EntreMentes
Sobre a arte de encontrar assunto
Uma decisão foi tomada: escreverei sobre qualquer coisa.
Publicado em 21/06/2026 às 06:52
Olá amigos e amigas queridos! Espero que tenham passado bem por uma semana fria, que apresenta aquele inverno que se anuncia gélido logo-logo.
Confesso que essa semana eu estive buscando um assunto para nossa conversa semanal. Transitei em espaços públicos, conversei cotidianamente com pessoas novas, busquei notícias da copa… mas nada chamou minha atenção, nenhum desses assuntos me pareceu interessante o suficiente para trazer em nosso encontro semanal.
Foi aí que eu pensei: vou escrever uma coluna sobre qualquer coisa. Não aquela música estranha de Caetano Veloso, e nem no descompromisso que o termo pode sugerir. Se pensarmos profundamente, “qualquer coisa” é uma das expressões mais vastas da língua portuguesa: ela contém o insignificante e o essencial, o acaso e o destino, a folha que cai na calçada e a lembrança que muda uma vida. Uma decisão foi tomada: escreverei sobre qualquer coisa.
Parece pouco. Talvez até uma renúncia elegante ao dever de escolher um assunto. Afinal, numa cidade de cem mil habitantes, onde todos sabem mais ou menos o que aconteceu, quem chegou, quem partiu, quem ganhou, quem perdeu, o que ainda haveria para dizer? Nada me sobra além do qualquer coisa que ainda não aprendemos a enxergar.
Na gramática, o qual-quer nos mostra milhares de opções: uma delas há de se querer, mas qual? Vejam quantas possibilidades de algo que pode acontecer, ou quantas escolhas podemos fazer durante uma vida: qual memória, qual saudade, qual época você viveu e escolhe para lembrar? O qualquer, nesse sentido, não é descuido ou indiferença; é uma escolha cuidadosamente tecida para que os dias não sejam tão rotineiros.
Se juntarmos ao nosso rico ‘qualquer’ a expressão coisa (tudo o que existe ou que pode ter existência, de acordo com o dicionário), então o afeto do termo se eleva exponencialmente: dentre tantas coisas do mundo, tantas ofertas e expectativas, entre milhares de possibilidades de tudo aquilo que existe no mundo, ao escolher qualquer coisa, tocamos o espaço único de uma oportunidade só, diferente de todas as outras.
Complexo falar de qualquer coisa, não é? Mas a expressão merece uma segunda escuta, vamos explicar. “Qualquer coisa” é como chamamos aquilo que ainda não aprendemos a enxergar. É a sombra de uma árvore na tarde vazia: todas as árvores têm sombras, mas, de repente, reparamos em uma sombra específica por conta de seu formato, ou do frescor que ela proporciona no meio de uma tarde ensolarada. Então essa sombra já não é mais qualquer: é o refúgio de alguém que escolheu reparar naquela coisa.
O mesmo qualquer se aplica em outras circunstâncias: é o cachorro que espera o dono na porta da padaria. É a conversa que escapa pela janela de um apartamento. É a bicicleta encostada num muro. É a nuvem que passa sem pedir licença. Chamamos de qualquer coisa aquilo que, à primeira vista, não parece importante. Então olhamos uma segunda vez, mais atentos, e percebemos o presente que há ao enxergar invés de ver.
Os grandes acontecimentos ocupam manchetes, mas as pequenas coisas ocupam a existência. Passamos muito mais tempo entre gestos discretos do que entre momentos memoráveis. Vivemos cercados por detalhes que raramente recebem nome, mas que sustentam nossos dias como vigas invisíveis. E demoramos a perceber que a vida é feita da mesma matéria dos crepúsculos: não do instante em que o sol desaparece, mas da lenta transformação da luz sobre as coisas.
E eu acredito que a poesia comece aí. Não na vida que grita, mas naquilo que a existência sussurra. Em todos os ‘qualquer’ momentos que acontecem tantas vezes, que os deixamos de perceber.
Sabe aqueles dias em que perguntamos “o que vamos jantar hoje?”, e o outro responde “ah, qualquer coisa”? Não é que não nos importemos com as opções de alimentos. Pelo contrário. É que existe uma intimidade tão serena entre duas pessoas que, por alguns instantes, a refeição deixa de ser o centro da questão. Diante da companhia de quem amamos (seja esposa, marido, pai, mãe, filho ou amigo), a infinidade de pratos possíveis encolhe até caber num detalhe. O que realmente alimenta aquele momento não está sobre a mesa, mas ao redor dela.
O “qualquer coisa”, nesse caso, não é pobreza de escolha; é riqueza de presença. É a confiança de saber que, entre todas as possibilidades do mundo, o essencial já está ali. A comida importa, mas importa menos. O lugar importa, mas também importa menos. O cardápio é apenas a moldura de algo maior: a rara experiência de dividir o tempo com alguém cuja presença torna as circunstâncias quase irrelevantes. Talvez seja por isso que a expressão carregue uma beleza escondida. Quando dizemos “qualquer coisa”, às vezes estamos dizendo, sem perceber: desde que seja com você.
Por isso, caros amigos, quando eu disser que escreverei sobre qualquer coisa, não interpretem como falta de assunto: entendamcomo liberdade. A liberdade de encontrar significado onde ninguém estava procurando. A liberdade de prestar atenção ao que passa despercebido. A liberdade de descobrir que o extraordinário, muitas vezes, chega disfarçado de rotina. Numa cidade deste tamanho, as pessoas dividem ruas, praças, memórias e expectativas. Mas cada um de vocês também carrega um universo inteiro de histórias silenciosas. E quase todas elas poderiam ser chamadas, por alguém distraído, de qualquer coisa.
Por essas e outras que essa coluna sempre será um convite à distração ao contrário: um exercício de atenção, no qual falaremos de qualquer coisa. Que é, quase sempre, onde a vida acontece.
Desejo-vos uma semana de muitos pensamentos,
Fernanda C.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Fernanda Curanishi
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