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Crônicas do Tempo

“Don’t You” e o Corcel Azul

Uma canção dos anos 1980, um carro antigo e memórias que o tempo não levou

Publicado em 20/02/2026 às 07:01
Atualizado em

“Don’t You” e o Corcel Azul (Foto: Reprodução)

Por Emerson Branco

O ano era 1985. Eu tinha apenas seis anos, mas as lembranças daquela época permanecem vívidas em mim, como fotografias desbotadas pelo tempo que ainda guardam suas cores essenciais. Nossa casa era um refúgio simples de madeira, perdida nos confins de uma fazenda em Cianorte, no Paraná. Sem energia elétrica e água encanada, a vida se desenrolava em tons de rusticidade – meu pai trabalhando de sol a sol, minha mãe lavando roupas no córrego próximo, as noites iluminadas por lamparinas de querosene que irritavam nossos narizes, o silêncio só quebrado pelo coaxar dos sapos, pelo canto dos grilos e pelo rádio à pilha que era nosso portal para o mundo.

Quando meu pai trouxe para casa aquela TV preto e branco de 14 polegadas, movida a bateria, parecia um milagre tecnológico - ainda que seu brilho fosse tão passageiro quanto os raios de sol que entravam pelas frestas da casa. O sinal ruim, às vezes, ficava melhor, especialmente com aplicação de tecnologia de ponta: pedaço de bombril preso na antena. Mas foi no velho radinho que descobri, entre as canções que embalavam nossos dias, os primeiros acordes de “Don't You (Forget About Me)” do Simple Minds. A música chegou até mim como um sussurro do universo, uma mensagem cifrada que só entenderia anos depois.

O avanço da obra do curral que meu pai estava construindo trouxe outra revolução: nosso primeiro carro, um Corcel azul de 1975 que cheirava a liberdade e gasolina, mais gasolina, na verdade. Nele, descobrimos o mundo além da fazenda - as estradas de terra batida que levavam à cidade, os vizinhos distantes, e principalmente, a casa dos meus avós no distrito de Bernadelli.

O rádio com toca-fitas do Corcel tornou-se nossa máquina do tempo particular, onde músicas como “Don't Stop Believin”, “Under Pressure”, “Forever Young” e, claro, “Don't You” criavam a trilha sonora de nossas aventuras. O ritual era sagrado: ao entrar no Corcel, meu pai já colocava a fita no rádio, e as primeiras notas musicais se misturavam ao ronco do motor. Durante os 70 minutos de viagem, éramos passageiros de uma jornada dupla - pelas estradas de terra e pelas paisagens sonoras dos anos 1980.

Há uma poesia cruel e bela no modo como a música congela instantes. “Don't You”, com seus sintetizadores melancólicos e letras sobre conexões perdidas, tornou-se o fio invisível que costura essas memórias. Hoje, quando a ouço, inevitavelmente sou transportado de volta ao banco traseiro do Corcel, com o vento entrando pelas janelas semiabertas, misturando o cheiro da terra molhada ao som das teclas eletrônicas. Lembro de estar no carro com minha irmã, do calor dos assentos de plástico, da poeira que dançava nos raios de sol, das árvores que pareciam se mover ao longe no horizonte, da ansiedade pela chegada e da sensação de que aquele momento, aparentemente comum, estava sendo gravado em minha alma.

Hoje sei que o verdadeiro tesouro não era o carro, nem o rádio, mas aquele instante suspenso no tempo - quando éramos apenas nós, a estrada e a música, todos movendo-se no mesmo compasso, como notas de uma canção, era como se a vida tivesse composto especialmente para nós. Os anos se passaram.

O Corcel azul virou história, a fazenda ficou para trás, mas a música e as lembranças permanecem - um lembrete de que mesmo na simplicidade mais crua há beleza a ser encontrada. E que, às vezes, são justamente as coisas que parecem simples - uma canção, um carro velho, as visitas, durante a infância, à casa dos avós, um instante roubado ao tempo - que mais resistem ao esquecimento, transformando-se em poesia pura que carregamos para sempre dentro de nós.

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Fonte: Emerson Branco

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