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Pequeno dicionário da maternidade (edição 2026)
Dizem que não existe manual para ser mãe. Discordo. Em 2026, existe sim, só não foi publicado em livro.
Publicado em
10/05/2026 às 07:13
Atualizado em
Por Fernanda Curanishi
Olá leitores e leitoras, tudo bem com vocês? A coluna de hoje não poderia falar de outra coisa que não fossem delas: as mães. Então leitores, leiam esse texto com vossas mães em seu coração: garanto que vocês a verão nessas linhas. E leitoras: pensem nas mães que tiveram, mas também nas mães que se tornaram. Depois me digam em quantas categorias vocês se viram aqui.
Dizem que não existe manual para ser mãe. Discordo. Em 2026, existe sim, só não foi publicado em livro. Ele circula em áudios de WhatsApp, vídeos curtos, conselhos não solicitados no portão da escola, e naquela troca silenciosa de olhares entre mulheres que claramente não dormem há dias. Como toda boa obra coletiva, ele é confuso, contraditório e absolutamente genial.
Apresento, portanto, um pequeno dicionário da maternidade contemporânea:
Mãe do áudio de 3 minutos: é aquela capaz de começar com um “deixa eu te falar, rapidinho”, e entregar uma narrativa completa, com contexto, clímax e desfecho. Ela resolve problemas, organiza festas e dá conselhos, enquanto mexe uma panela e grava áudios que mais parecem um podcast.
Antítese: pode se perder no tempo, mas nunca se perde dos filhos, porque, no fim, “mãe é mãe”.
Mãe fitness (ou do suco verde): é a mãe que acredita na chia, na aveia e no poder de acordar antes do sol. Tem marmitas organizadas para cada dia da semana, e uma garrafa térmica que custa mais caro que o material escolar. Faz academia desde sempre, e também incentiva seus filhos a se exercitarem, o que é muito bom e saudável.
Antítese: já foi vista jantando resto de nugget frio, em pé, na cozinha, às 23h, afinal, “em casa de mãe, quem come por último é ela”.
Mãe tecnológica: essa é bem contemporânea, resolve tudo por aplicativo: agenda médica, tarefa escolar, compra do mês. Tem senha para tudo, e sabe exatamente onde está cada boleto. Agenda os pagamentos em débito automático e não perde nenhum prazo, pois para quê pagar multas desnecessárias?
Antítese: ainda chama o filho pelo nome completo, em alto e bom som, porque “certas tecnologias são insubstituíveis”.
Mãe raiz: é a mãe que todos nós conhecemos, seja em nossa família ou em outras. Para essa mãe, “Na minha época” é tanto argumento quanto ameaça. Essa mãe sobreviveu sem Google, descobria truques para driblar febre no dia a dia, copiava as receitas da televisão, vivia sem delivery e, segundo ela, havia na vida muito mais respeito.
Antítese: pede ajuda quando trava o celular, e reclama da má vontade dos filhos quando eles não conseguem, porque “quem manda, manda”.
Mãe coruja profissional: essa é pura ternura! Orgulha-se de tudo: do desenho torto, da apresentação esquecida, do gol contra. Para ela, tudo é talento em desenvolvimento, dignos de torcida e de incentivo.
Antítese: cinco minutos depois, está dizendo “faz de novo, com capricho”. Porque “quem ama, cuida”.
Mãe hypada na estética: ela tem uma rotina impecável de autocuidado, agenda cheia, procedimentos em dia. Fala com naturalidade sobre skincare, retoques e, mais recentemente, sobre Mounjaro como quem comenta o clima. Vive pronta para uma foto, sempre alinhada com o feed.
Antítese: entre um compromisso e outro, também está ali, resolvendo crise, procurando meia perdida e ouvindo histórias intermináveis. Porque, no fim, nenhuma estética dá conta de esconder o básico: mãe também vive no “improviso”.
Mãe que faz caber (ou mãe de milagres cotidianos): essa é a mãe que mora no meu coração: especialista em esticar o tempo, o dinheiro e a própria energia. Sabe exatamente quanto falta, quanto dá e quanto precisa dar. E, ainda assim, faz caber. Muitas vezes, faz tudo isso sozinha. É quem resolve, decide, sustenta, acolhe e segue. Tenho certeza de que você conhece alguma mãe assim.
Antítese: diz que “não foi nada”, como se não fosse tudo. E, no fim do dia, quando a casa silencia, é ali que o cansaço finalmente aparece, mas também a certeza de que, mais uma vez, deu, porque “mãe sempre dá um jeito”.
Mãe cansada (patrimônio universal): essa não é um tipo. É um estado. Transita por todas as categorias com a habilidade de quem já aceitou que o sono virou lembrança distante. Funciona à base de café requentado e pequenos milagres diários.
Antítese: diz que está tudo sob controle, e, de algum jeito misterioso, está mesmo. Porque “quem tem filho pequeno não dorme”. E nem quem tem filho grande, muitas vezes.
No fim, mudam os métodos, os aplicativos, os discursos e até os filtros das fotos. Algumas mães contam calorias, outras contam histórias; umas organizam planilhas, outras organizam afetos. Há quem corra antes das seis e há quem sobreviva até as seis. Há quem divida tarefas, e há quem, todos os dias, faça caber sozinha o que parecia impossível.
Mas há algo que permanece intacto em todas elas: essa capacidade quase inexplicável de estar exausta e, ainda assim, inteira. De reclamar e, no minuto seguinte, defender. De querer silêncio, e estranhar quando ele chega.
Talvez não exista, de fato, um dicionário da maternidade. Ou talvez exista, e todas as definições levem, no fundo, à mesma palavra: amor. Ou cuidado.
Independente de qual delas você conheça ou seja, desejo a todos um feliz Dia das Mães.
Um abraço fraterno,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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