Crônicas do Tempo
Uma máquina do tempo particular
Um fim de tarde, um carro e uma história de memórias e de saudades.
Publicado em
26/04/2026 às 08:29
Atualizado em
Por Emerson Branco
Já era fim de expediente, finalzinho de tarde. O sol começava a baixar como quem anuncia: mais uma batalha vencida. Olhei para o lado e vi minha amiga, agitada.
— Não encontro a chave da minha máquina.
Fiz aquela expressão de quem não entendia exatamente do que se tratava.
— Meu possante — explicou, sorrindo. — Preciso da chave para ir embora.
Bom… não é exatamente meu, mas hoje está comigo.
Em seguida, me convidou para conhecê-lo. Mostrou, orgulhosa, o Fusca, ano 1974.

Era amarelo. Não um amarelo que grita. Era um amarelo de manhã cedo, desses que pedem licença antes de brilhar. Um amarelo que lembrava manteiga passada no pão ainda quente — cor de infância, cor de memória guardada com cuidado.
Gosto de carros vintage, então, claro, pedi para tirar uma foto.
— Pode, desde que eu não apareça — riu. — Tenho algumas fotos com ele, de quando era criança.
Foi aí que percebi: havia algo especial naquele carro. Aquele amarelinho não era apenas uma cor — era um tom que carregava histórias.
Ela começou a contar. Enquanto falava, havia um sorriso e um brilho no olhar. O Fusca era do pai dela. Quem não guarda a lembrança das voltinhas de carro com o pai na infância? Sair pela cidade numa manhã de domingo, com o vento entrando pela janelinha que só abria até a metade. A família toda indo junta — ela e os irmãos no banco de trás, às vezes, disputando a janela, outras apenas encostados um no outro.
E aquele passeio no fim de tarde, quando o sol já estava baixo e o pai dava uma volta a mais, só para prolongar o dia.
Quantos de nós não descobrimos a liberdade aprendendo a dirigir num antigo fusquinha?
Mas cada um segue seu caminho. Com o tempo, o carro foi vendido. Os anos passaram. Minha amiga e os irmãos seguiram a vida — e o Fusca, com todas aquelas voltas ao lado do pai, virou saudade. Ficou gravado na memória e no coração.
Só que o tempo, às vezes, gosta de surpreender.
Restaura o que parecia perdido.
Cria atalhos.
Abre caminhos.
E, de vez em quando, nos faz revisitar o passado.
Anos depois, o irmão dela conseguiu comprar o Fusca de volta. Restaurou cada detalhe. A lataria, os acessórios, o cuidado minucioso — e o cheiro de novo, que aos poucos foi se misturando ao cheiro de antes. Demorou. Mas, quando ficou pronto…
imagino a emoção: entrar no carro, girar a chave, ouvir o ronco do motor como se fosse a mais bela sinfonia. Sentir o cheiro da gasolina — só quem já andou de Fusca entende.
O fusquinha amarelo já não era apenas um carro. Tinha se tornado uma máquina do tempo — carregada de lembranças e saudades.
O pai dela não chegou a ver o resultado. Ficou na saudade — aquela que não ocupa espaço, mas está em tudo. No cuidado que o irmão colocou em cada detalhe, no brilho dos olhos dela ao mostrar o carro… ali, de algum modo, ele continua presente. E, certamente, feliz.
Ela entrou no carro:
— O ar-condicionado não funciona — brincou. — É sempre uma aventura dirigir.
Sorriu.
— Vou pegar minha máquina e partir.
E foi embora.
Eu fiquei ali, com aquela surpresa boa de quem ouve uma história emocionante no fim do dia, sem esperar. Porque as histórias mais bonitas não se anunciam. Elas simplesmente acontecem. E aquela tarde, que já se despedia com o sol cada vez mais baixo, ganhou um sentido que eu não esperava.
Vi minha amiga ir embora. Feliz. Leve. Sorridente. No seu Fusca amarelo — o mesmo que um dia levou a família pela cidade, que guardou risos e silêncios, que foi vendido, reencontrado e renascido. Na sua máquina do tempo particular.
Uma máquina que não leva ao futuro, mas tem o raro poder de devolver o passado inteiro — como o amarelo suave de uma tarde que parece nunca acabar.
As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.
Fonte: Emerson Branco
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