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Sobre os tempos e as alegrias que passam.

No domingo, existe ainda uma espécie de campeonato invisível acontecendo em todas as cidades do Brasil: o torneio do “No meu tempo era diferente”.

Publicado em 24/05/2026 às 08:12
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Sobre os tempos e as alegrias que passam. (Foto: A persistência da Memória (1931) - Salvador Dalí. )

Olá amigos leitores! Que maravilha ter o primeiro dia da semana assim, na companhia de vocês!
Como nossa coluna sempre sai aos domingos, essa semana estive pensando bastante em todos os significados que esse dia carrega. Dia de descanso. Dia de Missa, ou Culto. Dia de arrumar a casa, organizar estudos ou emoções que a rotina semanal não nos permitiu cuidar. Dia de preparar a semana que se anuncia, com certa tristeza de despedida: pelo descanso que está indo embora, mas que queria um dia mais para se espalhar preguiçosamente no sofá da sala.
No domingo, existe ainda uma espécie de campeonato invisível acontecendo em todas as cidades do Brasil: o torneio do “No meu tempo era diferente”. Por vezes, se disfarça de outras expressões, como “Na minha época…”, ou “Quando eu cheguei aqui, e era tudo mato…”. Essa competição sempre nasce da ideia de um passado ideal, em que as relações eram diferentes, e a vida também. Ele começa cedo. Basta juntar três pessoas, café passado e pão na chapa. Em poucos minutos alguém dispara:
— Porque, no meu tempo...
E pronto. Abrem-se os portões da memória. Certamente muitos de vocês já ouviram histórias maravilhosas começando assim. E como alguém que já começa a ser antigo nesse mundo, eu me sinto no direito de ingressar nessa viagem sobre uma outra perspectiva.
No nosso tempo, por exemplo, pedir comida exigia quase um trabalho investigativo. Primeiro, decidíamos o que comer: pizza, hambúrguer, ou qualquer outra iguaria tinha que ser buscada numa enciclopédia comercial: as listas telefônicas. Isso resolvia o problema do contato, mas conhecer as opções do lugar já era outros quinhentos. Descobríamos durante a ligação, que era uma aventura à parte. Você ligava e uma voz gritava do outro lado:
— Alô?!
E parecia que a pessoa estava atendendo no meio de uma final de campeonato. Explicava rapidamente as opções, os tamanhos e os valores da sua futura refeição. Você pedia uma pizza e precisava responder perguntas dignas de um concurso público:
— Rua?
— Número?
— Ponto de referência?
— Casa azul ou verde?
— Tem cachorro?”
E, uma vez finalizado o pedido, em média 1 hora era o tempo até que seu jantar chegasse. Quanto mais detalhadas fossem as instruções de entrega, mais rápida era a entrega. Hoje, a pizza chega com uma precisão militar. O aplicativo sabe onde você está, para onde foi e provavelmente desconfia até das suas fraquezas emocionais. Você acompanha o entregador no mapa igual quem monitora uma missão espacial:
— Olha! Ele virou na avenida! Está chegando!
O aparelho telefônico, nessa época, era artigo tecnológico de última geração. Um luxo doméstico que nós, as crianças, não podíamos acessar. Mas lembro de que aos domingos, esse dia especial, sempre havia a famosa ligação para o familiar que morava longe: um tio, a avó, um ente querido que vivia a centenas ou milhares de quilômetros distante era contatado nesse dia especial. E ali havia afeto, uma estranha forma de presença que também moldou nossas raízes. Sabíamos que a pessoa estava bem, e isso nos fazia igualmente bem.
Hoje, podemos ligar para quem quisermos, na hora que bem entendermos, e vemos a pessoa em tempo real enquanto conversamos com ela. A gratuidade do gesto e a disponibilidade do acesso, não sei como, faz com que nos falemos menos do que na época telefônica. Mas ainda assim, conseguimos seguir os passos das pessoas que nos interessam. Literalmente, quase como detetives.
No nosso tempo, a gente rastreava era a ansiedade. E não é só isso. Antigamente, sair para encontrar alguém era um verdadeiro voto de confiança. Marcava-se às sete na praça e pronto. Não existia o “Save the date”. Não tinha a mensagem: “Estou chegando”. Nem localização em tempo real.
Você apenas acreditava. Era quase romântico. E imprudente, também. Porque, se a pessoa atrasasse, depois de quarenta minutos você começava a imaginar possibilidades:
— Foi sequestrada.
— Foi embora para outra cidade.
— Desistiu da amizade.
— Entrou para um circo.
Hoje, com cinco minutos de atraso, chega uma mensagem:
— Tô aqui.
E, ainda assim, a gente responde:
— Cadê?
Nós também éramos atletas sem saber. A infância era um programa de condicionamento físico involuntário. A brincadeira consistia em correr até faltar ar, subir muro, cair, levantar, desaparecer da vista da mãe por horas, e voltar apenas quando os postes acendiam. A infância corria tão rápido quanto o tempo, e ambos se distraíam com as brincadeiras que a criatividade permitia criar.
Hoje, existe smartwatch contando passos. No passado, quem contava era a mãe:
— Você deu mais de quinze voltas nessa rua. Entra pra dentro.
Mas a verdade é que a memória também gosta de aplicar filtros. É uma espécie de aplicativo vintage da alma. Ela pega as experiências e coloca uma luz bonita. Esconde o calor sem ventilador, a antena da televisão que precisava de um especialista em equilíbrio e o sofrimento que era rebobinar fita cassete.
Porque nem tudo era mágico; Mas muita coisa era.
E nem tudo hoje é correria, tela e pressa. Tem beleza no presente, também.
Existe poesia em apertar um botão e matar a saudade por vídeo. Em receber comida quente sem precisar explicar quinze vezes onde mora. Em ouvir a voz de alguém distante cabendo inteira na palma da mão.
Cada tempo inventa seus milagres.
Talvez a diferença seja que, antigamente, a felicidade andava mais descalça. Pegava sol na calçada, subia em árvore, aparecia sem avisar. Hoje, ela chega de outras formas. Às vezes vem num áudio inesperado, numa tela iluminada, num pedido entregue na porta ou numa conversa que atravessa quilômetros em segundos.
É verdade: éramos felizes no passado. Mas convém não romantizar demais a saudade, porque a saudade é uma excelente fotógrafa: enquadra muito bem, mas corta algumas partes da paisagem.
Éramos felizes, sim. E a boa notícia é que não ficamos tristes agora.
A felicidade só mudou de endereço. Continua morando por aí, às vezes de bicicleta, às vezes por aplicativo. Mas continua ao nosso alcance, pelo correr dos dias, semanas e anos que ainda virão.
Uma semana de alegrias sem filtro para você,
Fernanda C.

As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

Fonte: Fernanda Curanishi