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Sobre o dia em que um porco salvou uma aula

Um porco foi ganho! E minha fé nos caminhos da vida, com isso, foi restaurada.

Publicado em 17/05/2026 às 07:00
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Sobre o dia em que um porco salvou uma aula. (Foto: Os girassóis – Vincent Van Gogh)

Olá amigos leitores! Curtindo a temperatura amena do outono? Eu, particularmente, não gosto, então fico mais atenta aos “quentinhos” que a vida me traz.

Recentemente, eu estava em (mais) uma crise existencial, dessas que se tornam cada vez mais comuns conforme os anos se passam. Dessa a vez, a crise era nítida: profissional. Pergunto-me constantemente se estou no caminho certo, se devo continuar nisso que ainda não é bem uma carreira. As dificuldades são muitas, e a frustração sempre me leva a questionamentos.

O fato aconteceu em um desses dias, quando eu quase decidia largar a profissão. Já havia aplicado prova em uma sala, e estava prestes a aplicar outra, após o intervalo. Estava lidando com alunos nervosos, assustados, alguém chegou a ter uma crise ansiosa, inclusive – legado de outro professor, infelizmente, tirano. Meu coração estava cheio de tristeza. Comecei a distribuir a prova, o clima pesando cada vez mais, quando uma aluna saiu correndo com o celular. Pensei que fosse mais uma em crise. Respirei fundo e segui.

Como vocês lidam com essas dificuldades? Todo trabalho tem momentos apreensivos, não importa o quão empáticos e carinhosos sejamos. Eu rezei, pedindo forças para mim e para eles. Isso já deve ser familiar aos ouvidos de Deus, pois eu constantemente rezo por meus estudantes. E a resposta não demorou a chegar.

Em menos de cinco minutos, a aluna que saiu apreensiva voltou, pegou a prova e se sentou. De repente, disse em voz alta: Professora, perdão por ter saído, mas acabei de descobrir que eu ganhei um porco!

Um porco foi ganho! E minha fé nos caminhos da vida, com isso, foi restaurada. Foi como se as toneladas que pairavam na sala tivessem sido removidas com um sopro. Os alunos, num misto de medo e ansiedade, riram, e ali a insegurança se dissipou. Tudo bem que ela tenha voltado depois da conversa inicial que tivemos, mas agora o clima era outro: mais leve, com a insegurança normal do processo escolar.

- Oi? O que você ganhou, amada?

- Um porco, professora. Um porco ou 700 reais.

Burburinhos na sala:

- E o que você vai escolher?

- A leitoa. Consigo levar a um sítio e fazê-la crescer.

Novo sopro. E desta vez, a angústia levada foi a minha. Em um mundo tão tecnologicamente imerso, onde tantos só pensam em telas e valores Reai$, uma jovem do interior viu pérolas onde lhe foi oferecido um porco. Eu concordei com ela, e muitos colegas também. Ali compreendi que é preciso fazer essa juventude aprender conteúdos sim, mas também ajudar esses jovens a olharem para si e se orgulharem do que são, e do que há ao redor nesse mundão de meu Deus.

É preciso mostrar-lhes que, se o mundo às vezes é cão, a vida também pode ser uma ninhada de filhotes que se deslumbram diante dela, sacudindo os rabinhos de alegria e esperando tudo o que há de melhor nas novas descobertas. A vida é boa. É preciso ensinar as partes difíceis das matérias, mas também fazê-los se orgulhar da própria trajetória, acolhendo os erros com gentileza e conduzindo-os de volta ao caminho seguro do saber.

Muitos colegas partilharam da experiência: uns sugeriram um churrasco, outros sugeriram a venda depois que a porca ganhasse mais peso. Houve até quem sugerisse o planejamento da ceia de Natal. Aquela alegria genuína, uma espécie de partilha, igualou-nos a todos no mesmo nível: humanos felizes pela conquista de outro humano. E isso, para mim, foi um grande tesouro escondido no cotidiano, uma beleza que encontrei naquele dia que tinha sido tão difícil: saber que ainda podemos nos emocionar com a alegria do outro.

E, ao encontrar esse tesouro, compreendi que, apesar das crises e das angústias, era exatamente ali que eu deveria estar. E que devo continuar lutando para permanecer. Acho que foi isso o que Drummond quis dizer no poema A flor e a náusea, mas eu estava nauseada demais na época, para compreender. Senti que também queria participar daquele momento. E a sugestão veio de forma espontânea: ao nomearmos as pequenas vitórias do cotidiano, eternizamos o fascínio sagrado dessas experiências:

- Eu, se fosse você, levaria para o sítio e daria à porquinha um nome. Um sinal de que ninguém deve mexer com ela.

Porque tudo o que recebe nome cria raiz. E, naquele dia, entre uma prova e outra, foi isso que aconteceu: uma leitoa ganhou futuro, e nós, um pouco mais de chão.

Uma semana cheia de ternurinhas,

Fernanda C.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.


Fonte: Fernanda Curanishi