07:59
Atualizado em
Por Emerson Branco
Aquele não foi um sábado comum. Era uma manhã de primavera, de sol que não apressa ninguém. O grupo do trabalho havia sido convidado para uma confraternização num sítio, longe da cidade — um lugar onde a vista descansava os olhos... os pensamentos também.
Cheguei um pouco mais cedo para ajudar nos preparativos do churrasco. A churrasqueira já estava acesa, as bebidas gelando. Na cozinha, outro grupo seguia em ação. Aos poucos, as pessoas foram chegando. Havia expectativa: boa comida, conversa entre amigos, risadas e truco. Venci algumas partidas, naturalmente.
Pouco antes do almoço, porém, chegou um grupo que roubou a cena. Meu amigo Carlos vinha com seu violão a tiracolo. Além do instrumento e de sua bela família, trouxe consigo dois convidados — Seu Pedro e Dona Maria.
Ao desembarcar do carro, Seu Pedro pegou algo que me chamou a atenção: sua companheira — não Dona Maria, a outra — a velha sanfona.
Cresci numa família de tios violeiros. Nos encontros de família, me acostumei a ouvir músicas de raiz. Confesso: não esperava. Num churrasco, a última coisa que a gente imagina encontrar é uma sanfona. Mas ali estava ela — visita que chega sem avisar e já entra trazendo histórias.
Quando os dois se posicionaram, já era possível pressentir o que viria. Por um instante, as vozes diminuíram, os olhos se voltaram para os músicos, e o ambiente foi tomado pela melodia. Um ritmo que envolve. Quando se percebe, a gente já está dentro dele.
Seu Pedro trazia no semblante uma sensação de paz. Dona Maria não ficava atrás: cabelo arrumado, vestido florido – tinha status de artista. Carlos, com seu violão, conduzia o vocal.
Seu Pedro, com sua sanfona — 81 anos nas costas e um acordeom no colo. As mãos, que poderiam estar cansadas, corriam pelos botões com a leveza de quem faz isso desde menino. Quando abriu os braços e puxou o ar, o fole respirou como um pulmão antigo que ainda lembrava o que é viver. Os olhos se fechavam de vez em quando — não para descansar, mas para sentir melhor a música.
O acordeom não era novo. Via-se o tempo nas laterais arranhadas, nos botões gastos, no verniz marcado por décadas. Mas o som que saía dali não tinha idade — era de outra época, de bailes antigos, de serestas que já não se fazem. Um som que ia além dos ouvidos. Tocava a alma.
Aquilo não foi um churrasco. Foi um concerto. Ao sair, ainda pude ver meu amigo cantando, feliz, com seu violão; Dona Maria e seu sorriso; o som da sanfona se misturando ao cheiro da carne assando — e um homem de 81 anos tocando com a alegria de um menino.
Quase dois anos se passaram desde aquele dia. De vez em quando, ainda pergunto por Seu Pedro. Outro dia, conheci um pouco mais da história deles — especialmente de como ele se tornou sanfoneiro. Descendente de italianos, ainda jovem se estabeleceu no noroeste do Paraná.
Querência do Norte, o Pantanal Paranaense, terra de colonos gaúchos, arroz, ilhas e águas doces — cenário perfeito para quem carrega música na alma.
Ali, entre rios e plantações, encontrou no arroz o sustento de cada dia. Os finais de tarde e, principalmente, finais de semana, eram tomados por grupos musicais e, dentre eles, os sanfoneiros.
E foi num desses bailões que tudo aconteceu: seus olhos encontraram uma sanfona. E, naquele instante, ele já não pertencia àquele salão — pertencia ao instrumento.
Seu Pedro, quando teve oportunidade, mais que depressa se aproximou. Junto ao gaiteiro negociou. Não tinha dinheiro, mas tinha a certeza absurda — e necessária — de que não voltaria de mãos vazias.
Foi assim que o arroz começou a virar canção.
Imagino que naquela noite tenha ido para casa como quem ganha um troféu. Sorriso largo. Olhou, dedilhou o instrumento.
Mas e agora? Ele não sabia tocar.
O acordeom — também conhecido como sanfona, gaita, fole, cordeona — nunca foi apenas um instrumento. São muitos nomes, tantos quantos os jeitos de tocar.
O piano entrega o som sem esforço visível. O acordeom, não — ele mostra o trabalho. O fole que arfa é o pulmão do músico. Quem toca abraça o instrumento; não é uma relação distante, é um abraço sonoro. O sanfoneiro embala a música no colo.
No violão, basta apertar uma corda e a nota já nasce. No acordeom, não — ele exige mais. As duas mãos precisam se entender: uma conduz a melodia, a outra sustenta os baixos. O fole pede controle — a hora de puxar, a de soltar, a medida de cada movimento. E ainda há o ouvido, que precisa reconhecer a nota, e os dedos, que devem lembrar, sem olhar, onde estão os botões. Tudo ao mesmo tempo.
Para quem nunca fez uma aula de música na vida, aprender sozinho um instrumento tão complexo — sem professor, sem método, sem ninguém para corrigir os erros — não é apenas um feito. É genial.
Imagino a cena: Seu Pedro, aos poucos, tentando, errando, tentando de novo. Até que os dedos começam a lembrar onde estão os botões. Até que o fole começa a obedecer.
Ele não aprendeu o instrumento — ele o descobriu. E, com ele, as mais belas melodias.
Hoje ele sabe: não era o acaso. Era destino.
Nessa jornada, ele conheceu Dona Maria — uma parceria que já dura mais de 50 anos. Ela também é artista nata: escreve, canta, dança — como quem nasceu com música nos pulsos.
Onde moram, Alto Paraná, criam animais, plantam, produzem — com uma vitalidade de fazer inveja. Ainda encontram tempo e disposição para se apresentar, tocar em festas, em projetos, em ONGs — e até, como naquele dia, transformar um churrasco inteiro.
Não são apenas artistas. São pessoas admiráveis que, apesar das dificuldades de uma vida simples, seguem, aos mais de 80 anos, vivendo com intensidade — com alegria, com amor, com dedicação ao que fazem.
Cinquenta anos juntos não são apenas tempo que passou. É tempo que se acumulou, terra fértil... onde a vida insiste em florescer.
Assim, nas coisas simples — num encontro inesperado, num acordeom que chegou e nunca mais partiu, numa canção sem pretensão — a vida fez o que sabe fazer melhor: mudou o rumo.
Permaneceu aquilo que toca fundo e atravessa o tempo.
Surgiu o sopro que vira melodia, a história que se assenta na memória.
Veio música.
Veio história.
E veio o destino.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
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