Crônicas do Tempo
O dia em que minha mãe fugiu de casa
Uma fuga inesperada e um silêncio que demorou a voltar
Publicado em
10/05/2026 às 06:52
Atualizado em
Emerson Branco
Entre as primeiras lembranças da infância, existem algumas “fake news” familiares:
“Pode vir aqui, vamos só conversar.”
“Não se preocupe, o Merthiolate não vai arder.”
“Na volta a gente compra.” Essa é clássica.
Mas nenhuma lembrança é tão vívida quanto o dia em que minha mãe fugiu de casa.
Naquele tempo, morávamos em Quatro Marcos, um pequeno distrito de Mirador. Eu não havia completado cinco anos. Tinha apenas uma irmã — meus outros irmãos ainda não haviam chegado. Eram promessa de futuro. E, mesmo assim, essa memória permanece nítida, como se tivesse sido guardada em uma fotografia.
Era uma tarde depois do almoço, dessas em que o calor parece pedir silêncio. Minha mãe queria apenas dormir um pouco. Ela sempre com aquele jeito de quem tentava descansar enquanto resolvia o mundo. Eu e minha irmã, porém, tínhamos outros planos. Entre risadas, corridas e provocações, ignorávamos todas as tentativas — cada vez mais firmes — de instaurar a lei do silêncio.
Até que veio a ameaça:
— Vou fugir de casa.
Naturalmente, não levamos a sério. Crianças raramente acreditam que o mundo pode mudar de repente. Vivem.
Mas, dessa vez, mudou.
Minha mãe saiu correndo para o quintal dizendo que iria embora. O susto foi imediato. Corremos atrás, desesperados. Depois da maratona improvisada e do cansaço, acabamos adormecendo no sofá, vencidos pelo próprio alvoroço.
Quando acordamos, a casa estava silenciosa demais. Dava para ouvir o tic-tac do relógio. Chamamos. Nada.
Olhamos nos cômodos e esconderijos pensando que fosse uma brincadeira de esconde-esconde. Não encontramos ninguém.
Fomos ao quintal. Deserto.
Os olhos marejaram, o coração disparou.
A conclusão era óbvia para duas crianças travessas: ela tinha ido embora porque não nos comportamos. A culpa era nossa. Sempre é — quando se tem cinco anos.
O choro alto chamou a atenção do quarteirão. Mostramos o quanto pulmões infantis podem ser potentes. Aqueles poucos instantes a sós pareceram uma eternidade. Nosso tio, vizinho de porta, veio nos acudir. Contamos, entre soluços, que nossa mãe tinha fugido. Ele apenas sorriu — um sorriso que, na época, pareceu incompreensível.
Pouco depois, ela apareceu. Tinha ido à casa da vizinha, a poucos metros dali.
Naquele dia descobrimos que mães não fogem assim tão fácil.
Não me recordo exatamente. Mas gosto de pensar que, nas tardes seguintes, passamos a dormir ao lado dela.
No ano passado, vivi algo raro. Estava na casa dos meus pais — sempre cheia de filhos, netos e vozes cruzadas — quando, por um acaso improvável, ficamos apenas nós dois. Eu e minha mãe. Sozinhos.
Sem celulares.
Sem tarefas.
Sem interrupções.
Sentamos, tomamos café e conversamos por mais de duas horas. Sobre o cotidiano, sobre a vida, sobre nada em especial. As pequenas xícaras se enchiam, esvaziavam e esfriavam. Percebi, naquele instante, que há muito não nos dávamos esse tempo.
O tempo que, geralmente, custa a passar, foi-se embora. Só ali, naquele momento simples, entendi que, às vezes, o extraordinário é apenas o comum que tivemos a sorte de perceber.
É a simplicidade que, muitas vezes, nos marca profundamente — e também a que mais deixamos escapar.
E, de repente, ali estava o silêncio. O mesmo que, anos antes, eu insistia em não ouvir.
Então lembrei do episódio da fuga e perguntei se ela se recordava.
Disse que não. Mas riu.
Rimos juntos do dia em que minha mãe fugiu de casa.
E naquele sorriso, estava tudo.

As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
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