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Crônicas do Tempo

A Menina e o Fusca: Colecionando Paisagens

Lembranças de estradas de chão, vento e um fusquinha branco.

Publicado em 07/06/2026 às 07:15

A Menina e o Fusca: Colecionando Paisagens (Foto: Reprodução)

Por Emerson Branco

Um dia desses estava conversando com uma amiga sobre memórias da infância. Lembrávamos como as coisas eram mais simples. Não havia redes sociais. Não havia internet. Não havia celulares. O tempo passava diferente.

Nossas lembranças tinham pontos em comum, como aquelas colchas feitas pelas avós, extremamente pesadas, que nos dias de frio intenso eram jogadas sobre nós. Depois daquilo, qualquer tentativa de se mexer exigia esforço.

Se essas colchas fossem colocadas em anúncios para venda, seria algo do tipo: “compre aqui sua colcha de retalhos — revestimento de tecido e preenchimento de tijolos”.

Falou um pouco da história de sua família, de como seu bisavô veio parar na região — descendentes de alemães, chegou a participar da Primeira Grande Guerra.

Se estabeleceu por aqui, fundou uma fábrica de camas que passou de geração em geração até chegar ao pai dela. Foi nessa fábrica que ela e o irmão passaram boa parte de sua adolescência.

Desde cedo os dois ajudavam o pai no escritório enquanto a mãe trabalhava como professora municipal. Nessa época a família teve um grande xodó: um fusquinha branco.

Ao falar, os olhos dela brilhavam enquanto revivia aquelas histórias, trazendo de volta imagens que permanecem vívidas.

De manhã aulas. À tarde, ela e o irmão sempre estavam no escritório, cada um com seu tamanho, sua idade, sua tarefa.

De vez em quando, o pai pedia que fossem aos sítios da região com o fusquinha. É claro que os dois abriam aquele sorriso e partiam — o resto do mundo podia esperar.

Aprenderam a dirigir cedo. Desfrutavam dos cenários que se descortinavam nas estradas de chão batido pelos sítios da região. A poeira subia, e paisagens entravam pelas janelas abertas e nunca mais saíam.

A vida acontecia num outro ritmo, o mesmo da poeira que levantava e demorava a pousar. Não havia sobra de tudo, mas havia o essencial: tempo, vento no rosto, uma caixa de marchas para trocar, um irmão rindo do lado.

Aqueles passeios acabaram se tornando uma coleção de paisagens.

Depois da aventura, embora desfrutassem do fusquinha branco pela região, tinham que cuidar e mantê-lo limpo. A tia não perdoava: vistoriava com rigor militar e, se o fusca não estivesse impecável, eles tinham que lavar de novo.

Não era uma lavagem qualquer — a tia chegou a fazer um furo no assoalho para a água escoar.

Um dia, depois da aula, minha amiga já estava no escritório quando, de repente, levantou um poeirão. Era um vendaval — praticamente um minitornado.

Ela olhou pela janela e viu que o vidro do fusca estava aberto. Já ia saindo pela porta para fechá-lo quando a secretária a segurou pelo braço:

— Não sai, não.

Alguns segundos depois, só escutaram o barulho e se encolheram. O vento arrancou vigas e telhas como quem arranca folhas secas de uma árvore. Tudo desabou sobre o fusca.

Naquela tarde, o vento não levou apenas telhas. Levou silenciosamente um pedaço da infância.

Por pouco, ela foi salva. O velho companheiro, o fusquinha no qual aprendeu a dirigir, foi severamente avariado.

Mais tarde o pai o consertou, mas acabaram vendendo.

O tempo passou, anos depois a fábrica pegou fogo, sendo praticamente destruída por completo. O que era indústria virou ruína, aquele prédio, motivo de orgulho por gerações da família, virou cinza fria...

Foi reconstruído depois, mas hoje a fábrica já não existe mais, o prédio que resistia até poucos dias atrás foi desmanchado.

Com o tempo, ela também teve de se despedir dos pais. E como cada um vive a sua história, a secretária e ela perderam o contato.

Mas ficou a gratidão por aquele braço estendido na hora certa, suspenso no tempo, impedindo uma menina de sair pela porta, salvando sua vida.

O vento feriu o carro. O fogo consumiu a fábrica. Os pais partiram.

Mas certas coisas não acabam quando desaparecem.

Porque nem o vento, nem o fogo, nem o tempo levaram aquilo que permaneceu guardado dentro dela.

E, em algum lugar onde o tempo já não alcança, a menina e o irmão continuam dentro do velho fusquinha branco, atravessando a poeira das estradas do interior, rindo sem imaginar que aquele instante nunca terminaria.

E talvez seja isso a memória — o que permanece viajando dentro de nós, mesmo depois que tudo partiu.



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