Crônicas do Tempo
Foi na Fazenda Paixão
Uma fazenda, um estilo de vida e as memórias que o tempo não apagou.
Publicado em 19/07/2026 às 06:51
Minha família se mudou de Quatro Marcos para a fazenda Paixão. Foi a primeira fazenda em que morei. Ainda de cima do caminhão, eu e minha irmã chamávamos pelos nossos avós, que haviam morado ali antes. Naquele lugar ganhei um presente incomum: um pequeno carneiro que, depois de crescido, corria atrás das pessoas distribuindo cabeçadas como se aquilo fosse sua maior diversão.
De uma hora para outra, o carneiro sumiu. Perguntei ao meu pai para onde ele tinha ido. Primeiro ele desconversou. Depois disse que o vendera para um vizinho de um sítio próximo. Até hoje desconfio de que ele nunca chegou lá.
Foi na fazenda Paixão que vivi meus primeiros amanheceres na roça. Meu pai e meu tio tiravam leite das vacas antes mesmo do sol aparecer. Eu levantava cedo, pegava minha canequinha com chocolate em pó e ia para a mangueira. Meu pai tirava o leite direto na caneca, e eu tomava ainda quentinho. Era uma versão adaptada do famoso café Camargo: leite direto da vaca para a caneca. Hoje já não se faz assim, mas, naquele tempo, era a coisa mais natural do mundo.
Depois de tomar o leite com chocolate, eu subia na cerca de tábuas e ficava ali, vendo o dia nascer. Barriga cheia, silêncio por toda parte e uma paz que só muitos anos depois aprendi a reconhecer. Às vezes, na volta para casa, levava um susto com alguma vaca que acabara de criar. Mas eu já sabia o caminho da fuga: passava por baixo da cerca mais rápido do que ela conseguia chegar.
Eu tinha seis anos, minha irmã quatro, e minha mãe já esperava minha outra irmã. O quintal era o nosso mundo. A casa, antiga e de madeira, tinha vários quartos e um escritório que o proprietário usava quando aparecia por lá. Uma cerca separava o quintal do pasto e da grande horta. Havia porcos, galinhas e espaço de sobra para a imaginação.
Corríamos soltos o dia inteiro. Brinquedos comprados eram raros, mas a imaginação nunca conheceu escassez. Cabos de vassoura viravam cavalos, as galinhas eram a boiada que precisávamos conduzir, e o paiol cheio de espigas se transformava na montanha que conquistávamos todos os dias — apesar da coceira que vinha depois.
Sempre que lembro daqueles dias, me vem à cabeça a música “Era Uma Vez”, de Kell Smith. Há um trecho que parece ter sido escrito para aquela infância: "O dia em que todo dia era bom... E acabava tudo em lanche, um banho quente e talvez um arranhão”.
Cobras também faziam parte da rotina da fazenda. Volta e meia apareciam na varanda de casa. Um dia, imitando os adultos, peguei um cabo de vassoura e resolvi enfrentar uma delas. Hoje penso que meu anjo da guarda trabalhou em dobro naquela manhã.
Foi na fazenda Paixão que meu pai comprou sua primeira moto: uma Honda branca. Para nós, ela era o passaporte para Quatro Marcos. Num desses passeios, fui na garupa, agarrado nele feito carrapato. No meio do carreador de chão batido, ele parou a moto, olhou para trás e perguntou: "Tudo bem? Quer ir mais depressa ou mais devagar?" A resposta de um menino de seis anos não poderia ser outra: "rápido."
Moramos ali por pouco mais de um ano. Meu pai tinha alma nômade, e mudar de lugar fazia parte da nossa história. Ainda assim, bastou aquele breve tempo para a fazenda Paixão se tornar um dos lugares mais permanentes da minha infância.
Depois vieram outras fazendas, outras casas e outras histórias. Anos mais tarde, já adolescente, voltei à fazenda Paixão com meu pai, que faria alguns trabalhos de carpintaria por lá. Foi como reencontrar um pedaço da infância. Tempos depois, soube que a velha casa — a mesma onde meus avós haviam morado e onde vivemos depois deles — fora destruída por um incêndio. Fiquei triste. Mas, como acontece com tantas coisas na vida, a casa se foi, e as lembranças permaneceram.
Mais de quarenta anos se passaram desde que deixei a fazenda Paixão. Ainda assim, basta fechar os olhos para voltar àquela manhã: o leite ainda quente caindo na caneca, o dia nascendo por trás da cerca, minha irmã correndo pelo quintal e meu pai esperando minha resposta antes de acelerar a velha Honda branca.
Nunca mais voltei àquele lugar, mas o menino que descobriu a felicidade nas coisas simples, de algum jeito, ainda mora lá. Algumas fazendas ficam para trás. Outras a gente continua carregando por toda a vida.
Acesse o link e aumente o som:
https://www.youtube.com/watch?v=xJNKT9HAXRc&list=RDxJNKT9HAXRc&start_radio=1

As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
Notícias relacionadas
VICE CITY TÁ ABSURDA!
19/07/2026 às 06:52
Como o “garimpeiro” Aguinaldo Souza coloca Paranavaí no topo do Atletismo
19/07/2026 às 06:50
Academia de Letras de Paranavaí abre inscrições para concurso literário
18/07/2026 às 10:10
Praça dos Pioneiros recebe edição do SambaNejo na Praça neste domingo (19)
18/07/2026 às 09:29
Miniaturas, moedas e peças raras vão movimentar encontro de colecionadores em Paranavaí
17/07/2026 às 11:33
Feira Livre do Oásis movimenta o Noroestão nesta sexta-feira em Paranavaí
17/07/2026 às 10:12