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ENTREMENTES

Sobre a liturgia dos pequenos desencontros

Mas vocês já se perguntaram como isso se infiltra ao cotidiano? E o que diz sobre nosso tempo, sobre nós?

Publicado em 26/04/2026 às 08:18
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Mas vocês já se perguntaram como isso se infiltra ao cotidiano? E o que diz sobre nosso tempo, sobre nós? (Foto: Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte (Georges Seurat))

Olá leitores e leitoras queridos! Todos bem? Espero que não tenham descansado muito no feriado, pois temos outro logo ali, quase ao alcance das mãos. O Dia do Trabalho, enfim, é um feriado que vale a pena celebrar, com merecido descanso, tanto do corpo quanto da mente.

Essa semana não aconteceu nada de extraordinário por aqui. Sem lampejos nos cuidados com os filhos, sem epifanias durante uma ida ao mercado, sem nenhuma situação embaraçosa que tenha me revelado algo sobre a condição humana. Nada muito profundo hoje. Mas perdi um compromisso essa semana, porque meu despertador simplesmente não tocou. Motivo: o aparelho estava no modo silencioso, e eu não percebi. Minha reflexão, desse modo, parte de uma manhã alvoroçada.

Não vou perguntar, pois isso certamente já aconteceu com vocês. Mas vocês já se perguntaram como isso se infiltra ao cotidiano? E o que diz sobre nosso tempo, sobre nós? Algo tão banal e simplório pode revelar um comportamento de nossos dias que tem passado despercebido, ponham reparo.

Parece haver um tipo de espiritualidade meio improvisada nas falhas tecnológicas. Não é milagre, nem chega a ser castigo divino, mas também não é coincidência pura. É como quando o corretor automático transforma aquilo que íamos falar em outra palavra. De repente, um inocente “estou chegando” muda, sem percebermos, para um “estou chorando”. Então, você não está mais atrasado, está emocionalmente abalado. E lá se vão mais dez minutos explicando que não, você ainda não entrou em colapso.

No dia a dia, a gente confia nos nossos dispositivos como quem confia em um amigo antigo. O despertador, por exemplo: você dorme tranquilo, certo de que ele vai cumprir sua missão como um monge disciplinado às seis da manhã. Só que basta um toque errado, um volume no mínimo ou uma conspiração cósmica bem posicionada, e pronto! Você acorda atrasado (assim como eu acordei), confuso, com a sensação de ter sido traído por um objeto inanimado. Dá vontade de olhar para o celular e dizer: “não esperava isso de você”.

Não é o comportamento humano que mudou, continuamos os mesmos. Antes, interpretávamos sinais da natureza. Hoje, interpretamos mensagens. Um “ok” pode significar tudo: irritação, pressa, desprezo ou simplesmente… ok. Mas ninguém nunca acredita nessa última opção. O “kkkk” curto demais já virou um gênero literário: começa leve, tem meio e termina com você revisando mentalmente tudo o que disse nas últimas 48 horas. Hoje, as pessoas não se preocupam, com tanta frequência, se vai chover ou se o inverno será rigoroso. Mas todos nós enfrentamos, diariamente, o desafio de interpretar mensagens ambíguas, enviadas por alguém que digitou com um polegar cansado e zero compromisso com a clareza.

E compreender o outro, então? Confesso: as redes sociais me assustam. O filtro social que usamos em público desaparece completamente, substituído por filtros que afinam o nariz e aumentam o olho. Ali, somos humanos em estado bruto: soltamos nossos leões, e eles brigam ferozmente para ver quem está mais certo. Tudo isso em frases curtas, abreviadas e, muitas vezes, escritas como se cada letra custasse caro.

Imagino que Santo Agostinho ficaria intrigado em 2026. Ele passou a vida contemplando a natureza, a vida e os comportamentos enquanto tentava compreender os mistérios do coração humano. Nós passamos o dia tentando entender o que alguém quis dizer com “blz”, “fds” ou um áudio de dois minutos que poderia ser um “sim”. No fundo, continuamos buscando sentido, só mudamos o campo de batalha.

E enquanto a gente gasta energia decifrando mensagens de três letras, a memória escolhe o que quer salvar. Você sabe, sem esforço nenhum, a letra inteira de uma música de anos atrás, inclusive a parte inútil do “nanana”, mas não faz ideia de onde colocou a chave cinco minutos atrás. Nem o documento importante. Nem a dignidade, às vezes. Se o cérebro fosse um celular, seria daqueles completamente desorganizados: 47 abas abertas, notificações ignoradas, aplicativos que você não lembra de ter instalado e uma atualização pendente há três meses. Funciona? Funciona. Mas ninguém sabe exatamente como.

No fim das contas, a gente vai levando. Entre um áudio de dois minutos que poderia ser um “sim”, um alarme que jura que tocou e uma memória que só funciona quando não precisa, continuamos a existir. Não é exatamente heroísmo, mas também não é pouca coisa. Talvez seja isso: uma espécie de liturgia discreta do cotidiano. Pequenos erros, repetidos todos os dias, e a gente ali, respondendo com um pouco de irritação e, quando dá, alguma graça. Não resolve a vida — mas ajuda a não levar tudo tão a sério.

Amanhã terei outro compromisso importante, que inaugura a semana. De manhã. E contarei com o despertador mais uma vez. Porque aparentemente eu não aprendo. Mas desta vez vou conferir o volume, checar três vezes, talvez até olhar para ele com firmeza, como quem diz: “sem gracinha”.

E desejo, sinceramente, que o despertador de vocês toque. Porque o meu… ainda está em observação.

Com votos de uma ótima semana,

Fernanda C.


As opiniões, ideias, fontes expressadas nessa coluna são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente a posição do Portal da Cidade Paranavaí.

 

 

 

 

Fonte: Fernanda Curanishi